Janeiro de 1999
Nhá Chica: virtuosa personagem do Brasil real
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Brasil Real

Nhá Chica: virtuosa personagem do Brasil real

Há seis anos, foi iniciado em Roma o processo de beatificação de uma compatriota nossa do século passado, em cuja alma refletem-se de modo marcante virtudes características do brasileiro, especialmente fé, devoção mariana e a bondade


Paulo Henrique Chaves

Faz pouco, passando por Caxambu, tive minha atenção voltada para vários estabelecimentos comerciais com um nome ao mesmo tempo antigo e popular, mas com o charme do Brasil real, do Brasil verdadeiro, bem diferente daquele Brasil falseado apresentado pelas novelas de TV.

Satisfazendo minha curiosidade, perguntei ao proprietário da lanchonete Nhá Chica a razão de tal nome. Com calma do montanhês, falou-me longamente a respeito da personagem, cuja vida transcorreu, quase toda ela, na cidade de Baependi, a cinco quilômetros daquela conhecida estância mineira, renomada por suas águas medicinais.

Tirou da gaveta um pequeno livro que trazia a biografia de Francisca Paula de Jesus Isabel, de autoria de Helena Ferreira Pena. Abriu-o e mostrou-me um soneto -- que a diligente autora aproveitou, à guisa de apresentação ao leitor, na 14a edição de seu livro -- dedicado à conhecida e venerada em toda região, Nhá (forma abreviada de Senhora) Chica (forma abreviada de Francisca).

Da lavra do Conselheiro João Pedreira do Couto Ferraz, tais versos, compostos nos idos tempos do Brasil Império – 1873 –, prestam homenagem a Nhá Chica, cujo processo de beatificação foi instaurado no Vaticano, em 1992.

Mas, afinal, quem foi Nhá Chica? Não se imagine uma dama da aristocracia, como as houve no Brasil, até muito virtuosas. Nhá Chica não foi nem pretendeu ser uma delas, mas sim uma moça interiorana voltada para Deus.

* * *

A humilde casa onde residiu Nhá Chica, em Baependi (MG)
Nascida em 1810, em São João del Rei (MG), ainda menina mudou-se com sua mãe para Baependi. Ali, numa modestíssima casa que ainda se conserva, no cimo de um morro onde se ergue hoje a igreja de Nossa Senhora da Conceição, por ela construída, viveu virtuosamente e morreu em odor de santidade no dia 14 de junho de 1895.

Sua certidão de Batismo fala-nos claramente de sua origem:

“Aos vinte e seis de abril de mil oitocentos e dez, na Capela de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filial desta Matriz de São João del Rei, de licença, o Reverendo Joaquim José Alves batizou e pôs os santos óleos a FRANCISCA, filha natural de Isabel Maria. Foram padrinhos, Ângelo Alves e Francisco Maria Rodrigues. O coadjutor Manuel Antônio de Castro”.

Com efeito, por uma pintura, na qual ela é retratada e que se conserva na capelinha de sua casa, percebem-se claramente os traços de mestiça, tão freqüentes em nosso Brasil real. Como afirmou o Conde Affonso Celso, os negros que vieram para o Brasil mostraram-se dignos de consideração por seus sentimentos afetivos, por sua resignação, coragem e laboriosidade. São dignos, pois, de nossa gratidão.

Capela edificada por iniciativa de Nhá Chica, em Baependi, obedecendo ordem de Nossa Wenhora
Segundo sua biógrafa, Nhá Chica era portadora de nobre missão: “Para todos tinha uma palavra de conforto e a promessa de uma oração”. Sua companhia diuturna era uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, em tosco oratório, ainda hoje venerada na igreja, conhecida na cidade como igreja da Nhá Chica. Diante da bela imagem esculpida por hábeis mãos de artista em cuja alma vicejava a fé, pude rezar a oração predileta de Nhá Chica, aliás, umas das mais belas preces compostas nos dois mil anos de cristianismo: a Salve Rainha.

Um fato narrado por Helena Ferreira Pena descreve o perfil espiritual dessa alma de eleição. Certo dia, Nhá Chica recebeu manifestação da Mãe de Deus mediante a qual pedia que Lhe fizesse uma capela. Como isso requeria muito dinheiro, saiu Nhá Chica pelas vizinhanças em busca de auxílio, que não lhe faltou.

Providenciou logo os adobes (tijolo cru). Quando havia certa quantidade pronta desse material de construção, recebeu Nhá Chica ordem de Nossa Senhora para dar início à edificação. Contratou então um oficial de pedreiro que pôs mãos à obra. Encontrando-se os serviços já em certo estágio, o oficial notou que iria faltar material e disse-lhe:

-- “Nhá Chica, os adobes não vão chegar!

Respondeu ela: “Nossa Senhora é quem sabe”.

O pedreiro continuou o serviço e, ao terminar, não faltou e nem sobrou um só pedaço de adobe.

Fatos como esse deram-se ao longo de toda construção até o seu término. Mas Nossa Senhora queria mais alguma coisa. Manifestou a sua serva seu desejo: “Queria um órgão para a igreja”.

Nhá Chica, porém, na sua incultura, não sabia o que era aquilo. Foi consultar o vigário local, Mons. Marcos Pereira Gomes Nogueira, sobre o que era o órgão que Nossa Senhora desejava para a capela.

Segundo vai narrando sua biógrafa, Mons. Marcos lhe disse:

“Órgão é um instrumento até muito bonito que toca nas Igrejas, mas para isso precisa muito dinheiro!”...

-- “Mas Nossa Senhora queria. Na rua São José, casa 73, no Rio de Janeiro, chegou um assim”, disse ela.

Órgão que pertenceu à Serva de Deus Nhá Chica
Mal Nhá Chica manifestara o desejo de Nossa Senhora, as esmolas começaram a afluir abundantes às suas mãos. Foi encarregado da compra o Sr. Francisco Raposa, competente maestro, que partiu para o Rio de Janeiro. O órgão foi despachado até Barra do Piraí (RJ) por via férrea. De lá até Baependi foi levado em carro de boi.

Marcada sua inauguração numa quinta-feira às 15 hs, ela fez tocar o sino, convidando o povo.

Começam a chegar os devotos e a capela ficou lotada. O maestro subiu ao coro e, deslizando suas mãos sobre o teclado, qual não foi a sua surpresa: não se ouviu uma nota sequer! O que teria acontecido?

“Com certeza estragou-se com a viagem em carro de bois, diziam uns. – “Qual! Com certeza venderam coisa velha estragada”, diziam outros.

Nhá Chica chorava... De repente, acalma-se e diz: “Esperem um pouco”. E foi prostrar-se aos pés da Virgem, sua Sinhá.

O povo esperava ansioso. Ela voltou serena e sentenciou:

-- “Podeis voltar para suas casas, porque o órgão não tocará hoje, mas amanhã às 15 hs (sexta-feira), dia da devoção de Nhá Chica.

-- “Nossa Senhora quer que entoem a ladainha”.

E assim se fez. No dia seguinte, novamente o sino soava conclamando os fiéis, que, desta vez, foram em número maior, movidos pela curiosidade.

E às 3 horas da tarde em ponto, o maestro fez ecoar pela primeira vez por toda a igreja, ao som do órgão, a linda melodia da ladainha de Nossa Senhora! As lágrimas desciam dos olhos de Nhá Chica, mas desta vez lágrimas de alegria e felicidade.

Pude ver o órgão, infelizmente em mau estado de conservação, na casinha onde viveu esta personagem muito brasileira, carinhosamente chamada de Nhá Chica. Ele não toca mais.

Caro leitor: se a conselho médico ou para repouso fores a Caxambu, não deixes de percorrer os cinco quilômetros até Baependi, para ouvir, no silêncio acolhedor daquela modesta casa, os conselhos que a graça certamente te inspirará na alma. E encontrarás o único repouso verdadeiro, que é conhecer, amar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.

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Fontes de referência:

Por que me ufano do meu país, Affonso Celso, Coleção Páginas Amarelas, Editora Expressão e Cultura, 1997.

Biografia de Francisca Paula de Jesus, “Nhá Chica”, Helena Ferreira Pena, Editora O Lutador, Juiz de Fora, 14a. edição.

Francisca de Paula Jesus Isabel, Nhá Chica, Mons. José do Patrocínio Lefort – Editora O Lutador, Juiz de Fora, 4a. edição.

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