Agosto de 2010
Harry Potter o sinistro e diabólico anti-conto de fadas
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Harry Potter o sinistro e diabólico anti-conto de fadas

Renato Vasconcelos

Um mundo de horrores, dominado pela magia, está sendo proposto em escala universal a dezenas de milhões de leitores de Harry Potter — uma antevisão do inferno. Principais vítimas dessa leitura: as crianças e jovens.

Frankfurt — Em fins do ano passado deu-se no mundo inteiro um dos mais espetaculares lançamentos de uma obra literária para crianças e jovens. Trata-se da edição do quarto livro da série Harry Potter. A obra, com nada menos que 767 páginas, intitulada Harry Potter e o cálice de fogo, da autora escocesa Joanne Rowling1, despertou um interesse estrondoso, criando mesmo aquilo que se chamou de “pottermania”.

Só na Alemanha esgotaram-se em tempo recorde centenas de milhares de exemplares da obra. Em Frankfurt, mas também em outras grandes cidades, já de madrugada, enfrentando o frio cortante do inverno incipiente, filas enormes de leitores formavam-se junto às portas das livrarias, ansiosos por serem os primeiros a ter em mãos o “precioso” livro...

Imensa foi a orquestração mediática em torno dessa obra destinada ao público infanto-juvenil: tema tratado praticamente por todos os jornais, revistas e televisões, os quais por sua vez atiçaram a curiosidade geral2.

A autora, cujos quatro livros tornaram-se best-sellers com uma tiragem superior a 100 milhões de exemplares em todo o mundo, perfila-se hoje entre os escritores mais lidos do mundo. Um mês depois do apoteótico lançamento do quarto volume de Harry Potter, Rowling recebia da Universidade de Exeter o título de Doctor honoris causa em filologia. Sucesso vertiginoso, quando se considera que há apenas sete anos ela chegava a Londres, divorciada de um jornalista português, com uma filha de um ano, uma mala cheia de manuscritos e sem um centavo no bolso. Hoje, Joanne Rowling vai ganhando prêmios de literatura um após outro. E já é a terceira mulher mais rica da Inglaterra.

Na origem dessa meteórica ascensão encontra-se, sem dúvida, a propaganda torrencial da mídia. Porém, o apoio publicitário não explica tudo. Parte importante no sucesso da escritora escocesa advém, infelizmente, da apetência de numerosos leitores por um mundo tenebroso, oculto e misterioso, que se desvela ao longo das peripécias de Harry Potter e seus amigos3. Tal apetência também parece explicar o extraordinário sucesso de bilheteria alcançado nos Estados Unidos pelo filme Shrek, produzido no estúdio do cineasta Spielberg, que apresenta um gigante ogro monstruoso. Apesar de repelente, Shrek vem atraindo legiões de espectadores!

Os contos de fada alimentam nas crianças o senso do maravilhoso

Adeus ao mundo maravilhoso das fábulas e contos de fada

A literatura infantil dos últimos séculos caracterizava-se por alimentar nos jovens leitores a apetência do maravilhoso, incrementar nas almas o senso de contradição entre o bem e o mal, despertar o horror pelo hediondo e o amor pelo sublime. Mostrar ainda que, apesar de todos os sofrimentos, de todos os reveses desta vida, de todas as armadilhas preparadas pelos maus contra os bons, a felicidade alcançável nesta terra é a que resulta da prática da virtude, da perseverança nas vias do bem; é esta sempre a melhor opção. Candura, inocência, desejo de um mundo fabuloso — uma espécie de pré-figura do Céu — que venha ao encontro das mais puras e elevadas aspirações do coração.

Por outro lado, o mundo dos maus, com sua fealdade, seu hediondo, suas trevas e traições, seus ódios e invejas, tudo isso lembrava o horror da “societas scelerum” (sociedade dos celerados), que é o inferno. E assim elevava-se para as crianças um grande ideal de vida: amar o bem e odiar o mal, praticar a virtude e execrar o vício, abrir-se ao sublime e, nesta ascensão de perfeição em perfeição, de maravilhoso em maravilhoso, ao fim desta invisível escada de Jacó, encontrar a Deus, supremo Bem, infinita Perfeição.

Deste modo, sem mencionar sequer uma frase do Catecismo, eram os contos de fada um possante instrumento para preparar as jovens almas a abraçarem o bem e rejeitarem o mal, em suma, a amar a Deus e odiar o demônio.

Os famosos irmãos Grimm

Da Condessa de Ségur a Rowling: uma queda vertiginosa

Esse alto valor pedagógico dos contos infantis representou, na Alemanha do século XVI, uma poderosa arma da Contra-Reforma católica no combate à obra destrutiva da pseudo-reforma luterana. E no século XIX os irmãos Grimm tornaram-se famosos por sua obra de compilar e difundir os contos de fada, que até então em grande parte circulavam de boca em boca.

Concomitantemente, na França os escritos da Condessa de Ségur — que aliás não eram contos de fadas — exerceram influência igualmente benéfica na formação de sucessivas gerações. Fazendo com que o enredo e os personagens de seus livros tratassem de espinhosos problemas da vida diária do pequeno mundo infantil, numa linguagem atraente, leve, elevada e nobre, ela convidava implicitamente seus jovens leitores a tomarem um perfil moral, cujas notas tônicas eram a honestidade, a lealdade, a nobreza de caráter, a cortesia no trato, a elevação de espírito, a inocência em suma. Talvez muitos leitores se recordarão ainda de O albergue do anjo da guarda, O general Durakine, Os dois bobinhos, As memórias de um asno, para citar apenas alguns de seus livros mais famosos.

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