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Harry Potter o sinistro e diabólico
anti-conto de fadas
Renato Vasconcelos
Um mundo de horrores, dominado pela magia, está
sendo proposto em escala universal a dezenas de milhões de
leitores de Harry Potter uma antevisão do inferno.
Principais vítimas dessa leitura: as crianças e jovens.
Frankfurt Em fins do ano passado
deu-se no mundo inteiro um dos mais espetaculares lançamentos
de uma obra literária para crianças e jovens. Trata-se
da edição do quarto livro da série Harry
Potter. A obra, com nada menos que 767 páginas, intitulada
Harry Potter e o cálice de fogo, da autora escocesa
Joanne Rowling1, despertou um interesse estrondoso,
criando mesmo aquilo que se chamou de pottermania.
Só na Alemanha esgotaram-se em tempo recorde
centenas de milhares de exemplares da obra. Em Frankfurt, mas também
em outras grandes cidades, já de madrugada, enfrentando o frio
cortante do inverno incipiente, filas enormes de leitores formavam-se
junto às portas das livrarias, ansiosos por serem os primeiros
a ter em mãos o precioso livro...
Imensa foi a orquestração mediática
em torno dessa obra destinada ao público infanto-juvenil: tema
tratado praticamente por todos os jornais, revistas e televisões,
os quais por sua vez atiçaram a curiosidade geral2.
A autora, cujos quatro livros tornaram-se
best-sellers com uma tiragem superior a 100 milhões de
exemplares em todo o mundo, perfila-se hoje entre os escritores mais
lidos do mundo. Um mês depois do apoteótico lançamento
do quarto volume de Harry Potter, Rowling recebia da
Universidade de Exeter o título de Doctor honoris causa
em filologia. Sucesso vertiginoso, quando se considera que há
apenas sete anos ela chegava a Londres, divorciada de um jornalista
português, com uma filha de um ano, uma mala cheia de
manuscritos e sem um centavo no bolso. Hoje, Joanne Rowling vai
ganhando prêmios de literatura um após outro. E já
é a terceira mulher mais rica da Inglaterra.
Na origem dessa meteórica ascensão
encontra-se, sem dúvida, a propaganda torrencial da mídia.
Porém, o apoio publicitário não explica tudo.
Parte importante no sucesso da escritora escocesa advém,
infelizmente, da apetência de numerosos leitores por um mundo
tenebroso, oculto e misterioso, que se desvela ao longo das
peripécias de Harry Potter e seus amigos3. Tal
apetência também parece explicar o extraordinário
sucesso de bilheteria alcançado nos Estados Unidos pelo filme
Shrek, produzido no estúdio do cineasta Spielberg, que
apresenta um gigante ogro monstruoso. Apesar de repelente, Shrek
vem atraindo legiões de espectadores!
Os contos de fada alimentam nas crianças o senso do maravilhoso
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Adeus ao mundo maravilhoso das fábulas e
contos de fada
A literatura infantil dos últimos séculos
caracterizava-se por alimentar nos jovens leitores a apetência
do maravilhoso, incrementar nas almas o senso de contradição
entre o bem e o mal, despertar o horror pelo hediondo e o amor pelo
sublime. Mostrar ainda que, apesar de todos os sofrimentos, de todos
os reveses desta vida, de todas as armadilhas preparadas pelos maus
contra os bons, a felicidade alcançável nesta terra é
a que resulta da prática da virtude, da perseverança
nas vias do bem; é esta sempre a melhor opção.
Candura, inocência, desejo de um mundo fabuloso — uma
espécie de pré-figura do Céu — que venha ao
encontro das mais puras e elevadas aspirações do
coração.
Por outro lado, o mundo dos maus, com sua fealdade,
seu hediondo, suas trevas e traições, seus ódios
e invejas, tudo isso lembrava o horror da “societas scelerum”
(sociedade dos celerados), que é o inferno. E assim elevava-se
para as crianças um grande ideal de vida: amar o bem e odiar o
mal, praticar a virtude e execrar o vício, abrir-se ao sublime
e, nesta ascensão de perfeição em perfeição,
de maravilhoso em maravilhoso, ao fim desta invisível escada
de Jacó, encontrar a Deus, supremo Bem, infinita Perfeição.
Deste modo, sem mencionar sequer uma frase do
Catecismo, eram os contos de fada um possante instrumento para
preparar as jovens almas a abraçarem o bem e rejeitarem o mal,
em suma, a amar a Deus e odiar o demônio.
Os famosos irmãos Grimm
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Da Condessa de Ségur a Rowling: uma queda
vertiginosa
Esse alto valor pedagógico dos contos
infantis representou, na Alemanha do século XVI, uma poderosa
arma da Contra-Reforma católica no combate à obra
destrutiva da pseudo-reforma luterana. E no século XIX os
irmãos Grimm tornaram-se famosos por sua obra de compilar e
difundir os contos de fada, que até então em grande
parte circulavam de boca em boca.
Concomitantemente, na França os escritos da
Condessa de Ségur que aliás não eram
contos de fadas exerceram influência igualmente benéfica
na formação de sucessivas gerações.
Fazendo com que o enredo e os personagens de seus livros tratassem de
espinhosos problemas da vida diária do pequeno mundo infantil,
numa linguagem atraente, leve, elevada e nobre, ela convidava
implicitamente seus jovens leitores a tomarem um perfil moral, cujas
notas tônicas eram a honestidade, a lealdade, a nobreza de
caráter, a cortesia no trato, a elevação de
espírito, a inocência em suma. Talvez muitos leitores se
recordarão ainda de O albergue do anjo da guarda, O
general Durakine, Os dois bobinhos, As memórias
de um asno, para citar apenas alguns de seus livros mais famosos.
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