Janeiro de 1996
LIÇÕES DO ATENTADO CONTRA IMAGEM DE NOSSA SENHORA APARECIDA
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Religião

LIÇÕES DO ATENTADO CONTRA IMAGEM DE
NOSSA SENHORA APARECIDA

Reação indignada da grande maioria da população indica o quanto ela aspira por uma pregação religiosa tradicional.

Túlio Rezende

Catolicismo não poderia deixar de tratar do episódio religioso de maior repercussão nacional em 1995: o sacrílego atentado cometido a 12 de outubro, contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

A edição do número especial de novembro e dezembro, dedicado à memória do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, fez com que somente agora possamos fazê-lo.

Três meses após o chocante episódio da agressão a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, no próprio dia da festa da Santa Padroeira do Brasil, perpetrada por um auto-intitulado "bispo" da auto-denominada "Igreja Universal do Reino de Deus", é oportuna uma análise da sadia reação popular a esse sacrílego atentado.

Chocada por tal acontecimento, a opinião pública católica reagiu em uníssono, manifestando, de modo surpreendente para muitos, o quanto a devoção à Santíssima Virgem está enraizada no sentimento religioso de nosso povo.

Há tempos se vem dizendo que, com o progresso das seitas, a porcentagem de católicos no País estaria se reduzindo consideravelmente. Houve até quem falasse que somente 60% da nossa população professa a religião católica. O que pensar disso, diante da quase unanimidade com que os brasileiros manifestaram sua repulsa nessa ocasião? E se a reação tomou este porte nacional, o problema estaria na falta da verdadeira Fé ou na falta de orientação da piedade popular?

O que teria levado tal "pastor" a essa ignominiosa atitude? Terá sido um ato impensado? Não parece. O mais provável é que, por um erro de interpretação da opinião pública, a Igreja Universal tenha julgado o momento propício para externar, pela TV, as agressões que internamente essa seita já faz a Nossa Senhora.

O próprio noticiário da imprensa deixou claro que, inúmeras vezes, em seitas de origem protestante se praticam ofensas brutais a imagens da Virgem Santíssima. Várias delas foram despedaçadas. Já existe o caso de Denilson Fonseca de Carvalho, presidente do Centro de Evangelismo Luz para o Mundo, que foi condenado a um mês e vinte dias de prisão por ter quebrado oito imagens da Padroeira do Brasil.

A PIEDADE POPULAR

O que nos importa saber é o que se passou no seio da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, a única Igreja Verdadeira do único Deus Verdadeiro.

Em 1959, o saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira escrevia em sua fundamental obra Revolução e Contra-Revolução:

"Estatisticamente, a situação dos católicos é excelente: segundo os últimos dados oficiais, constituímos 94% da população. Se todos os católicos fôssemos o que devemos ser, o Brasil seria hoje uma das mais admiráveis potências católicas nascidas ao longo dos vinte séculos de vida da igreja" (Revolução e Contra-Revolução - 2ª edição, Diário das Leis Ltda., São Paulo, 1982, pg. 12).

De então para cá a situação só piorou. Nas últimas décadas, o clero progressista foi abandonando cada vez mais a pregação religiosa, substituindo-a por um discurso político-social a favor da luta de classes. As imagens de Nossa Senhora e dos Santos foram, muitas vezes, retiradas dos altares, substituídas por faixas e cartazes de sabor marxista. As procissões, as associações religiosas, novenas solenes, as cerimônias de bênção do Santíssimo Sacramento e de comemoração dos meses de Maria e do Rosário, que tanto tocavam a piedade popular, deram lugar a "romarias da terra", às comunidades eclesiais de base, ao batuque, ao violão e à música profana.

Infelizmente muitos sacerdotes piedosos, julgando ver nisso uma orientação superior, se omitiram, adotando também tais mudanças.

O povinho fiel, sem perder a antiga fé, deixou aos poucos de freqüentar as igrejas, e foi sendo enganosamente atraído por seitas, em geral de orientação pentecostalista. Proliferando em todo o País, procuram sagazmente atender aos anseios de religiosidade dessa população mais simples, vendendo-lhe curas e milagres.

A imensa reação popular contrária à recente profanação indicou - melhor do que qualquer pesquisa de opinião - o quanto o povo permanece fiel a Maria Santíssima, e como somente a piedade tradicional baseada na devoção mariana o poderá trazer de volta a freqüentar as igrejas.

Atos de desagravo

Essa reação popular foi completada por expressivos atos de desagravo realizados em todo o País. Em Recife, por ordem do Arcebispo D. José Cardoso Sobrinho, milhares de católicos saíram às ruas, ao som dos sinos das igrejas próximas, em homenagem à Virgem Aparecida.

Em Salvador, no encerramento do Congresso do Coração de Jesus, setenta mil pessoas lotaram um estádio de futebol. Após a celebração de solene Missa, o cardeal D. Lucas Neves conduziu a imagem da Padroeira pelo gramado, com manifestações da assistência.

Em todo o Brasil, centenas de paróquias realizaram procissões e outros atos de desagravo.

Reações do Clero

As primeiras reações do clero progressista manifestavam preocupação com o prejuízo que o sacrilégio causava ao ecumenismo. O presidente em exercício da CNBB, D. Jayme Chemello, declarou: "Lamentamos profundamente o fato ocorrido e outras atitudes que se colocam como obstáculo à convivência respeitosa entre os povos e a vivência ecumênica entre os cristãos.... Espero que o povo católico absorva essas agressões, dando testemunho do amor a Cristo".

A CNBB, em nota oficial, lamenta o "ataque da Igreja Universal", o qual prejudica o "diálogo entre as igrejas".

Outras declarações manifestavam o receio de que o incidente desse origem a uma guerra religiosa.

Ante o aumento do clamor popular contra o sacrilégio cometido, começou-se a falar de um grande ato nacional de desagravo. A Comissão Pró-Santuário sugeriu uma grande romaria no dia 19 de dezembro, data em que é comemorada a emancipação do município de Aparecida. Por que esperar tanto tempo para fazer uma manifestação que teria todas as condições de ter um grande sucesso nos dias seguintes ao atentado? Parece mesmo que a preocupação de salvar o ecumenismo foi maior do que o desejo de promover uma grande reparação.

* * *

O povo brasileiro permanece com um fundo de piedade católica muito acentuado. Se o clero progressista retomar o ensino e a prática da piedade tradicional da Igreja e abandonar a pregação da luta de classes, em pouco tempo o Brasil voltará a ser uma nação eminentemente católica, e as seitas de origens e orientações as mais diversas constituirão uma inexpressiva minoria, deixando de preocupar a CNBB.

* * *

Perguntas e Respostas:

Nossos leitores gostarão de saber com exatidão o que a Igreja Católica ensina sobre o culto às imagens, culto esse tão odiado pelos protestantes. O assunto é tratado, de forma didática por Gustavo Antônio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo numa obra divulgada pela TFP: Rainha do Brasil - A Maravilhosa História e os Milagres de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (pp 67-68).

1. Os católicos adoram as imagens?

Não, os católicos não adoram imagens. As imagens são apenas representações de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, dos Anjos ou dos Santos, que nos ajudam a lembrar-nos deles, a amá-los e invocá-los.

É o mesmo que acontece com as fotografias das pessoas que nos são caras: quando nós gostamos de olhar para as fotografias, é nas pessoas que elas representam que estamos pensando, e não nas fotografias enquanto um pedaço de papel.

2. Mas a Bíblia não diz que é proibido fazer imagens?

Não. O que Deus proibiu foi adorar as imagens.

No Antigo Testamento Deus proibiu aos judeus fazer imagens, não porque se tratasse de uma coisa má em si, mas por causa das circunstâncias. Os judeus viviam no meio de povos pagãos idólatras (quer dizer, que julgavam que as estátuas eram deuses ou tinham propriedades divinas, e por isso as adoravam) e tinham muita tendência em imitá-los. Para evitar que eles caíssem no erro dos pagãos, Deus proibiu a representação da divindade por meio de pinturas ou estátuas (õxodo 20, 4-5; Deuteronômio 5, 6-10).

Entretanto, o próprio Deus mandou várias vezes que os judeus fizessem estátuas ou representações simbólicas.

3. Em que parte da Bíblia estão essas ordens?

Essas ordens estão em vários lugares da Bíblia Sagrada. No Livro õxodo, Deus mandou que eles fizessem imagens representando os Anjos Querubins, para serem colocadas ao lado da tampa da Arca da Aliança (Êxodo 25, 17-22).

Em outra ocasião, quando os judeus se revoltaram contra Moisés, no deserto, foram castigados por Deus. Arrependidos, pediram perdão. Deus então mandou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze como um sinal: todos aqueles que estivessem feridos, e olhassem para ela, seriam curados (Números 21,8). Essa serpente de bronze simbolizava Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme foi atestado pelo próprio Salvador: "E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que o Filho do Homem seja levantado (na Cruz), a fim de que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna" (São João 3, 14-15).

Enfim, por ordem expressa de Deus, também Salomão, ao construir o Templo de Jerusalém, colocou significativas imagens que serviam de adorno e de lição para o povo (Reis 6, 23-32; 7, 25-30; 1 Crônicas 28, 17-19, etc.).

* * *

A imagem que se partiu

Destacamos trecho de um artigo (Folha de S. Paulo, 29-5-78) no qual o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, se refere a um sacrílego atentado realizado contra a imagem da Padroeira do Brasil em seu Santuário Nacional. No dia 16 de maio de 1978, o herege Rogério Marcos de Oliveira quebrou o vidro do nicho onde se encontrava a verdadeira Imagem de Nossa Senhora Aparecida, na Basílica velha e tentou levá-la consigo. Na fuga, caiu. Dessa forma, a Imagem partiu-se em pedaços. No exato momento em que a Imagem da Padroeira foi quebrada (20h10), a luz elétrica se apagou em todo o Vale do Paraíba!

Na tarde daquele dia, uma tempestade de pó varrera a cidade. A ventania fora tão forte que o próprio comercio fechou as portas.

* * *

"O Brasil, há mais de dois séculos, venera Nossa Senhora como sua especial padroeira. E essa veneração se dirige a Ela sob a invocação de Imaculada Conceição Aparecida.

- Nossa Senhora Aparecida!

A exclamação acode freqüentemente ao espírito dos brasileiros. E sobretudo nas grandes ocasiões. Pode ser o brado de uma alma aflita, que se dirige a Deus pela intercessão da Medianeira que nada recusa aos homens, e à qual Deus, por sua vez, nada recusa. Pode igualmente ser a exclamação de uma alma que não se contém de alegria, e extravasa seu agradecimento aos pés da Mãe, de quem nos vêm todos os benefícios.

A história da pequena imagem de terracota escura, com o seu grande manto azul sobre o qual resplandecem pedras preciosas, e cingindo à fronte a coroa de Rainha do Brasil - essa história encheria livros. Esses livros, se fossem concebidos como eu os imaginaria, deveriam conter não só os insignes fatos históricos que a Ela se prendem, mas também, em apêndice, as legendas que a piedade popular a respeito deles teceu. É do amálgama de uma coisa e outra -- história séria e incontestável, e legenda graciosa -- que resulta a imagem da Aparecida como ela existe no coração de todos os brasileiros.

* O escravo que rezava aos pés da Senhora concebida sem pecado original, ao mesmo tempo que dele se acercava o dono inclemente, as algemas que se rompem, o coração do amo que se comove etc.

* O Príncipe Regente que saudava a imagem no decurso do trajeto que o levava do Rio a São Paulo, onde iria proclamar a Independência e fazer-se imperador: - o ato do novo monarca colocando oficialmente o Brasil sob a proteção da Virgem Imaculada Aparecida.

* A coroação da imagem com a riquíssima coroa de ouro cravejada de brilhantes, oferecida anos antes pela princesa Isabel, coroação feita em 8 de dezembro de 1904 pelos bispos da Província Meridional do Brasil e de outros pontos do País, em razão do decreto do Cabido da Basílica Vaticana, aprovado por São Pio X.

* O velho Venceslau Brás, ex-presidente da República, assistindo, piedoso, no jubileu de prata da coroação da imagem, à missa hieraticamente celebrada por D. Duarte Leopoldo e Silva, reluzente daquela -- como que -- majestade episcopal tão caracteristicamente dele;

* A solene proclamação do decreto do Papa Pio XI, de 16 de julho de 1930, constituindo e declarando "a Beatíssima Virgem Maria, concebida sem mácula, sob o título de Aparecida, padroeira principal de todo o Brasil, diante de Deus";

* A apoteótica manifestação do dia 31 de maio de 1931, em que o episcopado nacional, diante da milagrosa imagem levada triunfalmente ao Rio de Janeiro em trem-santuário, na presença das maiores autoridades civis, militares, e em união com todo o povo -- mais de um milhão de pessoas! -- consagrou o País a Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

E assim por diante, sem falar das curas, aos milhares. Quantos milhares? Cegos, aleijados, paralíticos, leprosos, cardíacos, que sei eu mais! Multidões e multidões sem conta de devotos, vindas do Brasil inteiro, com as mães contando às criancinhas, ao voltarem para os lares, alguma narração piedosa sobre a Santa, inventada na hora ou ouvida da avó ou da bisavó. Bem entendido, narração enriquecida, de geração a geração, com mais pormenores maravilhosos. Quem conta um conto... Tudo isso levava o Brasil inteiro a emocionar-se - e com quanta razão - ante a pequena imagem de terracota escura, vendo nela o sinal palpável da proteção de Nossa Senhora."

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