Março de 1998
Nova Revolução protestante?
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Atualidade

Nova Revolução protestante?

Graves problemas abalam o catolicismo no mundo de língua alemä

Carlos Eduardo Shaffer
correspondente
Aústria

Viena - Em sua consagrada obra Revolução e Contra-Revolução, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira analisa os grandes movimentos históricos que caracterizaram o processo de destruição da civilização cristä desde o seu apogeu, na Idade Média, até os catastróficos dias em que vivemos. Ele os denomina: as grandes Revoluções da História.

A primeira delas foi a Pseudo-reforma protestante no século XVI; a segunda, a Revolução Francesa, no fim do século XVIII; a terceira, a Revolução comunista já no início de nosso século.

Finalmente, a quarta, da qual somos contemporâneos, teve como episódio detonador mais característico o movimento que eclodiu na Sorbonne, em maio de 1968. Ela se caracteriza por transformações profundas de ordem cultural e corporificou-se, em suas primeiras fases, no movimento hippy.

Em algumas dessas fases do processo revolucionário, exerceram os autores alemäes uma influência marcante.

Muito afeitos ao exercício do pensamento, tendentes a procurar para tudo uma explicação racional, foram tais autores, especialmente na Pseudo-reforma protestante e na Revolução comunista, os pivôs de tais doutrinas, que se tornaram a expressão teológica ou filosófica destinada a justificar e inspirar revoluções.   

Plebiscito na Igreja: uma rebelião interna

Recentes acontecimentos nas regiões de língua alemä fazem recear que um novo movimento de revolta esteja eclodindo dentro da Igreja Católica, como ocorreu por ocasião da primeira Revolução.

O sintoma mais característico disso foi um abaixo-assinado, com data de 3 de junho de 1995, promovido por leigos da diocese de Innsbruck, capital do Tirol austríaco. O principal responsável por essa iniciativa foi um professor de religião, Thomas Plankensteiner.

O texto, que recebeu o título de Kirchenvolksbegehren (Plebiscito na Igreja) e cuja plataforma era definida pelo slogan Nós somos a Igreja, propugnava as seguintes reformas:

1 - Construção de uma Igreja fraternal: igualdade de direito entre todos os fiéis pela abolição das diferenças entre Clero e laicato; participação da igreja local na escolha dos Bispos.

2 - Total igualdade de direito para as mulheres: participação delas em todos os níveis de decisão dentro da Igreja e acesso ao sacerdócio.

3 - Livre escolha para os sacerdotes entre o celibato e o casamento.

4 - Reavaliação positiva da sexualidade: reconhecimento da decisão de "consciência-responsável" em matéria sexual, mais compreensão, em vez de condenação generalizada em matéria de relações pré-matrimoniais e homossexualidade; maior ênfase em outros pontos importantes,  em vez de rigidez em questões sexuais.

5 - Mensagem de alegria, em vez de mensagem de ameaça: maior compreensão para com pessoas em situações difíceis, como divorciados ou sacerdotes que abandonaram a vocação para casar.

Num país como a ≡ustria - que durante muitos séculos distinguiu-se entre as nações católicas por sua fidelidade à Igreja - conseguiu esta petição, tão contrária à doutrina católica tradicional, em poucos meses, o impressionante número de 500.000 assinaturas de apoio.

Mais ainda. A ela aderiram muitos sacerdotes que colocaram listas para serem assinadas nas portas de suas igrejas.

O movimento se estendeu à Alemanha e Suíça, onde também recebeu o apoio de padres, tendo sido coletadas muitas assinaturas.

O Bispo de Graz, Johann Weber, Presidente da Conferência Episcopal austríaca, um mês após o início da coleta de assinaturas declarou estar disposto a recebê-las e iniciar um diálogo exaustivo com os promotores do movimento

O Bispo de Innsbruck, Reinhold Stecher, declarou em um programa de rádio, no início de julho de 95, que não via no texto do abaixo-assinado "nenhuma heresia".

O Bispo de Sankt Pölten, Kurt Krenn, assumiu uma posição contrária ao movimento, criticando-o severamente. Recordou ele que, em outra ocasião, a maioria do povo austríaco também se tinha enganado, tendo isso ocorrido em 1938, quando votou a favor da anexação da ≡ustria à Alemanha de Hitler.

A discussão em torno dos temas levantados por esse abaixo-assinado tem aflorado constantemente, desde junho de 1995 até o presente momento, na vida da Igreja Católica na ≡ustria.

Em novembro do ano passado, o Bispo de Innsbruk enviou a seus colegas de Episcopado da ≡ustria, Alemanha e Suíça, bem como a diversas personalidades nos campos da filosofia e da teologia, uma carta na qual defende maior participação dos leigos na vida da Igreja. A missiva acabou sendo divulgada pela imprensa, causando grande polêmica em todo o mundo de língua germânica.

Contestação da moral católica tradicional

Na Alemanha a opinião pública católica vem sendo abalada, também desde junho de 1995, por uma discussão de caráter moral a propósito da lei que regulamenta o aborto.

Tal lei permite que o aborto seja praticado até a décima segunda semana da gravidez, desde que a gestante se faça aconselhar por uma junta oficial, a qual, em princípio, deve sempre defender a vida da criança.

Ao término das entrevistas, seja qual for a decisão tomada pela mäe, a junta deve emitir um certificado de aconselhamento, o qual permite que o aborto seja feito sem conseqüências penais tanto para a mulher quanto para o médico que o praticar, embora o fato seja considerado, pela lei, como crime. É um delito que não pode ser punido...

Ora, acontece que um grande número das juntas de aconselhamento é mantida pela Igreja Católica que, para isto, mantém um convênio com o Estado alemão. A emissão de tal certificado constitui uma "cooperação em ações moralmente más" (cfr. João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae, n.74), o que é condenado pela moral católica, como foi claramente demonstrado pelo teólogo jesuita da Universidade de Munique, Pe. Giovanni Sala S.J..

Desde o início da aplicação dessa lei, o Bispo Johannes Dyba, de Fulda, tomou a decisão de manter as juntas de aconselhamento de sua Diocese, porém sem emitir o mencionado certificado, qualificado por muitos "a sentença de morte para a criança". Até o início deste ano era o único Bispo alemão que assumira esta posição.

Em janeiro deste ano, João Paulo II enviou ao Episcopado alemão uma carta, na qual determina que as juntas de aconselhamento dependentes da Igreja Católica procurem continuar aconselhando as mulheres que recorrerem a este serviço, sem emitir entretanto o atestado que permite a efetivação do aborto.

Embora o Pontífice não tenha estabelecido uma data limite para o cumprimento dessa determinação, causou muita estranheza nos meios anti-abortistas o longo prazo que o Episcopado acha necessário para se adaptar a tal orientação do Vaticano: os estudos para se encontrar uma solução poderão durar até um ano. Durante este tempo, os certificados continuarão a ser emitidos como até agora o foram.

No dia 22 de janeiro último o Cardeal Meisner, de Colônia, declarou que em sua Diocese os certificados não serão mais emitidos.

Em sentido contrário, isto é, pela emissão do certificado em qualquer circunstância, manifestaram-se na mesma data, os Bispos de Trier, Limburg e Freiburg.

Em dezembro do ano passado, causou muita polêmica uma declaração do Arcebispo-bispo de Mainz, Presidente da Conferência Episcopal Alemä, atribuindo a Lutero a honra de ser "doutor das duas igrejas", a católica e a protestante.

Desvios em matéria de costumes

Além dos graves erros de caráter doutrinário acima mencionados e outros mais, agravam a situação, tanto na ≡ustria como na Alemanha, escândalos em matéria de costumes atribuidos a membros do Clero.

Numerosos são os casos de abuso de menores e de homossexualidade, praticados por religiosos, sem falar de ligações amorosas com pessoas adultas do outro sexo.

O caso que teve mais repercussão internacional foi o do Cardeal Groer, Arcebispo de Viena, que em 1995 foi acusado de atitudes homossexuais em relação a um aluno, quando era professor num seminário. O Cardeal não se defendeu dessas acusações e pediu demissão do cargo. 

No início do presente ano foi novamente acusado do mesmo vício, desta vez por confrades seus da Ordem de São Bento. Em vista disso, foi obrigado pelo superior da Ordem a abandonar o cargo de superior da Abadia de Maria Roggendorf, que ocupava desde que se desligou da diocese de Viena (cfr. "Frankfurter Allgemeine Zeitung", 20-1-98).

Muitos são os comentaristas que prevêem para um futuro não muito distante uma nova divisão na Igreja Católica dentro do mundo alemão, de proporções difíceis de aquilatar.

A situação não é muito diferente em outras nações européias.

Em que medida uma atitude de rompimento com a doutrina e a moral tradicionais na Igreja Católica, nesta parte da Europa, será pretexto para atitudes semelhantes em outras regiões?

O caso de Mgr. Gaillot, na França, hoje um tanto fora dos noticiários, não voltará à cena?

Peçamos a Nossa Senhora de Fátima, que veio em 1917 advertir o mundo daquela época pelos  graves desvios que já se faziam sentir, a graça de uma intervenção divina, a fim de evitar desvios ainda maiores. Roguemos a Ela que o seu Imaculado Coração logo triunfe, mesmo que para isto tenhamos que suportar severos castigos.

 

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