Janeiro de 2007
Arte contemporânea: o demônio revela sua face
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Arte Contemporânea

Arte contemporânea:
o demônio revela sua face

Antevisão de um mundo de amanhã, tal como Satanás poderia desejá-lo, a “arte” contemporânea está inserida numa verdadeira revolução para destruir o belo e subverter a ordem natural estabelecida por Deus

Adolpho Lindenberg

Habituamo-nos a considerar as várias escolas artísticas que surgiram no início do século passado — o abstracionismo, o concretismo, o cubismo, o surrealismo, o dadaísmo e tantas outras — como pertencentes ao imenso contexto da “arte moderna”. Boa parte do público as acusa de ser extravagantes, absurdas e hostis ao bom senso. Mas a reação diante delas, de um modo geral, é de indiferença, curiosidade ou aplausos por um ou outro quadro.

A partir de 1960, no entanto, potencializada pelo movimento estudantil de 68 na Sorbonne, eclodiu uma verdadeira revolução nos domínios da arte: o aparecimento da assim denominada Arte Contemporânea (AC). Ela não se apresenta como uma evolução natural das escolas anteriores, mas se afirma como uma verdadeira ruptura com todo o passado, diversa tanto das escolas acadêmicas como do modernismo. Uma total negação dos conceitos e valores vigentes até então. Seus próceres visam não só destruir os alicerces da atual civilização, como se propõem a criar uma anti-arte revolucionária, violenta, amoral, transgressiva, um verdadeiro atentado à ordem estabelecida por Deus.

Os “milagres da Arte Contemporânea


Para descrevermos a AC, ao menos em suas linhas gerais, recorremos a dados contidos na obra de Christine Sourgins, historiadora da arte no Louvre, denominada Les mirages de l´Art contemporain,(1) publicado pela La Table Ronde. Nesse magnífico livro muito bem documentado, verdadeiro brado de alerta, a autora, além de citar afirmações realmente incríveis dos “artistas” da AC — se é que assim se possa denominar as figuras dominantes dessa escola —, denuncia o apoio acintoso do ministro da Cultura da França e de alguns elementos do clero, até mesmo de bispos católicos, à AC. Estamos diante de mais um episódio do misterioso “processo de autodemolição” da Igreja, denunciado por Paulo VI.

Prepare-se o leitor, vamos entrar num dos sendeiros do inferno. Cenário dantesco, de abjeção e repugnância. Antes de entrarmos por esses abismos, julgo conveniente lembrar a definição do belo, enunciada já pelos gregos e assumida pelos escolásticos: “Belo é o esplendor da verdade!”. A beleza é a verdade em estado de esplendor! Convém que mantenhamos esse conceito na mente, para podermos compreender toda a extensão do horror que iremos apresentar.

Arte revolucionária – destruição do passado

Marcel Duchamp

Os partidários da AC não escondem seu objetivo: revolucionar o mundo. A intenção é antiga e foi sempre enunciada pelos artistas modernos: ir além das metas políticas e econômicas confessadas, por exemplo, na Revolução Russa de 1917.

Entre os revolucionários conhecidos, a autora cita o pintor e militante comunista Vasili Kandinski,(2) o qual pregava que “o artista é mais apto que o militante para provocar o advento de uma nova sociedade, porque ele visa uma revolução espiritual” (p.13).

O surrealismo compartia esse ponto de vista e chegava a postular que, comparado ao projeto artístico das novas escolas, a revolução soviética na Rússia foi um mero ensaio (p.13).

A AC “assume esse messianismo temporal”. Por exemplo, o grupo BMPT (ativo em 1966-1967) sustentava que “até agora a arte tem sido o ópio da burguesia dominante. Todo artista tem por obrigação refutar o sistema”. Mas a AC vai além da simples tentativa de revolucionar o mundo: “a AC pretende remodelar a sociedade e o ser humano” (p.13).


Marcel Duchamp, 1917

A origem simbólica da AC remonta a uma exposição de arte em Nova York, em 1917, onde Marcel Duchamp(3) apresentou um urinol com os dizeres: “Eu te batizo, e por esse batismo eu te faço entrar no mundo da arte” (p.215), em blasfema paródia do batismo católico. De fato, como insistem os propugnadores da AC, essa escola tem um caráter de iniciação numa suposta “nova via da redenção” (p.221), que trilha pelas estradas do lúbrico, oculto e horrendo. Naquela ocasião, a reação do público foi grande, mas a partir dessa iniciativa os desvarios foram se multiplicando. Leda Catunda, artista plástica brasileira, em entrevista a “O Estado de S.Paulo” em 3-12-06, declarou: “Duchamp não é fácil. Nenhum outro artista puxou o tapete da arte e causou o deslocamento de parâmetros que sua obra provocou. Sem dúvida, ainda é o artista mais indispensável”.

Duchamp afirma que “a arte está além do visível, para compreendê-la é necessário possuir ‘as chaves’, ser um ‘iniciado’”. O artista deve ser um “mago iniciado”. AC é a expressão de um pensamento dominante que não quer revelar seu nome. Ela substitui o marxismo pelo niilismo negador de todo ser. “A AC é um terreno no qual os niilistas e as forças progressistas se unem contra o inimigo comum: a burguesia. Todo artista deve destruir o passado”.

Anticultura — a “não-arte”, ódio à arte

Herman Nitsch...

Herman Nitsch, apelidado o “ogre austríaco”, foi mestre do grupo dos Acionistas, — que exploram o “sacrifício humano” como tema central (p.219) e em 1962 representou no castelo Prinzendorf (Áustria) uma obra teatral de vanguarda, com cenas de rituais dionisíacos, verdadeiras orgias das quais participavam mulheres nuas, com evisceração de animais, casulas ensangüentadas, etc. (p.216).

 

 

 

...e uma de suas "obras de arte"
Sangueira e pornografia, tidas como manifestações artísticas top. Afirma que suas cenas convulsivas e brutais partem de um fato: a violência sempre esteve no coração da arte, e só uma revolução artística é capaz de mudar o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

Gilbert Brownstone

AC é revolucionária sobretudo porque prega a destruição da harmonia, do belo, do sublime, da hierarquia, da transcendência e do simbolismo na arte. Poder-se-ia afirmar que é a arte do próprio demônio, um de seus instrumentos para construir um novo mundo, totalmente oposto ao desejado por Deus. É doutrina católica que Deus criou o mundo separando os elementos, dando a eles autonomia e os articulando. E a AC orienta-se numa direção oposta: ela visa a descriação pela desordem.

 

 

 

Gilbert Brownstone, especialista em arte e co-autor, junto com Mons. Albert Rouet, arcebispo de Poitiers, do livro L´Église et l´art d’avant garde, La Chair et Dieu (Albin Michel, Paris, 2002), venera o trágico, o absurdo, o nada. A contracultura é a ponta de lança da anti-arte. Quer substituir a ordem da Criação por manifestações desordenadas, caóticas, pelo gosto dos dejetos, secreções corporais e expressões as mais diversas de morbidez.

Segundo o professor da Sorbonne Jean-Louis Harouel, a AC confiscou o nome “arte” para esvaziá-lo de seu sentido. AC é uma “não-arte”, ela é o ódio à arte.

 

 

 

 

O combate à transcendência e à beleza

Thomas Hirschhorn

AC não visa a transcendência, mas recusa-a; não visa a harmonia, e sim a desestabilização da sociedade. Por isso, o pintor Thomas Hirschhorn afirma: “Eu empenho toda minha energia para lutar contra quaisquer qualidades que, por acaso, se revelem em minhas obras”.

A concepção beleza-harmonia é recusada a favor duma beleza-ativista, que horroriza, angustia e perturba o espírito. O belo não é mais o esplendor da verdade, mas a exaltação da violência.

Um dos jargões da AC é que a nova “arte” deve criar algo que não se assemelhe a nada, que seja uma negação. A beleza clássica é desqualificada pela AC. Por isso, no Museu de Arte Moderna, em Nova York, foram expostos peixes podres decorados com pérolas verdadeiras, vistos como “manifestação sombria da beleza”.


"Utopia" - Thomas Hirschhorn, Boston

O pintor Simon Hantaï pergunta: “Como vencer o privilégio estético do talento?”. E ele próprio responde como niilista: “Pintando com os olhos fechados e pensando em outras coisas”.

A escritora Elizabeth Levy, em seu livro Les maîtres censeurs, dedicou um capítulo à AC, à qual ela denomina arte do ódio, pois seus adeptos denunciam com violência e fanatismo quaisquer críticas como sendo delitos ou manifestações de um espírito reacionário e opressivo.

Transgressão, amoralidade, monstruoso


Gilbert Brownstone e Mons. Rouet, no livro acima citado, afirmam: “A arte tradicional, em geral, apresenta o bem, o moralmente correto. Nós, os artistas, acreditamos no ciclo da vida: num momento, a flor, noutro, a podridão”. E porque tudo se transforma, a moral de hoje não será a de amanhã; a sexualidade, os posicionamentos religiosos estão em revolução permanente”(p.225). E Mons. Rouet – que limita o obsceno às “injustiças sociais” – acrescenta que o voyeurismo e o exibicionismo “são um exorcismo ‘ao inverso’, que não expulsa os demônios, mas os atrai para participar no tribunal da obra [artística ](p.226).

AC almeja descondicionar o espectador, mediante a eliminação de todos os princípios, todos os hábitos, todos os valores, pois esses são os inimigos: os preconceitos dos quais é preciso se liberar.

Como a transgressão é considerada uma transformação, uma mutação, o novo humanismo deve ser transgressivo. A vedette de nossos dias é, por conseguinte, o monstro, o clone, o andróide, o transexual, o híbrido, o podre, o sacrílego, o satanista.

AC é a transgressão sobre transgressão. É como dirigir deliberadamente na contramão. Ou como rezar estultamente: “Santa Transgressão, rogai por nós” (p.226).

Paul Mac Carthy(5) apresentou no museu de Angoulème a obra “The Garten”. Era um manequim de um jovem, com movimento ondulatório e com as calças abaixadas, fornicando num tronco de uma árvore. Em 2000 a exposição “Inocentes presumidos”, exposta em Bordeaux, que incluiu 200 obras de AC de 80 artistas dos mais célebres, foi denunciada por entidades que lutam contra a pedofilia por “difusão de imagens de caráter pedo-pornográfico” e “corrupção de menores”. D. Rouet, no livro citado, deplora a denúncia das associações, argüindo que “ela se inscreve na inflação de práticas repressivas exercidas tanto pelos poderes políticos quanto por certas associações de defesa da moralidade pública”.(5)

A transgressão como arte, a simpatia com o crime

André Breton comentou que “nossos heróis são os criminosos anônimos do direito comum, o sacrilégio consciente e raffiné”. O artista mexicano Calderón rouba toca-fitas de automóveis estacionados, é preso e se faz fotografar, eufórico, pois “a transgressão é uma arte”. Quanto mais transgressão, mais arte, mais sagrado... a ruptura, o “Non serviam” é o ídolo secreto da AC.

Marguerite Duras publicou um artigo no jornal “Libération”, de Paris, intitulado Sublime, verdadeiramente sublime, no qual tomou o partido de Christine Villemin, suspeita de ter assassinado seu próprio filho, “não para desculpá-la, mas para glorificar o crime” (p.91).

Uma exposição no Louvre, “A pintura como crime”, terminou num ambiente de açougue. Peças indicando automutilação, autocrucificação, masoquismo, sacrifícios humanos, etc.

Stockhausen, autoridade em música serial, homenageado pelas autoridades de Hamburgo, fez um vibrante elogio ao terrorismo: “O atentado às torres de Nova York foi a maior obra artística do mundo. Comparados a seus executores, nós os artistas não somos nada”. Perguntado pelos jornalistas se crime e arte são a mesma coisa, respondeu: “O abandono da segurança e da normalidade da vida é o próprio da arte”. A seguir afirmou que a destruição das torres foi a maior obra de Lúcifer.

O crime hipnotiza a AC. O artista não hesita em se comparar a um criminoso, e reivindica pela sua arte um status de fora da lei, pois “são senhores que estão acima do bem e do mal”.

Horror, desequilíbrio, satanismo

Lamentamos ter de conduzir os leitores para uma ante-sala do inferno, pois não existe termo mais apropriado para indicar as pseudo-obras de arte com que os próceres da AC infestam os museus, as exposições e as revistas artísticas da França. Essa nação, a filha primogênita da Igreja, que já foi palco da Revolução Francesa e da revolução estudantil de maio de 68, está sendo agora vítima de um vendaval de quadros, esculturas, peças de teatro que parecem querer varrer da face da Terra quaisquer vestígios de moral, bom senso, equilíbrio, beleza e harmonia.

Aprofundemo-nos nesta descida para o “mar de danação”, como diria Dante:

Herman Nitsch, já citado, afirma: “Minhas representações com cenas convulsivas e brutais têm por objetivo alterar o entendimento humano. A violência sempre esteve no coração das artes. Ela faz parte da vida, ela é necessária” (p.200). André Breton escreveu em 1935: “O mal é a forma sob a qual se apresenta a força motriz do desenvolvimento histórico. Esse mal, é preciso que se tenha a coragem de desejá-lo”. E a autora acrescenta: “Quanto mais violento, mais sagrado é. Quando um artista se joga no chão e morde realmente as pernas dos espectadores como se fosse um cachorro, a experiência dessa violência faz com que a arte se eleve a dimensões metafísicas do real” (p.200).

A revista “Nouvelle Figuration” consagra o canibalismo e a tortura como atividades artísticas: “O canibalismo e a tortura podem ser considerados como obras de arte”.

Artistas chineses, pertencentes ao grupo Cadáver, alimentam-se de fetos humanos abortados, em atos tido como manifestações de arte.

Uma artista expõe um quadro no qual figura uma moça canibalizando-se a si própria.

O “artista” russo Oleg Kulik,(6) numa de suas exposições, se transforma em cachorro com coleira, nu, de quatro patas. Cheira e morde os transeuntes. Afirma que “o animal é o futuro do homem”.

Existem peças de teatro que estão sendo exibidas nos banheiros da Universidade de Saint Denis, porque “o ambiente facilita a apresentação de ‘dramas fecais’”.

Os irmãos Chapman(7) fabricaram bonecos representando crianças siamesas unidas pela cabeça, com órgãos sexuais masculinos de adultos. O objetivo foi “mostrar o realismo da monstruosidade na infância”.

Jan Fabre: vitrais que expõem aberrações pornográficas

Jan Fabre,(8) celebrado artista plástico, montou vitrais onde se entrelaçam intestinos, crânios, cólons, copulações de crianças e de porcos! (p.82).

O diretor do muito falado Centro Beaubourg, em Paris, degrada o homem ao ponto de dizer que “o animal na arte é mais humano que o homem: o corpo animal é o corpo adâmico, antes da História”. O escultor Tinguely, uma das figuras da AC, expôs esculturas que se autodestroem. E Carsten Höller, considerado um gênio pela AC, figurou na capa da revista “Beaux Arts”, em número especial. Inventou armadilhas para crianças — bombons que dão choque quando tocados, e bolos com picadas de agulha.

Catherine Grenier encontra na doença psiquiátrica um instrumento para juntar-se à libertação destrutiva : “A depressão para os artistas não deve ser combatida, pois ela é a porta de acesso às verdades do mundo” (p.217). Por fim, acrescenta blasfemamente que o palhaço deprimido é a melhor imagem de nosso adorabilíssimo Senhor Jesus Cristo! (p.221).

“A cloaca”, de Wim Delvoye

A FNAC, que escolhe obras de arte para o Estado, expõe, numa redoma de plástico, material orgânico em decomposição. “Nós queremos que o público participe e seja cúmplice de cada acontecimento, nossa agressividade deve provocar uma agressividade por parte do público: uma verdadeira catarse”.

O grupo SEMEFO (sigla de Serviço Médico Forense), cuja musa é a mexicana Teresa Margolles,(9) trabalha com arte macabra, com restos de cadáveres. Expõe como arte o corpo de um bebê (comprado à mãe, que não tinha dinheiro para enterrá-lo), cimento, cinzas humanas, cabelos. Noutra ocasião, ela expôs uma língua humana retirada de um punk morto. Seu pretexto: tinha piercings, símbolo do desprezo punk pelas normas sociais.

Wim Delvoye,(10) com uma equipe de pesquisadores, montou uma máquina que trabalha como o intestino humano, fabricando fezes, chamada A cloaca.

Apoio estatal para impor ao público uma anticultura

Um diretor do Ministério da Cultura francês chegou a afirmar: “Fora do dadaísmo e da AC nada existe. Você não é contemporâneo, você está morto”.

Os museus franceses fazem encomendas de quadros da AC, quando é sabido que a aquisição de obras de arte só deve ser feita após a consagração das mesmas pelo público.

O Ministério da Cultura pretende transformar a AC num serviço público de criação artística, pois ela já domina museus, exposições, centros de arte, etc.

Por sinal, um por cento do orçamento da França — 2,45 bilhões de euros — é gasto com o Ministério da Cultura, o qual, por sua vez, subvenciona a AC. E enquanto o americano gasta 6 euros por ano com atividades artísticas estatais, e o inglês 20, o francês gasta 75 .

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