Janeiro de 2007
Por que as religiões ainda importam? Muitos diziam que, com o progresso da ciência, as questões religiosas ficariam para trás.
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
A Palavra do Sacerdote

 
Cônego José Luiz Villac

Pergunta 1 — Por que as religiões ainda importam? Muitos diziam que, com o progresso da ciência, as questões religiosas ficariam para trás.

Resposta — A verdadeira Religião serve para ligar — do latim religare — o homem a Deus. A crença de que o progresso da ciência deixaria a Religião “para trás” decorre de uma ignorância crassa, quando não de má-fé. Em primeiro lugar, havia a persuasão — hoje praticamente abandonada — de que as descobertas da ciência seriam suficientes para explicar todos os fenômenos do universo. Não haveria, portanto, a necessidade de Deus para justificar a existência do mundo. Em segundo lugar, havia a esperança de que o progresso tecnológico decorrente dos avanços da ciência seria capaz de satisfazer todas as necessidades do homem, não só dilatando a vida humana mas até vencendo a própria morte.

Na verdade, essa persuasão é totalmente falsa: no campo teórico, pois o alcance da ciência, por mais fabulosos que tenham sido os seus progressos, é claramente delimitado; no campo prático, onde por mais que a vida humana seja dilatada, haverá um momento em que o homem fatalmente se deparará com a morte.

Analisemos estas afirmações que acabamos de fazer.

Missa clandestina na China, em 1995

Alguns cientistas blasonam de que os progressos da ciência têm feito recuar o ponto onde os crentes na existência de Deus colocam o instante do ato da criação. Esse recuo no tempo de fato corresponde à realidade e, se autêntico, poderia representar um avanço da ciência. Ora, por pouco que um espírito sensato raciocine, perceberá que não é possível proceder ad infinitum, porque sempre será necessário explicar como surgiu o núcleo inicial desse universo que aí está. A menos que se admita, como os gnósticos, que o universo seja imanente, isto é, que ele deu origem a si mesmo, o que é um absurdo total.

Por isso, não são todos os cientistas que se fecham à existência de Deus, havendo um numeroso contingente deles, de grande renome, que colocam Deus no início de todas as coisas, segundo o relato bíblico inspirado pelo Espírito Santo: “No princípio, criou Deus o céu e a terra” (Gen 1, 1).

Analisada assim a questão do ponto de vista teórico, mais fácil ainda é reconhecer as limitações da ciência em atender na prática às necessidades vitais do homem. Os mais otimistas falam em dilatar o limite normal da vida humana para os 120 anos. E depois?

Depois... é preciso explicar o que vem depois!

Esse é o papel da Religião: indicar o sentido da vida presente; que a separação entre a alma e o corpo, pela morte, é provisória; e que o homem se recomporá (ressuscitará) em vista de uma vida futura de bem-aventurança eterna, para os bons, e de castigo eterno, para os maus. Bons e maus que serão tais, não conforme os nossos juízos humanos, mas segundo o Juízo de Deus.

O fato é que se assiste hoje por todo o mundo a um reviver de um sapiencial sentimento religioso, que mostra a inanidade daquela crença cega no progresso da ciência e da tecnologia. E daí o voltar-se para a Religião.

Neste ponto não podemos deixar de fazer notar que a pergunta põe em foco “as Religiões”, no plural, e que a presente resposta recalca com insistência “a Religião”, no singular, ou seja, a Religião verdadeira, Católica Apostólica Romana, por ser a única instituída diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus.

Pergunta 2 — Boa parte dos conflitos atuais tem uma conotação religiosa. Por quê? Qual a exata participação dos católicos nele?

Comunistas fuzilam a estátua do Sagrado Coração de jesus, durante a guerra civil de 1936 - 1939, na Espanha

Resposta — A pergunta não afirma que boa parte dos conflitos atuais tem natureza religiosa, e sim que tem “uma conotação religiosa”. O matiz é importante porque, segundo se pode observar, o componente étnico de muitos desses conflitos é predominante, para não mencionar os motivos de ordem política ou social.

Na verdade, com a secularização e conseqüente descristianização das sociedades ocidentais, na mente de muitos de nossos contemporâneos há uma espécie de apartheid, segundo o qual a Religião constitui um compartimento separado dos demais aspectos da vida. E nos surpreendemos quando o componente religioso se manifesta nas ações corriqueiras da vida, máxime nas ações de importância culminante, como é um conflito entre grupos étnicos ou nações.

Bem vista a natureza humana como ela é, não existe esse apartheid mental, nem sequer na cabeça de muitos ateus, que se dizem tais “graças a Deus”... Nada de estranhar, pois, que em muitos dos conflitos atuais a conotação religiosa faça o seu surgimento.

Quanto à participação de católicos nesses conflitos, há o caso bem conhecido de Belfast, na Irlanda, entre católicos e protestantes, que de momento parece aplacado. Na África, os componentes étnicos e políticos são de tal maneira salientes nos conflitos em curso, que o componente religioso — que saibamos — entra secundariamente.

O que cumpre destacar, isso sim, é a perseguição religiosa que as minorias católicas sofrem em certos países muçulmanos, budistas ou confucionistas da Ásia e Oceania, para não falar do caso peculiar da China, em que o Estado comunista criou uma igreja local separada de Roma, submissa ao regime, e persegue tenazmente os católicos fiéis ao Papado.

Pergunta 3 — Quais os perigos do fanatismo religioso?

Um dos ataques contra mesquitas, na luta atual entre xiitas e sunitas, no Iraque

Resposta — Convém precisar o que se entende por “fanatismo”. É comum que pessoas pouco afeitas à prática religiosa tachem de fanático todo aquele que leva a sério a Religião, cumprindo conscienciosamente seus preceitos. Não é certamente isso que o autor da pergunta tem em vista. Mais provavelmente ele quer se referir àqueles que, levados por uma compreensão errônea de sua profissão religiosa, reagem destemperadamente contra qualquer pretenso insulto à sua religião. Aí se configura perfeitamente o perigo do fanatismo religioso. O combate aos erros e heresias, mesmo quando levado às últimas conseqüências, sempre deve partir de um equilíbrio da alma que ama o bem e odeia o mal. Não é por cegueira de alma (fanatismo), mas por amor à verdade.

Outra manifestação do fanatismo religioso seria querer impor a conversão dos infiéis por meio da força, como consta do “Alcorão” dos maometanos, segundo a célebre fórmula “ou crê ou morre”, da qual há exemplos históricos célebres, sistematicamente condenados pela Igreja.

Por fim, os atos de terrorismo noticiados diariamente pela imprensa, nas mais diversas partes do mundo, são uma manifestação dos abismos de crueldade a que pode chegar um homem deformado pelo fanatismo.

Mas, convém repetir, isso nada tem a ver com uma sadia e fervorosa dedicação a um autêntico ideal religioso. Não confundamos uma coisa com outra. O contrário seria cair num fanatismo anti-religioso... Há exemplos disso nas sociedades hodiernas!

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão