Março de 2009
São Clemente Maria Hofbauer Intrépido defensor da Igreja
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Vidas de Santos

São Clemente Maria Hofbauer
Intrépido defensor da Igreja

Considerado o segundo fundador dos redentoristas, perseguido pelo mau clero, destacou-se por seu amor ardente à Igreja e ao Papado e pela argúcia em detectar erros contra a fé

Plinio Maria Solimeo

O futuro apóstolo de Viena nasceu em Tasswitz, na Morávia, então pertencente ao Império Austríaco, no dia 26 de dezembro de 1751. Seus pais, Pedro Paulo e Maria Steer, eram camponeses, cujas riquezas eram a fé em Deus e uma grande família. João, que depois mudou seu nome para Clemente Maria, era o quinto dos doze filhos do casal.

Quando contava seis anos, perdeu seu pai. Sua mãe levou-o diante de um Crucifixo e lhe disse: “De agora em diante, este será teu único pai; procura seguir seus passos e levar uma vida conforme à sua vontade santíssima”.

Ele tinha recebido de Deus um coração extraordinariamente propenso para o bem, reto e sincero. Votava um amor entranhado ao Sacramento da Eucaristia e à Santíssima Virgem, sendo o rosário sua oração predileta. Completou o curso primário na escola local, enquanto ajudava a mãe no campo. Embora sentisse verdadeira vocação para o sacerdócio, a pobreza da mãe não permitiu que continuasse os estudos.

As inúmeras voltas do “rio chinês”

A vida para João, até ordenar-se sacerdote, foi como os rios chineses, que normalmente só chegam ao mar depois de darem muitas voltas. Aos catorze anos tornou-se aprendiz de padeiro. Depois disso, sempre à espera de uma oportunidade para estudar, foi encarregado do refeitório dos padres premonstratenses de Bruck, onde conseguiu fazer o ginásio. Tornou-se eremita perto de Mulfrauen, voltando depois à profissão de padeiro, para retornar à vida eremítica, desta vez em Tivoli, na Itália. De volta à Áustria aos 32 anos de idade, quando parecia que nunca mais realizaria seu sonho, benfeitoras pagaram-lhe o estudo na Universidade de Viena. Mas, devido às leis anticatólicas do “déspota esclarecido” Imperador José II, não podendo ordenar-se na Áustria, voltou para a Itália, ingressando na recém-fundada Congregação do Santíssimo Redentor, ou dos redentoristas, onde por fim recebeu em 1786 a ordenação sacerdotal.

Apostolado na Polônia e luta contra a corrupção

São Clemente, que deveria introduzir a Ordem Redentorista nos países de língua alemã, não podia entretanto exercer seu apostolado na Áustria. O imperador José II, instigado por alguns ministros, baixara vários decretos em detrimento da verdadeira Religião, suprimindo conventos, perseguindo religiosos e impedindo o exercício livre do culto divino. Por isso, atendendo a um pedido do Núncio Apostólico em Varsóvia, São Clemente foi para a Polônia.

O estado social e religioso desse país, afligido por contínuas guerras, era desastroso. A fé estava abalada, os costumes dissolutos, a pobreza reinava. O santo escreveu nessa ocasião: “Escândalos e vícios atingiram seu auge, e é difícil encontrar o caminho mais seguro e o modo mais eficaz de melhorar a situação. Desde o clero até o mais miserável mendigo, tudo encontra-se corrompido. Temo muito que Deus descarregue algum golpe terrível sobre esta nação, que assim despreza suas graças e favores; roguemos para que meus temores não se cumpram”. Mas eles se cumpriram à risca: em 1795 a Rússia, a Áustria e a Prússia repartiram entre si a desventurada Polônia. Em meio ao caos reinante, a Religião quase desapareceu.

São Clemente recebeu o encargo de cuidar da igreja de São Beno, dos alemães, e iniciou seu apostolado. A pobreza em que vivia a população era tão grande que, às vezes, faltava o necessário para a própria subsistência. Nessas horas dirigia-se ele à igreja e batia na porta do sacrário, dizendo: “Senhor, agora é tempo de nos socorrer”. E geralmente, depois desse ato de confiança, vinha o auxílio desejado.

Grande conhecedor da psicologia humana, São Clemente, para atrair os fiéis, empenhou-se sobretudo em exercer as funções litúrgicas com muita pompa. Apesar da dificuldade financeira, mandou fazer paramentos belos e ricos, recorrendo muito freqüentemente à exposição solene do Santíssimo Sacramento, às procissões, novenas e tríduos, para atrair o povo. Dizia ele: “As solenidades públicas atraem por seu esplendor e aos poucos cativam o povo, que ouve mais com os olhos do que com os ouvidos”. Ressuscitou também, ou criou, associações tradicionais de piedade, tanto para homens quanto para mulheres e crianças. Fundou uma espécie de Ordem Terceira dos redentoristas, os “oblatos”, entre os quais figuravam sacerdotes e pessoas de ambos os sexos e de todas as classes sociais.

Apostolado em meio a grandes perseguições

Em pouco tempo, as funções religiosas passaram a ser tão concorridas que, aos domingos, não cabendo na igreja, os fiéis postavam-se no cemitério e ao longo das ruas para, ao menos de longe, assistirem à Missa.

Mas não se detinha nisso o zelo do apóstolo: fundou também escolas para crianças, colocando-as em mãos de hábeis e virtuosos mestres formados sob sua vigilância. Promoveu a boa imprensa, difundindo principalmente as obras de Santo Afonso de Ligório, para o que utilizava os congregados marianos. Em seus fogosos sermões, combatia o jansenismo, o protestantismo e os franco-maçons.

Seu exemplo começou a ser imitado em outras igrejas de Varsóvia, de modo que se pôde afirmar mais tarde que a cidade transformara-se completamente por seu influxo. As pessoas que freqüentavam a igreja de São Beno pareciam viver num convento: faziam todos os dias o exame de consciência e a meditação; por ocasião da quaresma e advento, recolhiam-se à solidão para o retiro espiritual.

Mas os maus – tanto nas fileiras do clero como na sociedade civil – não suportam que o bem se expanda. Uma campanha orquestrada de detração dos redentoristas atingiu seu auge em 1800. Sobre isso escreveu São Clemente: “Os jacobinos espalham contra nós toda sorte de invencionices. Somos escarnecidos nos teatros públicos, o próprio clero está contra nós, exceto o Bispo e alguns cônegos. Somos publicamente ameaçados com a forca. [...] Uns prostravam-se diante de mim para me beijar os pés, outros me cobriam de lama; aqueles exageravam na honra, e estes no desprezo”. [...] Sofri na Polônia coisas que só serão manifestadas no dia do Juízo Final”.

Apóstolo de Viena e promotor do culto divino

A campanha de difamação foi bem sucedida e redundou na expulsão dos redentoristas. Tentando encontrar lugar seguro para fundar o ramo alemão de sua ordem, São Clemente peregrinou de cidade em cidade até chegar a Viena, como última tentativa. Aí foi-lhe imposto o mais rigoroso silêncio, tanto no púlpito quanto no confessionário. Só uma coisa podia fazer, e isso realizou com fervor: rezar!

Nessa época, o ímpio Napoleão, em sua marcha sempre vitoriosa, conquistou a própria capital do império austríaco. Mas ali não se demorou, pois o arquiduque Carlos surgiu em socorro de Viena. São Clemente sabia que daquela batalha dependia a sorte de sua pátria. Correu para junto do tabernáculo e, com os braços em cruz, rezou fervorosamente pela vitória do arquiduque. E sua oração foi ouvida: no último ataque de Napoleão, o desespero apoderou-se da sua tropa. O arquiduque Carlos saltou então do cavalo à frente de seus soldados, empunhou a bandeira austríaca, animando com seu exemplo e valor os seus, que o seguiram entusiasmados. Em pouco tempo o campo de batalha encontrava-se em poder dos austríacos. Foi esta a primeira derrota de Napoleão...

Ora, com as batalhas, os feridos chegavam em massa para a cidade, alastrando-se a febre tifóide. O Arcebispo de Viena convocou o clero para o cuidado espiritual e material dos enfermos, tendo pedido a São Clemente que atendesse principalmente os soldados franceses e italianos.

Quando voltou a normalidade, foi ele nomeado coadjutor da igreja dos italianos, onde pôde exercer plenamente suas funções religiosas. E um número crescente de vienenses começou a agrupar-se em torno de seu confessionário e púlpito.

São Clemente pregava esporadicamente em outras igrejas de Viena, e seu nome começou a ser pronunciado também nas altas rodas da cidade com admiração e amor. Isso tornou-se ainda mais saliente em 1813, quando passou a ser diretor espiritual das Irmãs Ursulinas, de Viena, tendo ficado a seu cargo a igreja de Santa Úrsula.

Como em Varsóvia, ele cercou de esplendor o culto divino: muitas velas, flores, incenso, cânticos e tudo que podia contribuir para o esplendor das funções. Não conhecia economia, quando se tratava de honrar a Deus Nosso Senhor, a Virgem ou os santos. Convidava outros sacerdotes para aumentar o brilho das cerimônias de Santa Úrsula, de sorte que o templo tornou-se pequeno para conter a multidão cada vez maior. Havia muitos anos não se viam mais cerimônias como aquelas.

E assim, sem se importar com as proibições do josefinismo — mesmo porque o próprio irmão do Imperador freqüentava a igreja e participava das cerimônias — o exemplo de Santa Úrsula contagiou outras igrejas da cidade, que passaram a emular-se em esplendor no culto divino. Era o apostolado do belo, que ele fazia de modo exímio.

Influência crescente no Congresso de Viena

Capela de São Clemente na igreja dos redentoristas de Viena
Os sermões de São Clemente eram simples. Lia o Evangelho e, entre uma sentença e outra, ia explicando um dogma da fé ou um mandamento. Confrontava então com os princípios do Evangelho os costumes em voga e as idéias do tempo, exortando sempre, com palavras quentes e insinuantes, a que todos se convertessem e praticassem a virtude. Ele não era orador; entretanto empolgava como nenhum outro pregador em Viena, pois a santidade autêntica atrai.

Nesta ocasião, deu-se a convocação do Congresso de Viena para reparar as calamidades provocadas pelas guerras napoleônicas e traçar o futuro da Europa. São Clemente esperava muito desse congresso, porque do seu resultado dependeria a prosperidade da Religião no Velho Continente. Exercia muita influência sobre alguns de seus participantes. Diariamente confabulava com eles, que lhe apresentavam as propostas que iriam fazer naquela assembléia. Até o príncipe da Baviera pedia-lhe conselhos; certa noite, ficou conferenciando com ele das 20h às 2h da madrugada.

Enquanto isso, outros discípulos de São Clemente preparavam a opinião pública por meio de artigos nos principais diários de Viena, expondo com clareza o que dele ouviam.

Ao mesmo tempo, um de seus discípulos recebeu a incumbência de pregar nas igrejas de Viena durante a época do congresso, sobre os pontos religiosos em discussão, orientando o povo e preparando os ânimos. “Se São Clemente não conseguiu tudo o que desejava do Congresso, teve a glória de salvar a Áustria do cisma que a ameaçava, e de destruir por completo os planos de separação excogitados e defendidos pelo poderoso Wessenberg. Essa vitória foi uma das mais gloriosas que São Clemente alcançou em vida”, afirmou um autor.

Devotíssimo da Santíssima Virgem

Uma palavra sobre a devoção a Nossa Senhora, que para São Clemente unia-se à do Santíssimo Sacramento. Em uma época em que até teólogos pré-progressistas julgavam dever impugnar o culto “excessivo” a Maria Santíssima, São Clemente tornou-se conhecido como o “padre que benze terços”. Com efeito, ele chamava o rosário sua “biblioteca”, afirmando que, por essa devoção, conseguia tudo que pedia a Deus. Impôs mesmo aos oblatos o dever de defender sempre o rosário, mormente quando escarnecido pelos hereges ou assemelhados.

São Clemente faleceu no dia 15 de março de 1820, no momento em que os sinos tocavam o Angelus. Foi beatificado por Leão XIII e canonizado por São Pio X, em 20 de maio de 1909.

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Nota:

Utilizamos como fonte bibliográfica para este artigo principalmente o excelente livro do Pe. Oscar Chagas Azeredo, São Clemente Maria Hofbauer, Edição da Livraria Nossa Senhora Aparecida, Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1928, do qual extraímos as citações que aparecem entre aspas.

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