Agosto de 2005
Rebeldes ou terroristas?
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Internacional

Rebeldes ou terroristas?

Por vezes procura-se dar um sentido diferente a certas palavras, em geral deturpando-as ou “maquiando” os termos — o que tem favorecido a tolerância em relação ao mal, e nunca a solidificação da virtude.

·         Norman Fulkerson

Washington — Afirma-se que uma figura vale mais do que mil palavras. Mas uma palavra bem escolhida pode tornar obscuro um quadro de si claro. Para mim, isso se tornou evidente quando li recentemente um artigo da Associated Press sobre a morte de 76 rebeldes iraquianos num combate feroz.

Desde que começaram os atentados no Iraque, tenho me perguntado o que é exatamente um rebelde. Parecia-me mais um daqueles eufemismos, tão comuns na imprensa, cunhados para tornar os terroristas menos aterrorizantes. E no referido artigo, eles se tornaram ainda menos aterrorizantes ao se transformarem em “suspeitos de serem rebeldes”.

Tais denominações sugerem altamente que nossas tropas no Iraque estão matando gente inocente, e que algo como uma corte marcial deve ser constituída para definir se um desses “suspeitos” é realmente um terrorista, ou apenas um muçulmano que por acaso gosta de usar bombas presas à cintura e um rifle ao ombro.

“Baldeação ideológica” e “palavras-talismã”

Ataque terrorista no metrô de Londres
A escolha que a imprensa faz entre as palavras rebelde ou terrorista não me significaria nada, se não tivesse lido o livro Baldeação ideológica inadvertida e diálogo. Nesse magistral estudo, publicado em meados da década de 1960, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira demonstrou como era instrumentalizado o uso sistemático que se fazia então da palavra diálogo, em lugar de palavras que mais corresponderiam a debate. Tratava-se de dissolver as diferenças entre lados opostos de um debate filosófico, transformando um anticomunista convicto em alguém que só deseja fazer compromissos, concessões e recuos.

Exercendo essa influência psicológica sobre o público, essa e outras palavras adquirem um caráter como que mágico, talismânico, e o autor as rotula por isso de “palavras-talismã”. Elas são amplamente utilizadas ainda hoje, para alterar pontos-de-vista e mesmo convicções do público.

Deturpação das palavras em prejuízo da virtude

À medida que homossexuais não são chamados como tais, a fim de não lhes ser ofensivo, e relações sexuais ilegítimas viram “estilos de vida alternativos”, a oposição a uma vida pecaminosa se enfraquece. O aborto já não significa o assassinato de uma criança ainda não nascida, reduzida a um simples “feto” sem individualidade, e os que apóiam a “eliminação do feto” se transformam em defensores de uma “opção”. Quem se atreve a sustentar as normas tradicionais da moral corre o risco de ser taxado de “insensível”.

A elasticidade dessas “palavras-talismã” torna-as inadequadas a uma definição, inatingíveis por um bom dicionário. O dicionário Webster, na acepção que estamos analisando, define “rebelde” como “quem se rebela contra autoridade ou governo constituído, especialmente quando não considerado beligerante”. Quem tenha visto videotapes das horríveis decapitações praticadas por “rebeldes” iraquianos, sabe que eles estão muito longe de se enquadrar nesse conceito. Mas há muita gente preocupada com o ar condicionado insuficiente das prisões em Guantânamo...

Pequena sondagem direta com o público

Conhecendo a intenção da mídia esquerdista, de apresentar em boa roupagem esses beneméritos “rebeldes”, decidi pesquisar de que modo as pessoas comuns, o “homem da rua”, entendem o termo. Nada melhor para isso do que abordá-las em praça pública, à entrada ou saída de lojas comerciais vizinhas. As quinze pessoas que entrevistei não representam nem de longe uma enquête, mas as respostas foram todas notavelmente consistentes.

Eu receava levantar o tema terroristas com desconhecidos, mas meus temores se desvaneceram quando abordei dois velhos em animada conversa, sentados num banco da praça. Depois de conseguir a custo que eles interrompessem a conversa, logo um me respondeu que rebelde é uma palavra enganosa, apresentando terroristas como “pessoas que não são más”, achando que eles “lutam por uma causa justa”. Um sargento aposentado da Força Aérea foi direto ao ponto: “O termo rebelde é usado pela mídia para descrever gente ruim, fazendo-os parecer lutadores pela liberdade”.

Um professor de Hanover (Pensilvânia – EUA) comentou com satisfação o valor das palavras, e afirmou que, embora rebelde possa ser entendido como uma pessoa que toma parte numa revolta armada, tem sido historicamente usado para definir os que se rebelam contra um regime tirânico, como os que lutaram na guerra de independência americana. Como a maioria dos entrevistados, ele tinha a impressão de que as pessoas entendem a palavra como aplicável a quem luta por uma causa nobre. Todos os entrevistados consideram terrorista um termo muito mais negativo do que rebelde.

Uma jornalista de 35 anos, que colabora num jornal local, admitiu que para ela o significado da palavra rebelde mudou ao longo dos anos, por causa do modo como os rebeldes vêm sendo apresentados pela mídia. Acentuou as irregularidades no modo de a imprensa referir-se a rebeldes no Iraque, mostrando que esses combatentes são estrangeiros, não usam uniformes e sistematicamente evitam entrar em combates com os “invasores” (americanos). Pelo contrário, preferem usar homens-bomba, que massacram diariamente civis inocentes, inclusive mulheres e crianças.

Iraque, Londres e Madri: a mesma ação terrorista

O debate em torno do tema segurança tem polarizado a nação, e os americanos se consideram mais seguros com um presidente que não tem receio de declarar guerra ao terror. No centro desse debate está a guerra no Iraque. Nele representa papel importante uma palavra que possa vergar a opinião pública, pois a decisão de lutar fica seriamente comprometida quando se ameniza a situação de um terrorista ao chamá-lo simplesmente rebelde.

Passemos à contra-prova. Nas reportagens sobre os trágicos atentados de Londres e Madri, uma palavra se fez notar pela ausência: rebeldes. A mídia não a usou uma única vez, e os que os praticaram receberam exatamente a denominação que lhes cabe: terroristas. Mas qual a diferença entre os que assassinam civis inocentes em Londres e os que o fazem no Iraque?

Paralelamente aos mortais conflitos no Iraque e no Afeganistão, há uma batalha mais importante dentro do nosso país, pela conquista dos corações e mentes dos americanos. Pelo amplo uso dessa “palavra-talismã”, torna-se evidente que alguns se sentem incomodados com nossa decisão de vencer essas guerras.

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