Março de 2009
O que é um pecado? Quando ele é considerado pecado mortal? Ou quando é "venial"
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A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac
Pergunta
— Uma questão que coloco, porque não sei como responder e desejaria uma elucidação dessa conceituada revista católica. O que propriamente é um pecado? Quando este é realmente considerado “pecado mortal”? E quando é considerado “pecado venial”? Ambos levam ao inferno a alma daquele que morre sem os confessar com arrependimento no coração?

Resposta — A pergunta do missivista é altamente oportuna e atual, porque vivemos numa sociedade secularizada (isto é, “ateizada”, em que Deus é posto cada vez mais à margem), na qual a distinção mesma entre o bem e o mal e, conseqüentemente, a própria noção de pecado vão sendo apagadas da mente dos homens.

Segundo a conceituada Enciclopédia Católica, “o pecado é um ato moralmente mau (Santo Tomás, “De Malo”, 8:3), um ato em dissonância com a razão informada pela lei divina”.  Em sentido corrente, podemos definir pecado como sendo toda transgressão da Lei de Deus ou das leis da Igreja, bem como de qualquer lei ou ordem legítimas das autoridades da sociedade civil. É mortal quando incide sobre matéria grave e é praticado com pleno conhecimento e vontade deliberada. É venial quando incide sobre matéria leve; ou, sendo grave a matéria, a pessoa não deu pleno consentimento ou não tinha consciência de que se tratava efetivamente de matéria grave. Só o pecado mortal leva a alma para o inferno, se antes não tiver obtido o perdão pelo Sacramento da Penitência (Confissão) ou se arrependido dele com um ato de contrição perfeita. Se a pessoa morre com pecados veniais, ou não fez a devida penitência pelos pecados mortais confessados e já perdoados, passará pelo Purgatório para se purificar inteiramente antes de ser levada para o Céu.

O pecado mortal leva a alma para o inferno, se antes não se houver obtido o perdão pela confissão
Em síntese, a pergunta do consulente fica assim respondida, mas convém explicarmos passo a passo a resposta dada, para que ela seja perfeitamente assimilada, pois é provável que o leitor se sinta embaraçado com vários dos conceitos acima expostos.

A Lei de Deus nos Mandamentos

Como Senhor e Criador do Universo, Deus estabeleceu leis tanto para o mundo físico como para o mundo espiritual. As leis do mundo físico nada têm a ver diretamente com a noção de pecado, a não ser que o homem, por imprudência, use mal delas e venha a causar um prejuízo a si mesmo ou ao próximo. Mas aí o pecado estará na imprudência, uma vez que a lei moral (espiritual) nos ordena que sejamos prudentes no uso dos bens materiais. Por exemplo, alguém que por imprevidência resolva acender um cigarro num posto de gasolina, provocando uma explosão.

A Lei de Deus está consubstanciada essencialmente nos Dez Mandamentos, os quais englobam também as leis da Igreja e as leis civis, pois no 4o Mandamento — Honrarás pai e mãe — estão incluídas as autoridades religiosas e civis. Assim, a desobediência à autoridade religiosa ou a uma autoridade temporal implica em pecado (suposto sempre que se trate de uma ordem legítima, é bom insistir; explicaremos melhor adiante este ponto).

Será muito útil recordar a abrangência de cada um dos Dez Mandamentos, que aprendemos quando estudamos o Catecismo por ocasião da preparação para a Primeira Comunhão, pois de lá para cá muito tempo passou para alguns, menos tempo para outros; mas, de qualquer modo, infelizmente, em não poucas igrejas a temática das pregações passou a pautar-se pelos danosos princípios do relativismo ou da Teologia da Libertação, que interpretam os Mandamentos numa linha marxista, contrária ao Magistério tradicional da Igreja. E o resultado é que muitos fiéis já não têm mais uma noção correta desses Mandamentos.

Se o leitor não tem à mão um Catecismo tradicional, recomendamos adquirir o livro Rosário: a grande solução para os problemas de nosso tempo, de A.A. Borelli Machado (Artpress, tel. [11] 3331-4522), onde encontrará, nas páginas 29 a 37, uma síntese clara e sucinta da abrangência de cada um dos Mandamentos.

Pecado, uma revolta contra Deus

Venial ou grave, o pecado é sempre uma desobediência a Deus, e portanto um ato de revolta contra o Criador. Neste sentido, é sempre um ato sumamente censurável, pelo que devemos nos empenhar seriamente em evitar também os pecados veniais, pois eles mancham a nossa alma e nos afastam de Deus, que é o Sumo Bem. Ademais, quem negligencia o combate aos pecados veniais coloca-se numa rampa que conduz, quando menos esperar, ao pecado mortal, com todas as suas gravíssimas conseqüências: rompimento da amizade com Deus — tornamo-nos inimigos de Deus! — e nos colocamos na situação de condenados potenciais ao inferno.

Daí a necessidade de nos arrependermos seriamente e o quanto antes do pecado mortal e buscarmos, na primeira oportunidade, o Sacramento da Confissão, para obtermos logo a absolvição do sacerdote, que nos perdoe em nome e pelos méritos de Jesus Cristo.

O pecado mortal nos torna inimigos de Deus e nos coloca na situação de condenados potenciais ao inferno
Contudo, cumpre ressaltar que, para haver pecado mortal, não basta que a matéria seja grave: é preciso que o ato tenha sido cometido com perfeita advertência do entendimento e pleno consentimento da vontade. Em outras palavras, a pessoa deve estar consciente de que sua ação implica em pecado grave, e o realiza com a vontade plenamente deliberada. A doutrina da Igreja faz esta precisão, porque às vezes circunstâncias ou fatores diversos fazem com que o consentimento não seja pleno, o que descaracteriza o pecado como mortal.

O Magistério da Igreja ensina quando a matéria é grave ou leve, e isso se aprende em geral nas aulas de Catecismo. Em caso de dúvida, deve-se consultar um sacerdote instruído e conhecido por suas posições sapienciais e prudentes, em consonância com o Magistério tradicional da Igreja e pouco afeito aos “modernismos” que vão se introduzindo em muitas partes.

Contrição perfeita e contrição imperfeita

É o momento de explicar a diferença entre contrição perfeita e contrição imperfeita. Esta última é o arrependimento que o pecador sente, mais pelo medo do castigo eterno do que por amor de Deus. Entra um certo amor de Deus e o desejo de recuperar o “estado de graça” (assim se chama o estado de alma livre de pecado mortal), mas prevalece o medo do castigo. Na contrição perfeita, dá-se o contrário: a alma se arrepende por puro amor de Deus, ainda que o medo do castigo também esteja presente. A conseqüência é que a contrição perfeita restabelece na alma imediatamente o estado de graça, embora permaneça a obrigação de confessar-se na primeira oportunidade e antes de receber a Comunhão. A contrição imperfeita não tem o mesmo efeito imediato, mas necessita a absolvição sacramental (dada pelo sacerdote na Confissão) para a alma voltar ao estado de graça.

Diferença entre legal e legítimo

Acenamos acima, por duas vezes, ao fato de que temos obrigação de obedecer às ordens e leis legítimas. Com efeito, os teólogos fazem a distinção entre legal e legítimo. Legal é aquilo que foi estabelecido pelas leis humanas. Ora, pode ocorrer — e hoje em dia vai se tornando cada vez mais freqüente — que certos dispositivos das leis humanas estejam em choque com a Lei de Deus (ou mais especificamente com a Lei natural, normalmente expressa pela “voz da consciência”, a lei que Deus estabeleceu para reger a natureza humana). Neste caso, esses dispositivos são ilegítimos, e então cessa a obrigação de obedecê-los; mais ainda, prevalece o dever de consciência de desobedecê-los.

Em quase todos os paíse do mundo vai sendo introduzido o “direito” legal da mulher a praticar o aborto
Por exemplo, em quase todos os países do mundo vai sendo introduzido o “direito” legal da mulher ao aborto. Isto infringe a Lei natural, e ademais o 5º Mandamento do Decálogo, pois o feto (o ser humano não nascido) tem o direito à vida e não pode ser morto por causa das conveniências da mulher que o gerou. Os médicos católicos têm a obrigação grave de opor-se à sua realização, ainda que isso custe sua permanência no emprego, e quiçá outras penalidades que a lei venha — ilegitimamente — a estabelecer.

Ainda recentemente um sacerdote na Espanha foi levado injustamente à barra dos tribunais, porque recusou-se a dar a Comunhão a um homossexual que, com grande estardalhaço, tinha se unido publicamente a um outro. Assim, da sociedade sacralizada de outrora passamos a uma sociedade secularizada e paganizada, que desde já anuncia uma perseguição aos católicos que quiserem permanecer fiéis aos princípios de sua Fé. Talvez venha aí a maior perseguição da História, como aliás está profetizado no Segredo de Fátima.

Se ela vier, peçamos a Nossa Senhora que nos dê a coragem de enfrentar essa perseguição — desencadeada em nome de leis injustas e ilegítimas — com o mesmo ânimo que os primeiros cristãos tiveram ao enfrentar as feras no Coliseu romano! Até o momento da vitória final de Nossa Senhora.

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