Agosto de 2000
A suspeita reconciliação entre as duas Coréias
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Internacional

A suspeita reconciliação entre as duas Coréias

O Presidente da Coréia do Sul visita de improviso a Coréia do Norte. O objetivo é abrir as vias para uma eventual reunificação dos dois países. Em que base? Sob a égide do comunismo, de um lado, e do entreguismo, do outro?

·         Renato Vasconcelos

Aeroporto de Pyongyang
- 15 de junho. Vestindo uma ordinária jaqueta cor terra, Kim Jong Il espera a chegada de um visitante do sul.  Kim Jung Dae, Presidente da Coréia do Sul, desce do avião trajando um terno bem cortado e ouve de seu anfitrião palavras tranqüilizadoras: “Não se preocupe. Vou lhe dar o melhor tratamento possível”.

*    *    *

A surpreendente, inesperada e grave visita de Kim Dae Jung ao ditador comunista vitalício da Coréia do Norte, Kim Jong Il,  foi qualificada como uma “reunião de cúpula histórica”, “détente sem precedentes”, “o mais importante acontecimento havido na Ásia depois da viagem de Nixon à China em 1972”, “a queda da última muralha da Guerra Fria” etc.

Inesperada, sim, pois nada fazia prever um degelo nas relações entre os dois países, divididos há mais de 50 anos, desde que os comunistas tomaram conta do poder ao Norte. Ainda no ano passado, a Coréia do Norte enviou navios de guerra contra o Sul, provocando um confronto, do qual, aliás, saiu vencida.

Surpreendente também. Preparada à sorrelfa, a visita, que pegou de improviso a opinião pública na Coréia do Sul e no mundo inteiro, tem como objetivo abrir as vias para uma eventual reunificação dos dois países - o do norte, comunista e esfomeado, com o do sul, próspero.

De gravidade única reveste-se enfim a iniciativa do Presidente sul-coreano ao quebrar uma barreira psicológica de aversão ao comunismo. Com efeito, em sua visita a Pyongyang, Kim Jung Dae  (antigo militante de esquerda, que chegou a ser condenado à morte por atividades subversivas) evitou cuidadosamente qualquer referência ao regime comunista, motivo principal da divisão dos dois países, e encontrou-se com o ditador do Norte como se estivesse revendo um primo pobre. E ao mesmo tempo que manifestava o desejo humanitário de que famílias divididas pela guerra pudessem reencontrar-se em meados de agosto, exclamava pateticamente que “uma nova aurora estava raiando para a Coréia”...

O que se encontra na origem dessa “aurora” que desponta na península ao sul da Mandchúria, sob o bafejo simultâneo dos Estados Unidos e da China?

Um retrospecto histórico

De 1910 até o fim da Segunda Guerra Mundial, a Coréia esteve sob domínio nipônico. A vitória naval do Império do Sol Nascente sobre o Império Russo, em 1905, alimentou planos expansionistas japoneses.  Procurando novas vias para introduzir-se na China, foram eles jeitosa e ardilosamente ocupando a Coréia até que, em 1910, obrigaram o Imperador Sunjong a abdicar do trono e anexaram o país ao Japão. Esta situação perdurou até a rendição incondicional do Eixo em 1945.

Recobraria a Coréia, afinal, a liberdade que lhe fora tirada durante quase quatro décadas? Ledo engano...

No dia 9 de agosto de 1945, quando a segunda bomba atômica explode em Nagasaki, a Rússia declara guerra ao Japão e com isso “conquista” o direito de participar da missão de expulsar da Coréia os japoneses. Na Ásia, como na Europa, os Estados Unidos seguiam a mesma política de pulso mole e de concessões face à Rússia soviética. E concordam “per viam facti” que os soviéticos ocupem o norte da Coréia até o paralelo 38. Tal estado de coisas deveria permanecer até que se realizassem eleições livres. Porém, ao Norte, apoiados pelos soviéticos, os comunistas coreanos fundam por toda a parte comitês populares. Em fevereiro de 1946, Kim Il Sung assume a chefia do PC e toma o poder na Coréia do Norte. Em setembro de 1947, as Nações Unidas decidem promover eleições gerais na Coréia. Contudo, a comissão de controle não consegue entrar na zona norte. As eleições realizam-se apenas no sul. É eleita uma Assembléia Constituinte, em 10 de maio de 1948. Promulgada a Constituição, surge como nação independente a República da Coréia, em 15 de agosto de 1948. Três semanas mais tarde é proclamada ao norte da península a República Popular, tendo como chefe Kim Il Sung. Estava consumada a divisão da Coréia.

A Guerra da Coréia

Monumento, no Cemitério Nacional de Seul, em homenagem ao soldado coreano que valentemente lutou contra a invasão comunista durante a Guerra da Coréia
Com a criação dos dois países, os Estados Unidos retiram-se do Sul e a Rússia, do Norte. Porém, os soviéticos deixam na Coréia do Norte, dominada já pelos comunistas, um imenso arsenal. É o que vai possibilitar, do ponto de  vista bélico, a invasão do sul. Do ponto de vista político, desempenha papel decisivo a declaração de Dean Acheson, então Ministro das Relações Exteriores americano, feita em janeiro de 1950: “A Coréia encontra-se fora do cinturão defensivo dos Estados Unidos”. 

Os comunistas interpretam as palavras de Acheson como uma promessa de que os Estados Unidos não interviriam, caso a Coréia do Sul fosse atacada. Conseqüentemente, não perdem tempo. Sem prévia declaração de guerra, num grande ataque-surpresa desfechado na manhã de 25 de junho de 1950, tanques norte-coreanos invadem e dominam em poucos dias todo o sul do país, inclusive a capital Seul.

O choque experimentado pela opinião pública mundial é grande. E as Nações Unidas não têm outro remédio senão intervir, enviando uma força expedicionária internacional, sob o comando do Gen. Mac Arthur, considerado herói norte-americano da II Guerra Mundial. É o começo da Guerra da Coréia. E também do período denominado de “Guerra Fria”. Em pouco tempo Seul é libertada e os comunistas são rechaçados para o norte. A China de Mao-Tsé-Tung intervém, enviando 300 mil voluntários para ajudar seus camaradas coreanos. Segunda invasão do sul. Seul é novamente conquistada pelos vermelhos. O Gen. Mac Arthur propõe então levar a guerra ao próprio território chinês e bombardear as vias de acesso utilizadas pelos voluntários do gigante amarelo. O Presidente americano Truman não aprova a proposta. Contudo, Seul é libertada e os comunistas repelidos para além do paralelo 38. Em julho de 1953, é assinada afinal em Panmunjon um armistício que vigora até hoje. Ao longo do paralelo 38, cria-se uma zona desmilitarizada.

Cortina de Ferro na Ásia

À semelhança das duas Alemanhas, baixou entre as duas Coréias uma Cortina de Ferro  - célebre expressão cunhada por Churchill. Contudo, a Coréia do Sul teve que sofrer ao longo dos anos infiltrações de agentes do Norte, atentados terroristas contra membros do Governo, sangrentas escaramuças na fronteira, além de suportar intensa e ininterrupta propaganda desestabilizadora.

Kim Il Sung, o Grande Líder que, ao invés de construir um changri-lá, instaurou um regime de opressão,  repressão e miséria, deteve as rédeas do governo até sua morte, em 1994. À maneira de um dinasta, já havia transmitido parte de seus poderes a seu filho, o atual ditador Kim Jong Il. A respeito deste, pouco ou nada se sabe a não ser que se trata de um stalinista da linha dura, terrorista fanático e avesso a aparecer em público.

Cinqüenta anos de comunismo arrastaram a Coréia do Norte não apenas para o abismo de miséria moral inerente ao regime comunista, mas também para as piores catástrofes econômicas e sociais. A pobreza ali é inimaginável. Só nos últimos cinco anos o país perdeu 2 milhões de pessoas, todas elas mortas de fome.

Os ditadores do Norte pouco se preocupam com essa tragédia de proporções dantescas. Empenham-se exclusivamente em desenvolver o projeto da bomba atômica e levar adiante o programa de testes com mísseis intercontinentais, capazes de atingir a costa norte-americana. Para tais fins, destinam todos os recursos disponíveis das combalidas finanças do país.  Muitos temem que Kim Jong Il vá desviar a ajuda que eventualmente receba do Sul para a fabricação de armas, as quais venderá a países como Iraque ou Irã.

Culturalmente, os norte-coreanos encontram-se estagnados e desligados do resto do mundo. No país não há programas de rádio, a não ser as emissões do Governo. Ninguém pode telefonar para fora da nação ou receber correspondência do Exterior. Sob o tacão da bota comunista, o norte-coreano leva uma vida miserável, cinzenta, sem ideais nem esperanças. É o resultado lógico da implantação de um sistema ateu e antinatural.

Contraste imenso

Controle de remédios na Coréia do Sul cujo acentuado progresso econômico contrasta com ...
O contraste com o Sul não pode ser maior. Devastada pelos três anos de guerra, com sua capital transformada num monte de ruínas, conseguiu a Coréia do Sul soerguer-se dos escombros e transformar-se num país próspero. Ocupando uma superfície de 128.500 km² e com uma população de aproximadamente 45 milhões de habitantes (mais do dobro da população da Coréia do Norte), a Coréia do Sul é um dos chamados Tigres asiáticos por seu intenso desenvolvimento econômico. Hoje o nível de vida do sul-coreano é 100 vezes superior ao standard dos norte-coreanos.

O excelente labor missionário do século passado obteve para a Igreja Católica centenas de milhares de conversões. Os católicos somam hoje cerca de 4 milhões. Um quarto da população se diz cristã.

Pois bem. Tudo isso fica comprometido com a política de aproximação iniciada pelo presidente Kim Dae Jung, pois ela não se baseia na extinção do comunismo nem na expansão do cristianismo. A nova política é apoiada, aliás, pelo Presidente norte-americano. Na mesma semana da visita, Clinton suspendeu uma série de restrições comerciais, turísticas e bancárias impostas à Coréia do Norte.

...a miséria reinante na Coréia do Norte
O que Dae Jung pretende alcançar? Um amálgama da cosmovisão cristã com o ateísmo comunista? Um nivelamento econômico do Sul e do Norte, para o qual é necessário a “bagatela” inicial de 500 bilhões de dólares? Fazendo tabula rasa dos últimos 50 anos, desprezando o sangue generoso de dezenas de milhares de heróis que caíram lutando contra o comunismo, fechando os olhos para o fanatismo ideológico que domina o Norte, esquecendo o tremendo desnível cultural e econômico entre o Sul e o Norte, sai ele agora a campo em sua temerária empresa de “reconciliação”!

Ora, nessa empresa, nessa cavalgada rumo a um futuro cheio de incógnitas - para empregar uma imagem de Bismarck -, quem é o cavaleiro, quem é o cavalo? Ou seja, quem vai cavalgar e quem será a cavalgadura? É de se temer, e muito, que na relação cavalo-cavaleiro, Dae Jung acabe, por causa de seu entreguismo e moleza, desempenhando o papel de cavalo...

Mas desde já ele tem a promessa do outro Kim, o ditador: “Não se preocupe. Vou lhe dar o melhor tratamento possível”... E homens como Dae Jung são imensamente propensos em acreditar em promessas vãs...

 

 

 

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