| 2008: tentativa de neutralizar as crescentes resistências conservadoras
O último ano foi paradoxal. Levantaram-se imensos espectros ameaçadores sobre os homens que aspiram por ordem e moralidade. Mas, quando baixou o barulho das tubas que propagavam exageros e inverdades, verificou-se que setores conservadores em vários países continuavam muito vivos, e até mais fortalecidos do que antes da campanha midiática. Luis Dufaur
2008 expirou. 2009 bateu à porta e está entrando em nossa casa. Que fisionomia terá ele em seu final? Essa indagação me foi sugerida pelas nuvens que pairavam sobre a avenida dos Champs-Elysées, a caminho do aeroporto de Paris. A aparência era de fisionomias sombrias, plúmbeas, com formas mentirosas e fugazes, horrendas e carregadas de enigmas. A cara do novo ano será muito diferente dessas fantasmagorias? Num contraste que chocava a vista, ao Arc de La Défense, com sua geometria pontiaguda, associavam-se nuvens simulando uma estranha e caótica asa, mais feia do que a dos pássaros malfazejos. Uma figura que pode ser indicativa do aspecto que terá 2009. Na suave ladeira dos Champs-Elysées, as árvores estavam enfeitadas com luzinhas natalinas — não os troncos carregados de micro-lâmpadas, como em São Paulo, mas sim as copas, ou seja, a parte mais nobre da árvore. Ao longo da charmosa avenida acotovelavam-se, em elegante sucessão, casinhas de conto de fada, cor de marfim, que continham seus tesouros natalinos. Oxalá eu pudesse permanecer mais alguns dias em Paris, para devorar com os olhos seus luminosos presentes! Mas, hélas! –– pensei –– será que em algum deles se encontrará ainda um piedoso presépio com o petit bon Jésus sorrindo para os homens em seu berço de palha? Nossa Senhora, São José, os Reis Magos portando suas dádivas de ouro, incenso e mirra? Os ingênuos pastores com suas ovelhinhas, em torno da miraculosa gruta de Belém? Os anjos no Céu, a estrela? E um pensamento, com voz de telejornal, me transportou à triste realidade: Tudo isso é politicamente incorreto! É sonho de “racista”, de “branco”, de “classe média” que ainda acredita na centralidade cultural e religiosa do catolicismo e do Ocidente! Pense em 2008, em Obama, Evo Morales, Lula, crise econômica, China... Em verdade, talvez para evitar “discriminações”, não mais se teria encontrado o Menino Jesus ou algum presépio naquelas encantadoras casinhas. Como também não é freqüente encontrá-los em São Paulo, em tantas lojas e shoppings enfeitados para o Natal do Menino Deus... No famoso Arco do Triunfo, duas imensas bandeiras lado a lado –– uma da França, outra da União Européia –– eram agitadas pelo vento. Por vezes, parecia que a da União Européia engolia a da França. 2009 será o ano do fim das nações européias e da centralidade mundial do mundo ex-cristão? Espectro da crise econômica do mundo ocidental Entre os conhecidos que me acompanhavam, a preocupação dominante era a crise econômica. O que pensar dela? Quem a explica? Ao longo de 2008, a mídia martelou que o mundo dito capitalista, ao menos o concebido no Ocidente, encontra-se em ruínas. Trombeteou com insistência que a natureza da crise exige o socialismo de Estado. Insiste em que, após a queda do socialismo soviético e do Muro de Berlim, soou em 2008 o toque de finados do capitalismo. Um jovem amigo de Paris, funcionário de um dos maiores bancos do mundo, contara-me que, no dia anterior, 10% da folha de empregados desse estabelecimento bancário em Londres (onde ele até há pouco trabalhava) fora dispensada. Os atingidos tiveram apenas 10 minutos para retirar seus objetos pessoais e desaparecer. Entretanto, nem no seu relato nem no ambiente das ruas sentia-se sinal de revolta popular. A oportunidade seria de ouro para se promover a agitação social tão desejada pelas esquerdas, incluída a “católica”. Elas parecem entretanto exaustas, sem capacidade de mobilizar ou suscitar o ódio revolucionário, que constitui uma de suas bandeiras. Curioso fenômeno este, no fim de 2008 e início de 2009. Socialismo sem fôlego e sem bases
Exemplo muito característico disso: em novembro, a maior força esquerdista da França — o Partido Socialista (PS) — encerrou seu grande congresso em Reims (foto à esquerda), onde escolheu um novo dirigente máximo. Tudo se passou em meio a uma desabonadora briga a-ideológica. O desânimo e o abatimento deram a nota no evento. O diário “Le Monde” ressaltou o fato de a rumorosa assembléia socialista ter provocado náusea geral na opinião pública francesa. Não deveriam estar eles antegozando a suposta realização da profecia de Marx sobre a crise final do capitalismo, que precederia o socialismo autogestionário universal? Não deveriam eles alcançar um auge de popularidade? Nada disso aconteceu. Pesquisa de opinião realizada pelo quotidiano católico “La Croix”, talvez um dos últimos bastiões do socialismo radical, constatou pouco tempo atrás que 75% dos simpatizantes do PS preferem o capitalismo tal como ele existe hoje. Quem acreditasse na mídia acharia que os assustadores espectros que ela espalhou em 2008 virariam o mundo de ponta-cabeça. Quem olha a realidade em volta constata que a opinião pública rejeita esses pesadelos, ainda que inconscientemente. Sucessão de pesadelos enganadores O que nos deixou, afinal, 2008? Uma peculiar enxurrada de pesadelos. De início, eles se apresentaram como acachapante sucessão de colossais derrubadas, propaladas a todo volume pela mídia esquerdizante. Com crescente freqüência, esses imensos leviatãs de 2008 esvaziaram-se rapidamente, pouco depois de anunciados, como mentirosas miragens, e em torno deles se fez o vazio e o mal-estar. Teriam sido inúteis esses leviatãs quanto à tarefa de promover o caos, que parecia ser a sua razão de existência? Não. “Menti, menti, algo sempre ficará”, repetia cinicamente o ímpio Voltaire. Esses leviatãs da mentira depositaram sobre o mundo uma densa camada de malefícios. O grande bluff da China vermelha
Um exemplo dessas miragens mentirosas que marcaram especialmente 2008: o lançamento da China como “superpotência” mundial. Imenso show propagandístico foi montado para isso, manipulando os Jogos Olímpicos de Pequim. A ditadura marxista aplicou mais de US$ 40 bilhões para passar a impressão de um colossal gigante, que entrava no clube exclusivo das ricas economias que determinam os rumos do mundo. Centenas de milhões de pessoas assistiram à deslumbrante inauguração. Porém, menos de uma semana depois, a própria China reconhecia que o espetáculo fora falsificado. Meros efeitos especiais de computador emitiram uma falsa imagem da festa. As revelações seguiram-se em cadeia: a menina-cantora central não cantou, mas foi dublada; a encenação foi plagiada; os turistas não atingiram nem de longe a cifra esperada; os reluzentes estádios ficaram vazios, pelo medo oficial de manifestações oposicionistas; os atletas chineses, que ganharam a maioria das medalhas, haviam sido previamente encerrados em verdadeiros campos de concentração, especializados em produzir super-jogadores; a exibição das minorias étnicas foi outro bluff. Massas de empregados-escravos foram expulsas de Pequim para não serem vistas, um muro isolava os bairros miseráveis que não puderam ser arrasados a tempo. Agricultores desesperados reclamavam da falta de água, desviada para a capital a fim de que os turistas não percebessem a escassez do precioso líquido... Milhares de protestos pipocaram pelo país. Alguns decorrentes dos procedimentos arbitrários do partido comunista para socorrer as vítimas de terremotos arrasadores. Outros, pelo desespero dos operários, em virtude do crescente fechamento das fábricas que deixavam de exportar para o Ocidente.
As manifestações clamando por liberdade e direitos humanos foram sistematicamente reprimidas. As informações filtravam de todo o país, e a ditadura funcionava com rigor para que o mundo não tomasse conhecimento do mal-estar generalizado. O enganador show das Olimpíadas foi logo seguido do lançamento espetacular de uma equipe de astronautas chineses para passear pelo espaço. A repercussão jornalística foi imensa. A agência oficial Xinhua divulgou comunicado com pormenores do “grande sucesso”, contendo as conversações dos tripulantes com as equipes em terra. Porém, gravadas um dia antes de o foguete iniciar o vôo! A Xinhua tentou se desculpar, mas o fez de modo canhestro. Os equipamentos astronáuticos ostentados nas fotos oficiais lembravam os soviéticos de 30 anos atrás. Na volta, os sorridentes astronautas mais pareciam ter passado um distensivo fim de semana do que qualquer outra coisa. |