Lançada nos EUA obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira WASHINGTON –– Num Seminário Internacional realizado a 28 de setembro último, no prestigioso Mayflower Hotel, desta capital, foi lançada a edição norte-americana da obra Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XlI, um tema que ilumina a história social americana, de autoria do Prof. Plinio Coma de Oliveira. O evento contou com a entusiástica participação de 800 pessoas, tendo comparecido membros da nobreza européia, destacadas personalidades do movimento conservador, do mundo religioso, político e. militar norte-americano, bem como sócios, cooperadores e correspondentes de diversas TFPs. A presidência do Seminário, que alcançou pleno êxito, coube ao conhecido líder conservador Sr. Morton C. Blackwell, Presidente do Instituto de Liderança e membro do Conselho Nacional do Partido Republicano. O conde Andreas von Meran, da Áustria, foi o Presidente de honra do evento. A Arquiduquesa Mônica da Áustria, Duquesa de Santangelo, Don Baltasar de Casanova y de Fener, Duque de Maqueda, da Espanha, o Marquês Luigi Coda Nunziante di San Ferdinando, da Itália, e o Deputado norte-americano Robert K. Dornan foram convidados especiais. Após a realização de três painéis sobre assuntos relacionados com a temática do livro, dos quais participaram expositores do calibre do Almirante Thomas Moorer, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos, o Seminário encerrou-se com a apresentação da substanciosa conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, impedido de comparecer àquele ato. Destacamos os seguintes tópicos dessa peça oratória, lida pelo Sr. Raymond Earl Drake, presidente da TFP norte-americana: O lançamento de um livro é um evento que tem muito de análogo com o nascimento de um homem. Mas com isso de diferente que nascem a todos os instantes crianças bem constituídas, saudáveis e capazes de viver toda uma existência normal. Não se pode dizer, pois, que qualquer simples nascimento ocorrido nessas condições promete revolver de futuro almas e corações, e – a fortiori – não traz a garantia de que mudará os rumos dos povos e das civilizações. E o lançamento de um livro? A importância deste ato está em relação direta com o alcance do tema de que este trata. Desde que seja um grande tema, por certo o livro moverá almas e quiçá até civilizações. E isto, ainda que o livro, considerado em si mesmo, não seja um grande livro. A questão da igualdade Quanto ao problema da igualdade, da harmonia dela com o legítimo bem comum dos povos e das nações, em épocas anteriores já se haviam debruçado esporadicamente pensadores fundados em pressupostos alUís muito divergentes entre si. Especialmente, esse tema foi versado -e com quanta paixão! -pelos protagonistas e corifeus do Iluminismo. Baseados nas falsas soluções que lhe deram, tais iluministas e seus sequazes convulsionaram todo o mundo civilizado, a partir de meados do século XVIII até nossos dias. De então para cá, a bem dizer não houve revolução a que ele fosse estranho, nem guerra com cuja motivação ou com cujo desfecho ele não estivesse relacionado. A igualdade, sobre a qual discorremos, fazia parte da trilogia ambígua Liberté, Égalité, Fraternité, tão fortemente controvertida que sobre o modo de a interpretar encontramos dissonâncias até em textos pontifícios. Não é nosso intuito reabrir aqui a controvérsia, mas analisar convosco, se não toda a famosa trilogia, pelo menos o segundo termo dela, égalité. E isto, não do ponto de vista estritamente filosófico, mas segundo a sente o homem contemporâneo, o "homem da rua" que constitui por toda parte a maioria "soberana" à qual os regimes representativos atribuem ainda hoje a voz decisiva. Este é um grande tema sobre o qual o homem contemporâneo é chamado a dar sua opinião, não mais no desamparo doutrinário de eras anteriores, mas à luz esclarecedora das famosas a locuções de Pio XII E é sobre este tema, que, com particular atenção, vos oferecemos hoje algumas reflexões, contidas aliás neste livro cujo lançamento vossa ilustre presença assinalada mente comemora. Limites da desigualdade Muito sumariamente exposta a matéria, seja-nos dado dizer que os limites da desigualdade estão traçados na própria natureza humana. Isto é, por ser naturalmente inteligente e livre, o homem todos os homens - têm uma dignidade comum que deles faz reis do Universo. Debaixo desse ponto de vista todos os homens são iguais. E o que reduza de qualquer maneira no homem essa dignidade fundamental e nativa, essa igualdade natural e radica~ o mutila, amesquinha e ofende. Como corolário do que acaba de ser dito, todos os homens são iguais no direito à vida, à constituição de uma família sobre a qual exerçam sua autoridade, no direito ao fruto de seu próprio trabalho, e no direito a que seu salário seja bastante para lhes proporcionar, como aos seus, habitação condigna e segura, alimentação suficiente e saudável, recursos para garantir aos próprios filhos instrução condigna, etc. E, bem entendido, os filhos só devem ser autorizados a trabalhar caso tenham alcançado a idade suficiente para ter adquirido os primeiros rudimentos de educação e instrução. Em outros termos, no que todos os homens têm igualmente e pelo simples , fato de serem homens, são iguais. Mas, sucede que, além dessas qualidades básicas, os homens são dotados de inúmeras outras, que variam entre si como que ao infinito pelo simples fato de serem homens. E assim, a própria igualdade natural e legítima costuma ser o ponto de partida de desigualdades legítimas, que estão, elas também, na ordem natural das coisas. Tão numerosas elas, e tão diferentes, que seria interminável tentar enumerá-las todas. Elites e bem comum Sem dúvida às elites tão diretamente decorrentes da ordem natura~ que produziram as desigualdades inevitáveis, cabe-lhes uma tarefa a favor do bem comum. Pois, se existem, devem estar dispostas ao sacrifício que essa tarefa exige, e ao aprimoramento que o perfeito cumprimento desta tarefa impõe. Pois seria absurdo imaginar que a ordem natural das coisas criadas por Deus tivesse por únicos beneficiários os gozadores empenhados tão-só em utilizar para seu exclusivo proveito bens cuja carência tenderia a criar uma desdita e uma miséria universais. Essas considerações tornam patente, não só a conveniência, como a necessidade das figuras de escol, para o bem comum. E desfazem uma impressão falsa que espíritos superficiais têm formado por vezes acerca da situação dessas figuras. Na realidade, são tais homens por excelência os trabalhadores, isto é, os que empregam no respectivo trabalho a maior soma de qualidades intelectuais, e de esforços das mais diferentes modalidades. Eles que, trabalhando mais, dão mais. E, dando mais, naturalmente recebem mais do que o comum dos homens. Em suma, são eles os beneméritos por excelência. Papel capital da família Erraria quem supusesse que tais escalas se constituem exclusivamente de notabilidades individuais. O homem é, por natureza, membro de uma familia. E onde está o grande homem, com ele está sua familia. Assim, os degraus das várias escalas sociais se constituem naturalmente de familias cujos membros são solidários entre si na grandeza como na mediocridade ou na obscuridade. "Ubi tu Gaius et ego Gaia" (''Aqui onde és Gaio, eu também serei Gaia ''),dizia o cerimonial do matrimônio romano. E essa solidariedade natural se projeta através das gerações. A glória de um homem benemérito se transmite, com o nome, a toda sua descendência. E o portador, por via de descendência, de um nome ilustre, carregará consigo algo de ilustre enquanto esta descendência se prolongar através dos decênios, quiçá das centúrias. A esta altura de nossas reflexões, quanto parece vã a objeção antitradicionalista dos que se erguem contra a transmissão hereditária de' glórias e títulos acumulados no passado! Segundo essa teoria, nada de mais normal do que ver o pai ilustre ter um filho obscuro e pobre. Quanto este modo de pensar transgride fundamentalmente a instituição da familia! O nobre impulso do desvelo paterno leva o bom pai a querer que, quando tenha transposto os umbrais da morte, deixe ao filho uma situação proporcionada com a do genitor. Se o pai consagrou toda sua capacidade de agir, em favor do bem comum, natural é que ele espere da gratidão pública que assegure ao filho uma situação proporcionada a tudo quanto seu pai deixou de ganhar para melhor servir à pátria. E não se imagine que, ao tecer essas considerações, tenhamos em vista exclusivamente as famílias de alta categoria social ou até somente as Casas reinantes. Na realidade, mesmo às famílias mais modestas estão abertas as portas de acesso a esta despretensiosa mas quão genuína glória. As presentes considerações tornam evidente a importância da meta com que foi escrito "Nobreza e Elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII, um tema que ilumina a história social americana". Amor à cruz Não desejaria terminar estas considerações, que foram tornadas excessivamente longas pelo deleite do convívio espiritual convosco, sem entretanto lembrarmos, a título de encerramento, uma grande e suprema verdade, cuja recordação deve iluminar os aspectos terminais da meditação desta noite, em que tantas vezes vos falamos acerca das elites consideradas em função de suas ralações com o bem dos corpos e das almas nesta vida' terrena. O Evangelho nos faz ver com a maior evidência quanto a misericórdia de nosso Divino Salvador se compadece de nossas dores da alma e do corpo. Basta atentar para os milagres assombrosos de sua onipotência, praticados tantas vezes para as mitigar. Entretanto, não imaginemos que esse combate à dor tenha sido o maior benefício por Ele feito aos homens nesta vida terrena. Não compreenderia a missão de Cristo ante os homens quem fechasse os olhos para o fato central de que Ele é nosso Redentor, e de que quis padecer dores crudelíssimas para nos remir. Sem a compreensão da Cruz, sem o amor à Cruz, sem ter passado cada qual por sua Via Crucis, não teremos cumprido a nosso respeito os desígnios da Providência. E, ao morrer, não poderemos tornar nossa a oração sublime de Silo Paulo: "Combati o bom combate, concluí a minha carreira, guardei a fé. De resto, está-me reservada a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia" (II Tim. 4, 7-8). * * * A todos os seus convidados a TFP americana ofereceu no fim um buffet, no elegante salão de Bailes do Mayflower. |