| Intransigência dos Santos: fidelidade inarredável à sua missão A firmeza inquebrantável de Santa Catarina Labouré na defesa do verdadeiro simbolismo da Medalha Milagrosa Antonio Augusto Borelli Machado O ciclo anual das festas litúrgicas nos traz, neste mês de novembro, no dia 27, a comemoração de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Na oportunidade de cada festa, a Igreja Católica sabe oferecer à consideração dos fiéis aspectos novos e antigos, que alimentam as almas, renovando nelas a fé, a esperança e a caridade, e todas as virtudes. Inspirado no exemplo da Igreja, Catolicismo apresenta hoje a seus leitores aspectos pouco conhecidos das admiráveis revelações da Medalha Milagrosa, com que foi favorecida Santa Catarina Labouré. Decorridos 163 anos dessas aparições e 117 anos após a morte da santa, não há inconveniente em revelar, com o devido respeito, a luta de bastidores que a vidente teve que travar, a fim de que fossem acatadas fielmente as orientações de Nossa Senhora a respeito dessa Medalha. Essa fidelidade e firmeza de Santa Catarina Labouré revelarão a muitos leitores a verdadeira fisionomia da santidade, que só se pode encontrar na Igreja Católica. * * *
Santa Catarina Labouré
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Conforme os tempos e os lugares, formam-se, em meio ao povo fiel, noções correntes sobre o que seja a santidade, que nem sempre correspondem à concepção autêntica da Igreja. Certa escola de espiritualidade, que concedia uma prioridade exagerada à doçura, à bondade e à tolerância em detrimento da fortaleza, da combatividade e das virtudes austeras, começou a inculcar seus princípios em fins do século XVIII, em plena fermentação da Revolução Francesa. Ela se opunha assim –– caindo no excesso oposto –– ao azedume e ao rigorismo moral mal entendido que, por obra do jansenismo, contaminara incontáveis ambientes católicos, inclusive, alguns deles, avessos doutrinariamente a essa perniciosa heresia. Tal escola encontrou o caldo de cultura propício para a sua proliferação com o advento do romantismo, logo no início do século XIX, e estendeu suas vagas dominadoras até quase nossos dias, quando, por seu turno, como fruto para muitos inesperado do Concílio Vaticano II, uma onda de dessacralização começou a varrer a Igreja. Não é propósito deste artigo tratar nem dos resquícios de jansenismo, hoje quase extintos nas manifestações da piedade católica, nem, muito menos, do tema –– entretanto quão atual! –– da tormenta pós-conciliar, que provocou amargurados comentários do próprio Paulo VI, o Pontífice que levou a termo e promulgou, com sua autoridade, os documentos do Concílio Vaticano II.(1) Tomemos, sim, como objeto de nossas reflexões aquela devoção sentimental e romântica que caracterizou o tipo de mentalidade acima referido e cujos representantes sobrevivem como náufragos pairando sobre as águas, na onda dessacralizante e avassaladora de nossos dias. Se esses católicos remanescentes de outras eras –– não tão poucos, ao contrário do que geralmente se pensa –– souberem corrigir sua visão destorcida da piedade, ainda poderão colocar em ação os remédios eficazes para enfrentar e vencer os males da atual crise na Igreja e na Cristandade. * * * Santa Catarina Labouré e as admiráveis revelações da Medalha Milagrosa são temas que Catolicismo tem repetidamente tratado.(2) A espiritualidade dulçurosa que desejamos por em foco imagina que, exclusivamente por sua mansidão e sem nenhuma forma de energia e de combatividade, os santos conquistam os corações, são por todos compreendidos, reconhecidos como tais em vida e, mal expiram, desde o leito de morte os cercam a veneração e o culto dos que com eles conviviam. Com a vidente da Medalha Milagrosa houve muito disso. Porém, não apenas isso. Os exemplos de sua vida, e o que se seguiu após sua morte, mostram uma e outra coisa. Missão contrariada Santa Catarina Labouré foi contrariada desde os primórdios de sua vida religiosa pelo Pe. João Maria Aladel, confessor do noviciado das Filhas da Caridade, a quem a santa confiara a mensagem que recebera de Nossa Senhora. Prevendo isto, a Mãe de Deus –– Rainha dos Profetas –– já desde a primeira aparição orientara a então noviça Catarina Labouré sobre como conduzir-se em relação ao seu diretor espiritual: "Sereis contrariada. Mas recebereis a graça. Não tenhais medo... Dizei tudo com confiança e simplicidade. Tende confiança. Não temais".(3) Essa aparição se deu na noite de 18 para 19 de julho de 1830, festa litúrgica de São Vicente de Paulo. Quatro meses mais tarde, no dia 27 de novembro, Nossa Senhora aparece novamente, mostrando-lhe o modelo de uma medalha que ela deveria mandar cunhar, e que seria o veículo de incontáveis graças. A Mãe de Deus a fez "compreender quanto era agradável rezar a Nossa Senhora, e como Ela era generosa para com as pessoas que rezassem a Ela. Quantas graças Ela concedia às pessoas que lhas pedissem, e que alegria ela sentia ao concedê-las". (4) O Pe. Aladel recebeu este novo relato da noviça com indisfarçado mau humor: "Pura ilusão! Se quereis honrar a Nossa Senhora, imitai as suas virtudes, e precavei-vos contra a imaginação!".(5) Depois de muitas insistências da vidente, e sobretudo impressionado com o cumprimento das profecias que ela lhe comunicara sobre a revolução de julho de 1830, o Pe. Aladel resolveu abrir-se com seu superior (Pe. Etienne), e ambos, na primeira oportunidade, obtêm do Arcebispo de Paris autorização para cunhar a medalha. Modificações introduzidas pelo confessor Tudo agora parecia correr sobre os trilhos. Mas as obras de Deus sofrem percalços inesperados. Por conta própria, o Pe. Aladel modificou a efígie da Mãe de Deus que aparece na Medalha Milagrosa: na visão de Santa Catarina, Nossa Senhora segura com ambas as mãos um globo de ouro, encimado por uma pequena cruz, que Ela oferece ao Padre Eterno. Nas mãos, três anéis em cada dedo. Das pedras preciosas desses anéis partem raios de luz que significam as graças que a Mãe de Deus esparge sobre a humanidade. Nesta posição das mãos, os raios de luz caem, como é natural, para baixo e para adiante. O Pe. Aladel houve por bem suprimir o globo das mãos de Nossa Senhora, e representar as mãos pendentes, de modo que os raios partem da ponta dos dedos e das palmas das mãos ... Detalhes sem importância, dirá algum espírito superficial. A Irmã Catarina Labouré não pensava assim: na impossibilidade de corrigir a efígie da medalha batalhou a Vida toda para que ao menos fosse feita uma imagem na atitude verdadeira, e colocada num altar, no local onde Nossa Senhora lhe aparecera pela primeira vez. O simbolismo da Santíssima Virgem como Rainha do Universo estaria assim preservado. "Foi o martírio de minha vida" Na primavera de 1876, sabendo que lhe restava pouco tempo de viela, a Irmã Catarina, a quem o Pe. Aladel impusera silêncio sobre as aparições, sentiu necessidade de se abrir com sua superiora, a Irmã Dufès. Esta ficou perplexa ao tomar conhecimento das modificações introduzidas pelo Pe. Aladel. Um globo nas mãos! Como conciliar isto com a imagem da Medalha Milagrosa? A Irmã Dufès pensa que a Irmã Catarina está delirando: - "Dir-se-á que estais louca! - "Oh! não será a primeira vez! O Pe. Aladel me chamava de 'vespa danada' [méchante guêpe] quando eu insistia sobre isso!".(6) - "Mas o que será da Medalha, se isto se divulgar? - "Oh! il ne faut pas toucher à la Médaille!" ("Não se deve mexer na Medalha") - retorquiu a santa...(7) Com efeito, 45 anos depois de a Medalha ter dado a volta ao mundo, operando autênticos milagres e outras maravilhas da graça, não era mais oportuno alterar a forma pela qual se tornara conhecida. A solução era pois fazer uma representação complementar, conforme pleiteava Santa Catarina Labouré. A Irmã Dufès, entretanto, insiste: - "Mas se o Pe. Aladel recusou, ele teria suas razões... - "Foi o martírio de minha vida", replica a Irmã Labouré, que assim revela a batalha pertinaz que teve de conduzir para se manter fiel à revelação recebida.(8) A Irmã Dufès pede que ela forneça os detalhes para o trabalho do escultor: os traços da Santíssima Virgem - orienta a Irmã Catarina não devem ser "nem muito jovens, nem muito sorridentes, mas de uma gravidade mesclada de tristeza, a qual desaparecia durante a visão, quando o rosto se iluminava com as claridades radiosas do amor, sobretudo no momento em que Ela rezava".(9) |