| DA BRANCA DE NEVE AOS DINOSSAUROS O leitor já pensou o que está por detrás dessa moda de apresentar dinossauros a torto e a direito? C.A. Antigamente as crianças tinham brinquedos que não só as distraíam mas as ajudavam na formação de sua personalidade. As bonecas para as meninas são um exemplo característico. Os mil cuidados que prodigalizavam a suas "filhinhas" –– que elas sempre viam como belas ––desenvolviam-lhes o senso materno, e as preparavam muito docemente para os futuros problemas a enfrentar na vida. Já os jogos dos meninos pião, bolinhas de gude, balões e tantos outros –– iam fazendo com que insensivelmente se tomassem aptos para as rudes batalhas da existência. Mas os folguedos infantis tinham ainda outra característica de primeira importância para a formação do caráter do futuro adulto. Eles freqüentemente elevavam as almas para admirar as coisas belas, fazendo uma ligação o mais das vezes subconsciente, mas poderosa e rica, entre o bem, o belo e o verdadeiro. Marcantes nesse sentido eram os contos, em que o imaginário infantil ia sendo povoado de figuras belas, atraentes, interessantes e sempre opostas ao mal: Branca de Neve, por exemplo. . * * * De uns tempos para cá, porém, a situação se inverteu. Um misterioso fole começou soprar para dentro do universo infantil todo tipo de monstros, cada qual mais horrendo que o outro. Nas televisões, nas revistas, na imprensa em geral, os brinquedos eletrônicos imediatamente se alinharam segundo os novos parâmetros da moda. Gorilas horrendos, animais pré-diluvianos e mesmo demônios saídos do inferno passaram a conviver com as crianças em seus jogos e Os dinossauros arrastam as crianças ao convívio com o horrendo lazeres, e assim a formá-las (a palavra correta seria deformá-las) à imagem e semelhança de suas taras e defeitos. Estão nesse caso os dinossauros, tiranossauros e outros, que se transformaram numa verdadeira febre. Tamanhos descomunais, aspectos medonhos, nada neles tem proporção com a fragilidade e a graça próprias da infância. Entretanto, a três por quatro são impingidos a ela ... e mesmo aos adultos. Especialmente na capital paulista vai alcançando triste notoriedade esse tipo de horrores. No Morumbi Shopping, por exemplo, existe o "Parque dos Dinossauros", onde as crianças podem montar com tijolos esses animais pré-diluvianos, e entregar-se a diversos modos de brincar com eles. Um dos divertimentos consiste em ficar preso dentro de uma geladeira com um monstro. Isso é um jogo infantil! O referido Shopping é freqüentado em média por 300 crianças a cada dia, e aos sábados por duas mil. Numa cena projetada no parque, os monstrengos fogem dos cercados e dedicam-se a caçar e comer visitantes ... (cfr. "Veja", 14-7-93). É assim que se arrebenta com a sensibilidade infantil. O Shopping Eldorado, por sua vez, montou em seu estacionamento uma exposição intitulada "Os dinossauros estão de volta". Fabricados à base de borracha, plástico e ar comprimido, os animais pré-históricos estão espalhados por nada menos do que 1.400 metros quadrados. Ali estão carnívoros alossauros de 2,7 m de altura e 6 m de comprimento e os assustadores tiranossauros de 2,9 me 5m. Eles rosnam, movem os olhos, caudas e patas. Há ainda estegossauros, apatossauros e parassauros (cfr. "Folha de S. Paulo", 9-7-93). Só os nomes já causam mal-estar! A Microsoft, grande produtora de programas para computador, resolveu colocar como atração em seu estande um menino de 5 anos, o qual mostra ao público os vários tipos de dinossauros contidos no programa Dinossaurs. Transformado, ainda em tenra idade, num expert em animais pré-históricos, o menino explica o modo de vida desses seres, e, naturalmente, chega ao fim da tarde exausto ("Jornal do Brasil", 23-7-93). Pobre garoto ... A vizinhança com o monstruoso, tomada como normal e até lúdica, vai levando meninos e meninas a se modelarem já não mais de acordo com o bem, o verdadeiro e o belo. Mas sim com o mal, o falso e o horrendo.
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