Janeiro de 1999
Temos alma e espírito ao mesmo tempo. Qual é a diferença entre eles ?
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A Palavra do Sacerdote

Filha do Rei Luís XV, da França, a caminho dos altares

Con. José Luiz Villac

Perguntas

Cônego José Luiz Villac
l. Sou assinante da revista Catolicismo e aprecio muito as explicações dadas por V. Reverendíssima na seção A Palavra do Sacerdote. Eu desejava saber o que significa “as ações dos Nicolaítas” (Apocalipse - cap. 2, vers.6)

2. Foi numa das reuniões da Conferência Vicentina a que pertenço, que surgiu a dúvida sobre alma e espírito. Temos alma e espírito ao mesmo tempo. Qual é a diferença entre eles ?

3. Li no livro de Santa Teresinha que Nossa Senhora morou na Itália, em Loreto. Lendo a vida de Nossa Senhora em outro livro, de autor desconhecido, o mesmo narra a vida dEla bem diferente – depois da morte de Jesus, Ela foi para Éfeso e lá ficou até os seus últimos dias.

4. Faz apenas uma ano que meu marido partiu, sua alma foi para a Eternidade. Estando na UTI, só pedia para rezar. Ele me disse que viu sua mãe ( 40 dias antes de falecer) e que ela o chamava e dizia “vem”, e ele disse “eu vou”. É possível essa visão que ele teve?

5. No Evangelho de São Mateus (18, 6) está escrito: “O que, porém, escandalizar um destes pequeninos, que crêem em Mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de moinho e que o lançassem no fundo do mar”. Minha pergunta: nesta frase, não se oculta a sempre estarrecedora e polêmica pena de morte?

Respostas

1 - Os nicolaítas, aos quais se refere São João no Apocalipse (Cap. 2 vv. 6, 15 e provavelmente 20) eram hereges saídos do Cristianismo que participavam de orgias e ritos pagãos e justificavam a fornicação como se ela fosse um ato virtuoso.

Segundo alguns autores, foi interpretada erradamente pelos nicolaítas uma atitude imprudente de Nicolau, prosélito de Antioquia, escolhido pelos Apóstolos como um dos sete Diáconos encarregados de cuidar da assistência material e de manter a boa ordem na comunidade de Jerusalém, e especialmente de distribuir as esmolas aos pobres (Atos 6,5). Conforme outros, esse Diácono teria mesmo caído no erro de justificar a poligamia e a fornicação.

Santo Irineu afirma que os nicolaítas caíram nos erros dos gnósticos, hereges que explicavam a Criação como uma espécie de desastre cósmico ocorrido em Deus, mediante o qual partículas divinas teriam sido aprisionadas na matéria. A Redenção, então, segundo eles, dar-se-ia por meio de um conhecimento (gnose) iniciático e secreto, ao qual só alguns teriam acesso.

O certo é que se tratava de libertinos que tentavam justificar sua conduta orgíaca e infame por meio da Religião.

Alma e espírito

2 - Segundo a teologia e a filosofia católicas, o homem é um composto de alma (o elemento espiritual) e o corpo (o elemento material). A alma vivifica o corpo, formando com ele uma só unidade ou composto, que é a pessoa humana. A alma é o primeiro princípio de vida vegetativa, sensitiva e intelectiva da natureza humana, por onde o homem vegeta (respira, alimenta-se), sente (locomove-se) e entende (pensa, raciocina, conclui). Segundo a filosofia aristotélico-tomista, a alma é substância simples, espiritual e imortal, substancialmente unida ao corpo.

Por sua natureza espiritual e enquanto princípio da nossa vida intelectiva, a alma pode ser chamada de espírito, embora ela seja criada para viver unida ao nosso corpo. A separação que se dá entre a alma e o corpo, com a morte, é provisória, pois no fim dos tempos haverá a ressurreição da carne, formando-se novamente o composto humano corpo-alma.

Não há lugar, pois, para um segundo elemento espiritual vivificando o corpo humano, pois isso introduziria uma desordem na personalidade humana, em sua unidade. Esse foi, e é, o erro de inúmeros hereges e ocultistas, os quais julgam que além da alma e do corpo, o homem possui uma partícula divina, a que chamam de espírito (pneuma em grego).

É preciso insistir, entretanto, em que a alma humana desempenha várias funções, englobando em si os princípios da vida vegetativa (crescimento e manutenção do corpo), da vida sensitiva (sensações, função que ela exerce unida ao corpo), e finalmente a puramente espiritual, como é a de pensar, querer, amar etc.

Assim, o texto de São Paulo citado pelo missivista --“Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses, 5, 23) ou, mais ainda na carta aos hebreus (IV,12), citamos nós -- é explicado pelos exegetas católicos, como por exemplo o Pe. J.M. Bover S.J., em seu livro Teologia de San Pablo, como uma distinção que o Apóstolo faz de dois aspectos da mesma alma: enquanto princípio de animação do corpo e enquanto elemento puramente espiritual que sobrepassa e sobrevive ao corpo, como dissemos acima. Ter o “espírito, a alma e o corpo” preparado para a vinda de Nosso Senhor, significa uma entrega total do homem inteiro “de todo o ser”, como diz o mesmo Apóstolo, sem reserva alguma, a Deus Nosso Senhor.

A utilização de alma e espírito que aparece também em outros lugares da Escritura, como, por exemplo, no Cântico de Nossa Senhora, “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria” (São Lucas, 1, 46-47), é um modo enfático de dizer que todo o ser se engaja, se entrega, exulta, com a ação de Deus.

Casa de Loreto

3 - Houve uma confusão na leitura do referido livro. O autor do livro sobre Santa Teresinha fala, de fato, na Santa Casa de Loreto, onde Nossa Senhora teria vivido e se dado a Anunciação. Mas essa casa, segundo venerável tradição, pelo ministério dos Anjos foi levada da Palestina até a Itália, muito depois da morte da Santíssima Virgem, para impedir que ela caísse em poder dos muçulmanos.

Assim, é certo que a Mãe de Deus nunca viveu na Itália, tendo vivido em Éfeso, após a Ascensão de seu Filho aos Céus. Não se sabe quanto tempo Nossa Senhora viveu nessa cidade da Ásia, e segundo a Tradição, Ela voltou à Palestina, onde morreu e subiu aos Céus (Assunção).


Aviso antes da morte

Nosso Senhor afirma, no Evangelho de São Mateus: "O que escandalizar um destes pequeninos, melhor lhe fora que se lhe pendurasse no pescoço uma mó de moinho e que o lnçassem no fundo do mar"
4 Deus pode enviar algum aviso sobre a morte iminente de uma pessoa, para que ela se prepare bem. Haja vista a devoção a “Nossa Senhora do Aviso”, em Portugal. É um ato da divina misericórdia. Algumas vezes dá-se realmente uma visão ou aparição de um parente, ou dos pais, ou de um Santo etc. Normalmente é um anjo que assume essa aparência, e não a própria pessoa viva (caso da “bilocação”) ou já falecida que aparece.

Embora isto seja possível, entretanto devemos tomar muito cuidado, pois não se pode excluir a presença de causas naturais, como delírio, alucinações, reflexo de luzes etc., que possam dar tal impressão. E também o demônio pode fazer uma das suas para enganar ou perturbar a pessoa.

A boa norma a ser seguida é examinar e ver o efeito que tal aparição causou. Se serviu para aproximar mais a alma de Deus, a fim de prepará-la para uma boa morte, então pode-se tomar como uma obra da graça e da divina misericórdia.

Escândalo dos inocentes

5 Essa passagem do Evangelho visa mostrar a terrível responsabilidade da pessoa que comete o pecado de escandalizar outrem de fé simples, seja criança, seja adulto. Pecado gravíssimo contra o 5º Mandamento! É matar a vida da Graça na alma. As palavras de Nosso Senhor são muito severas: melhor seria amarrar-lhes uma pedra e atirar a esse escandalizador no fundo do mar.

Daí não se deduz necessariamente tratar-se “ex professo” da pena de morte, pois o Divino Salvador está se referindo e nos alertando sobre a grave responsabilidade moral e ao castigo severo que tal ato acarreta. Nem tudo aquilo que é mau é sempre punido com pena temporal nesta Terra. Mas, quando nocivo ao bem comum, a ação má deve ser punida pela legítima autoridade, após julgamento que determine bem a culpabilidade, as atenuantes e as agravantes. A pena deve ser proporcional ao delito, não sendo ela necessariamente a de morte.

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