Outubro de 2004
Cruel perseguição contra católicos sudaneses: martírio silenciado
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Perseguição

Cruel perseguição contra católicos sudaneses: martírio silenciado

A mídia e líderes do Ocidente mostram preocupação quanto aos sangrentos choques entre muçulmanos no Sudão. Mas se desinteressam do massacre de católicos sudaneses perpetrados por islamitas.

  • Santiago Fernandes

Santa Bakhita
Duas sorridentes meninas de ébano, vestidas com roupas de cores esfuziantes, vagavam pelos campos semidesérticos de seu torrão natal. Subitamente a tragédia cortou o rumo de suas vidas, quando apareceram negreiros muçulmanos. Pegaram a mais nova, que contava apenas 9 anos, e a venderam como escrava. Sob o trauma do rapto, ela esqueceu seu nome, passando a ser chamada Bakhita, ou seja, a afortunada.

Ela teve quatro donos maometanos. O último deles torturou-a horrivelmente. Foi tatuada, como todos os infelizes escravos, e sofreu 114 incisões no corpo. Sobre as feridas, jogavam sal como único anti-séptico.

A Santa rodeada por ex-alunas italianas
Esse cruel amo vendeu-a no mercado de Cartum, capital do Sudão, em 1882. Naquele dia o cônsul da Itália, Calixto Leganini, viu-a, teve pena, comprou-a e a recebeu em sua família. Pouco depois, quando fanáticos islâmicos iam invadir Cartum, o cônsul voltou para a Itália. Ali, Bakhita foi babá na casa de Augusto Michieli, amigo do cônsul. Recebeu o batismo, a comunhão e o crisma das mãos do Cardeal de Veneza. Por fim, ingressou no Instituto das Irmãs da Caridade de Canossa junto com a filha dos Michieli, Miminna, que tornara-se sua íntima amiga.

Durante 50 anos de vida religiosa, trabalhou sempre sorridente nos conventos, limpando, cozinhando e cuidando dos mais pobres. Comove ver as fotos de Bakhita — seu nome de religião é soror Josefina Margarida Afortunada — já anciã, rodeada pelas ex-alunas italianas das casas onde exerceu seu labor apostólico. Em seu velório, as mães pegavam a mão de “nossa mãe mourinha” e colocavam-na sobre os seus filhos, para pedir-lhe sua salvação. Ela faleceu em 1947, tendo sido canonizada em 1º de outubro de 2000. Nascera, ao que tudo indica, em 1869, em Olgossa, a sudoeste do Sudão, na região de Darfur, próxima da capital do país.(1)

Refugiados sudaneses de Darfur
Islã: mundo dilacerado por lutas de grupos e clãs

Darfur: palavra hoje constante em manchetes da grande mídia. Não por causa de Santa Bakhita, mas devido ao mesmo flagelo que a tornou escrava: as práticas e os conflitos ferozes que marcam há séculos a vida quotidiana nas regiões sob domínio do Islã.

Está em curso em Darfur uma guerra atroz entre facções muçulmanas. Os dados, embora aproximados, acenam para a existência de uma imensa tragédia. Os mortos seriam mais de 10.000, enquanto os refugiados atingiriam a cifra de um milhão.(2) Na opinião de observadores, caminha-se para um imenso morticínio, devido à falta de alimentos que aflige as vítimas, sobretudo mulheres e crianças de tribos refratárias ao islamismo revolucionário.

Não existe em Darfur conflito entre religiões, pois 100% da população é maometana. Também não se trata de conflito étnico, pois todos pertencem à raça de Santa Bakhita. De um lado há as milícias islâmicas dos Janjawid (“cavaleiros do diabo, armados de kalachnikovs”), apoiadas pelo governo fundamentalista de Cartum. De outro lado diversas tribos agrícolas, que não seguem o islamismo radical do governo.

Os conflitos de Darfur põem a nu um aspecto pouco divulgado pela mídia: as divisões internas no mundo islâmico. Este costuma ser apresentado como um bloco sem fissuras. Porém, na realidade, os seguidores de Maomé formam uma galáxia corroída por ódios e dissensões seculares e profundos, que as interpretações do Corão têm contribuído para aumentar.

Fotos de católicos sudaneses assistindo à Santa Missa
Calvário quase ignorado dos católicos sudaneses

O drama no Darfur, entretanto, não atingiu, pelo menos até agora, os níveis de extermínio em massa da guerra promovida pelo islamismo contra as populações, em grande proporção católicas, do sul daquela nação. Lá, tropas e milícias irregulares do governo islâmico já ocasionaram entre dois e três milhões de mortes. Mas a este genocídio a grande mídia ocidental não concedeu espaço proporcionado ao que dá ao caso de Darfur.

A ONU, a União Africana e as potências mundiais, assim como altas personalidades religiosas, hoje preocupadas com a crise humanitária gerada pelas lutas entre muçulmanos, não se mostram proporcionalmente sensibilizadas pelo massacre dos cristãos do sul.

D. Cesare Mazzolari, Biso de Rumbek
D. Cesare Mazzolari,
Bispo de Rumbek, diocese localizada nessa martirizada região, forneceu informações atualizadas sobre os católicos da zona, em entrevista ao diário "Il Giornale" de Milão.(3) A situação é tão grave que, para ele, “está se aproximando o momento do martírio. Espero que o Senhor nos dê a graça de enfrentar este derramamento de sangue. [...] Muitos cristãos serão mortos por causa da sua fé. Mas do sangue dos mártires vai nascer uma nova cristandade”.

Fiéis católicos recebendo a Sagrada Comunhão
Mons. Mazzolari conheceu, por exemplo, Joseph Santino Garang, jovem cristão escravo de um patrão muçulmano, que foi crucificado num domingo porque se deteve para rezar. “O patrão cravou nele pregos nas mãos, nos pés e nos joelhos, e jogou ácido nas feridas. Agora ele ficou irremediavelmente estropiado”, narrou o bispo. E acrescentou: “Pelo menos três milhões de sudaneses do sul foram transferidos ao norte, empurrados pela fome, e tiveram que fazer a profissão pública islâmica de fé, para obter um emprego. Os convertidos ao islamismo são marcados a fogo. Marcam-nos a ferro como gado, para distingui-los dos infiéis”.

D. Cesare ainda informou: “Minhas missões estão cheias de ex-escravos. Nos anos 90, resgatei pessoalmente 150, pagando por eles menos do que por um cão de pedigree: 50 dólares pelas mulheres e 100 pelos homens. Eles os utilizam como pastores ou os colocam no serviço de famílias árabes ricas de Cartum. Obrigam-nos a freqüentar as escolas corânicas”.

Fila de escravos sudaneses
Atitude capitulacionista de católicos face ao Islã

Contrariando o que se espalha em certos ambientes ecumênicos do Ocidente, D. Mazzolari deixou bem claro que o Deus dos católicos não é o Alá dos muçulmanos. Mas como explicar o fato de que na Europa há bispos que lhes concedem igrejas para serem usadas como mesquitas?

O Prelado respondeu: “Os muçulmanos, [...] por todo lado onde se instalam, mais cedo ou mais tarde tornam-se uma força política hegemônica. Os italianos os acolhem por bonacheirice. Logo perceberão que os muçulmanos abusaram dessa bondade, trazendo dez vezes mais pessoas do que o combinado. São muito mais sabidos do que nós. Em minha diocese destroem as igrejas, entretanto vós lhes abris as portas das igrejas. Não se oferece um quarto do próprio apartamento a um ladrão, porque mais cedo ou mais tarde não se encontrará mais a mobília”.

Pés acorrentados de escravos
Cruzada: meio para coibir a perseguição

O que poderá pôr um ponto final a esse rio de sangue e perseguição que se abate sobre os católicos sudaneses, em meio a tão grande insensibilidade do Ocidente? A resposta se encontra no título de um vigoroso artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: Sim, só por meio de uma cruzada!(4) E devemos lembrar-nos, ademais, de Santa Bakhita, da legião de mártires africanos — tanto dos primeiros séculos do cristianismo quanto dos séculos XX e XXI — bem como do triunfo prometido por Nossa Senhora em Fátima.

Posto de saúde destruido em Darfur
Todo esse quadro inclina o espírito a admitir que tanta dor, tantos martírios, estão pesando na balança da misericórdia divina, para apressar o dia em que a África conhecerá uma ordem e uma civilização como até agora não conheceu: a Civilização Cristã, em que os tesouros de alma das várias raças e povos desse continente desabrocharão sob a inspiração

Notas:

1. “Afrol News”, 3-8-04, http://www.afrol.com/es/especiales/13253

2. Cfr. “Le Monde Diplomatique”, maio/2004.

3. www.chiesa.espressonline.it, http://213.92.16.98/ESW-articolo/0,2393,42159,00.html

4. “Folha de S. Paulo”, 15-11-70.

 

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