Outubro de 2010
Santo Inácio de Antioquia Heróico pastor, mártir destemido
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Vidas de Santos

Santo Inácio de Antioquia
Heróico pastor, mártir destemido

Discípulo do Apóstolo São João, bispo de Antioquia, um dos primeiros e mais ilustres Padres da Igreja

Plinio Maria Solimeo

Segundo antiga tradição, Santo Inácio de Antioquia foi o menino que Nosso Senhor Jesus Cristo abraçou quando disse: "Todo o que recebe um destes meninos em meu nome, a mim é que recebe; e todo o que recebe a mim, não me recebe, mas àquele que me enviou" (Mc 9, 37). [gravura à esquerda]. Pertence igualmente à tradição ter sido ele, com seu amigo São Policarpo, discípulo do Apóstolo São João.

Faltam-nos outros dados biográficos do santo. Felizmente, deixou ele sete cartas, todas consideradas autênticas. Além da manifestação de seu zelo pelas almas, elas oferecem alguns dados sobre sua prisão. Junto com as cartas, chegou-nos dos tempos antigos um relato de seu martírio (The Martyrdom of Ignatius), provavelmente escrito por Philo (um diácono de Tarso) e por Rheus Agathopus, um leigo sírio que acompanhara Santo Inácio em sua prisão até Roma. Muitos historiadores o consideram autêntico, no entanto crêem ter havido nele várias interpolações. Tomaremos como base esse relato e as cartas do santo.(1)

Antioquia, a "capital do Oriente"

Santo Inácio foi o terceiro bispo de Antioquia — logo depois de São Pedro e Santo Evódio — sagrado diretamente por um dos Apóstolos, provavelmente o próprio São Pedro.

Antioquia situava-se às margens do rio Orontes, localizada então na Síria, e corresponde hoje à moderna Antakya, na Turquia. Fora fundada em fins do século IV a.C. por Seleuco I, e Nicanor tornou-a capital de seu império. Ocupa lugar de destaque na história do cristianismo. São Paulo pregou pela primeira vez numa sinagoga em Antioquia, e nela os seguidores de Jesus Cristo tornaram-se conhecidos como "cristãos" (At 11:26). Era a terceira cidade do Império Romano, logo depois de Roma e Alexandria. Devido à sua situação e às relações comerciais, era considerada a capital do Oriente.

Um pastor, líder preparado e atento

Ruínas da antiga Antioquia

Estava Santo Inácio ocupado em seus afazeres episcopais quando o imperador romano Domiciano (81-96) — o primeiro a deificar-se, assumindo o título de "Senhor e Deus" — apresentou-se como regenerador da moral e da religião (pagã) do império, apesar de seus vícios na vida privada. Como tal, empenhou-se em "cortar pela raiz a religião dos galileus", então florescente em várias partes do império.

"O bispo de Antioquia possuía em grau eminente todas as melhores qualidades do pastor ideal e do verdadeiro soldado de Cristo. Desse modo, quando a tormenta da perseguição de Domiciano eclodiu com fúria sobre os cristãos da Síria, encontrou seu fiel líder preparado e atento. Ele era incessante em sua vigilância, e incansável em seus esforços para inspirar esperança e fortalecer as mais fracas de suas ovelhas contra os terrores da perseguição".(2)

Quando cessou essa tormenta com a morte de Domiciano, sobrevindo relativa paz, Santo Inácio procurou preparar seus fiéis para uma nova possível perseguição, dando-lhes o exemplo de destemor e espírito sobrenatural com que deveriam enfrentá-la. Ressaltava que não há graça maior do que dar a vida por Cristo, que ofereceu sua vida por nós.

Eloqüência, coragem e martírio

Ascendeu ao trono imperial Trajano (98-117), um dos mais hábeis imperadores romanos, que estendeu as fronteiras do Império para além das margens do Reno até às do Danúbio, promoveu o comércio e a indústria e fez grandes edificações para seus serviços administrativos. Apesar de tão vasta visão administrativa, esse imperador considerava o cristianismo como crime punível de morte.
    Ensoberbecido pela vitória contra os síncios e os dacianos, Trajano procurou obter também uma conquista religiosa no Império. Para isso determinou que todos os cristãos deveriam unir-se aos pagãos na adoração dos deuses imperiais, e seriam perseguidos e levados à morte os que a isso se negassem. Entretanto, devido a um farisaísmo mal disfarçado, não admitia delações. E Tertuliano, famoso escritor eclesiástico que viveu entre os séculos II e III, exclama a propósito dessas medidas: "Proíbe-se buscar os cristãos como sendo inocentes, mas se os condena como culpáveis. Perdoa-se e se castiga. Não é isso uma contradição palpável?".(3)

Trajano visitava Antioquia quando seus editos foram publicados, e quis pô-los em execução imediatamente ali mesmo. Evidentemente a figura de Santo Inácio era a que mais se destacava entre os cristãos, e ele foi preso e levado à presença do imperador. Seu testemunho da fé diante de Trajano, de acordo com o relato, foi caracterizado por inspirada eloqüência, coragem sublime, e mesmo certa exultação. Mas isso não impressionou o imperador. Pelo contrário, este ordenou que o acorrentassem e o enviassem a Roma, para ser alimento das feras e um espetáculo para o povo.

"Vou lutando contra feras, por terra e por mar"

É provável que o santo tenha embarcado em Selêucia, o porto mais próximo de Antioquia. Em Esmirna, onde São Policarpo era bispo, cristãos de várias comunidades da Ásia Menor foram saudá-lo. Entre eles estavam cristãos de Éfeso, Magnésia e Trales, que o foram confortar. Para cada uma dessas comunidades ele escreveu, confirmando-as na fé, exortando-as à obediência aos respectivos bispos e a evitarem qualquer contaminação com a heresia. Essas cartas revelam sua extrema caridade cristã, seu zelo apostólico e suas preocupações pastorais.

Em sua carta aos Romanos, escrita durante uma parada em Esmirna, o ínclito herói de Jesus Cristo diz: "Da Síria mesmo até Roma, vou lutando contra feras, por terra e por mar, de dia e de noite, encadeado entre dez leopardos, quer dizer, um bando de soldados que me custodiam, e que, mesmo quando recebem benefícios, mostram-se ainda piores. Entretanto, sou instruído por suas injúrias [para agir como um discípulo de Cristo]; 'contudo não sou por isso justificado' (1 Cr 4, 4). Possa eu gozar com as feras que estão preparadas para mim. E rezo para que elas possam estar pressurosas em atirar-se contra mim, pois eu também procurarei atraí-las para que me devorem depressa, e para que não ajam comigo como com alguns a quem, por medo, não tocam".(4) Suplicou-lhes também que nada fizessem para evitar seu martírio.

Em outra interrupção da viagem, em Troas, escreveu aos cristãos de Filadélfia e Esmirna e a São Policarpo.

"Eu sou o trigo de Deus, deixe-me ser moído"

Tendo chegado a Roma, dizem os autores do relato: "Encontramos os irmãos [na Cidade Eterna] cheios de temor e de alegria, regozijando-se de fato, porque foram julgados dignos de se encontrar com Teóforos [nome que Santo Inácio atribuía a si mesmo em suas cartas], mas também com temor, porque homem tão eminente estava sendo levado para a morte".(5) O santo confortou esses destemidos cristãos, exortando-os a permanecer fiéis à sua fé e ao amor fraterno. Ajoelhando-se com eles, suplicou ao Filho de Deus que protegesse suas igrejas e terminasse a cruenta perseguição. Mas foi interrompido por seus carcereiros e levado imediatamente para o anfiteatro, para ser devorado pelas feras.

Martírio de Santo Inácio

Quando os animais se precipitaram sobre o herói de Cristo, seu pensamento deve ter-se firmado no que ele escreveu em sua carta aos Romanos: "Eu sou o trigo de Deus, deixe-me ser triturado pelos dentes das feras selvagens, para que possa tornar-me um puro pão de Cristo. [...] Que venham sobre mim o fogo e a cruz; a multidão de feras selvagens; o rompimento, a quebra e o deslocamento de meus ossos; que venham sobre mim o decepamento de meus membros, a fragmentação de todo meu corpo, e todos os espantosos tormentos do demônio, contanto que eu chegue a Jesus Cristo".(6)

Os autores do relato o concluem do seguinte modo: "Tendo sido testemunhas oculares dessas coisas, e tendo passado a noite inteira em casa derramando lágrimas, e tendo conjurado o Senhor, com os joelhos dobrados e muitas preces, para que Ele nos desse, a nós homens fracos, uma garantia a respeito desses fatos, ocorreu que, tendo caído numa breve sonolência, alguns de nós viram o bem-aventurado Inácio de repente, de pé junto a nós e abraçando-nos; enquanto que outros o contemplaram rezando por nós, e outros ainda o viram junto do Senhor, transudando suor, como se tivesse vindo naquele momento de um grande trabalho. Quando, desse modo, testemunhamos com grande alegria essas coisas, comparando nossas várias visões, cantamos louvores a Deus, o doador de todas as coisas".(7)

O martírio de Santo Inácio de Antioquia, cuja festa se comemora no dia 17 deste mês, deu-se no 11º ano do reinado de Trajano, isto é, por volta do ano 110.

___________
Notas:
1. Utilizamos esses documentos contidos no CD da organização americana New Advent (www.NewAdvent.org), Kevin Knight, 2007.
2. John B. O'Connor, St. Ignatius of Antioch, The Catholic Encyclopedia, CD edition.
3. In Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo I, p. 211.
4. The Epistle of Ignatius to the Romans, cap. 5, New Advent CD.
5. The Martyrdom of Ignatius, cap. 6, New Advent CD.
6. Epistle to the Romans, caps. 4 e 5, New Advent, CD.
7. The Martyrdom of Ignatius, cap. 7, id., Ib.

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão