Maio de 2012
Que palavras devo dizer ao padre na hora da confissão?
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A Palavra do Sacerdote

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta 1 — Que palavras devo dizer ao padre na hora da confissão? Pois, não tendo cometido pecado mortal para confessar, como me dirigir a ele e pedir perdão pelas minhas faltas/pecados — não tão graves, acredito, como por exemplo: impaciência, irritabilidade, desconfiança e pré-julgamento em relação a meu próximo. Quero fazer a confissão mais vezes além da Páscoa, Finados e Natal; mas fico indecisa quanto ao que dizer e como falar ao padre. Gostaria que me orientassem, por favor.

Pergunta 2 — Na condição de benfeitor da revista Catolicismo, gostaria de lhe fazer uma pergunta relacionada à minha fé. — Por que a Igreja negligencia tanto a respeito do Sacramento da Penitência? Nas Santas Missas em que participo, posso garantir que nunca ouvi um sacerdote recomendar aos fiéis a prática do Sacramento da Penitência, tão salutar. Sinceramente, gostaria de conhecer sua opinião, e por isto lhe ficaria muito grato.

Resposta — As duas perguntas incidem sobre aspectos diversos do mesmo tema, podendo ser abrangidas pela mesma resposta.

A primeira consulente manifesta o excelente desejo de se confessar mais vezes ao ano, além das três ocasiões que ela indica. Mas fica inibida, por julgar que somente são matéria de confissão os pecados graves. Na realidade, os pecados veniais também constituem matéria que pode ser apresentada para a absolvição do sacerdote. Nos casos em que não ocorre à memória do penitente nenhum pecado, mesmo leve, o confessor pode pedir-lhe que confesse novamente algum pecado grave ou venial da vida passada, que possa servir de matéria para a absolvição e, portanto, para a validade do Sacramento: sem matéria para absolver, não há como dar a absolvição! E mesmo um pecado já absolvido costuma deixar na alma sequelas ou vestígios que são apagados numa ulterior absolvição, assim como uma roupa já lavada ganha maior limpeza numa segunda lavagem.

Esta comparação é de algum modo inadequada, pois enquanto as sucessivas lavagens desgastam a roupa, as sucessivas confissões, se bem feitas, revigoram a alma, tornando-a cada vez mais robusta e resplandecente.

Dito isto, poder-se-ia considerar a pergunta como respondida. Porém ela dá ensejo a observações adicionais que apontam o caminho para a aquisição de uma pureza de alma ainda maior.

O justo peca sete vezes ao dia, diz a Escritura

Com efeito, embora o pecado venial não rompa o vínculo de nossa amizade com Deus — isto é, não faz a alma perder a graça santificante (como acontece com o pecado mortal) — não obstante, é como uma poeira que se acumula e faz a alma perder o brilho. Esta fica mais embaçada, menos pura, menos luminosa aos olhos de Deus e dos homens. E, por fim, a pessoa tem que pagar no Purgatório pelos pecados veniais dos quais não se purificou durante a vida por uma eficaz penitência.

É verdade que não é obrigatório apontar na confissão os pecados veniais. Ademais, o simples fato de receber bem os sacramentos da Confissão e Comunhão apaga, pelo menos em parte, os pecados veniais. Porém, fazendo-o na Confissão, eles ficam diretamente perdoados. O que, aliás, não dispensa de fazer penitência por eles.

Tudo isto mostra a importância de combater os pecados veniais. Mas, além destes, há um sem-número de imperfeições que nem chegam a constituir pecados veniais, as quais, entretanto, também obscurecem a alma. É neste sentido que a Sagrada Escritura diz que “o justo peca sete vezes ao dia” (Prov 24,16). São faltas leves, ou mesmo levíssimas, cometidas sem plena advertência ou deliberação.

Ora, também estas devem ser combatidas com vigor, para cumprir aquela exortação de Nosso Senhor: “Sede perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5,48). Atente-se bem: a perfeição que Jesus Cristo nos aponta como meta a atingir é a própria perfeição de Deus!

Quão longe estamos disso! É a tarefa de toda uma vida, e para a qual a confissão frequente, como a desejada pela consulente, é um ótimo meio. Só podemos encorajá-la a que faça uso dele.

O mundo de hoje está mergulhado na impureza

Não se iluda, entretanto. Além dos nossos impulsos internos para o mal, consequência do pecado original — que foi apagado pelo sacramento do Batismo, porém deixou raízes em nosso corpo e em nossa alma — temos de combater a oposição do mundo, que hoje está mergulhado mais do que nunca na impureza. A alma que quer ser inteiramente fiel aos princípios da moral católica atrairá contra si a censura do mundo. Esta se manifestará de modo velado ou declarado, de forma insidiosa ou violenta, sempre com o objetivo de nos desencorajar no caminho da perfeição suprema que Nosso Senhor nos indicou como meta. O mundo usará contra nós as armas do ridículo, da lisonja ou do suborno. Levantará ameaças e chegará até à perseguição. Não descansará nunca, esperando ver-nos prostrados, ou pelo menos vacilantes.

Por isso, São Pedro nos exortava: “Resistite, fortes in fide” (Resisti, firmes na fé — 1Pt 5,9). Para essa luta, a confissão frequente é, mais uma vez, um auxílio poderoso, pois nos revigorará a cada passo.

A presente crise na Santa Igreja

Porém, cuidado! Quando convocou o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII declarou que o fizera para que entrasse “dell’aria fresca nella Chiesa” (ar fresco na Igreja) (cfr. Dominique Chenu, Diari del Vaticano II, a cura di A. Melloni, Il Mulino, Bologna, 1996, p. 73 — apud Roberto De Mattei, Il Concilio Vaticano II, una storia mai scritta, Lindau, Torino, 2010, p. 277).

Essa mesma informação é corroborada por D. Demétrio Valentini, bispo de Jales (SP), em artigo de 10-8-2011 intitulado As ideias-força do Concílio, no qual explica que o Papa João XXIII “dizia que a Igreja devia fazer como faz a faxineira: abrir as janelas, tirar a poeira, e deixar entrar o ar puro, que faz bem para a saúde e deixa as pessoas mais dispostas para trabalhar” (Site da Diocese de Jales: http://www.diocesedejales.org.br/portal/).

A perfeição que Jesus Cristo nos aponta como meta a atingir é a própria perfeição de Deus! É a tarefa de toda uma vida, e para a qual a confissão frequente é um ótimo meio.

Confissão - Giuseppe Maria Crespi, 1712. Gemäldegalerie, Dresden, Alemanha.

Infelizmente ocorreu o contrário. A poluição e a fuligem do mundo eram mais densas que o incenso que impregnava o templo e nele penetraram. Reconheceu-o o Papa Paulo VI, quando afirmou ter a sensação de que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Alocução de 29 de junho de 1972, Tipografia Poliglota Vaticana, vol. X, pp. 707-709). E foi mais longe ao especificar, na mesma alocução, qual o efeito dessa infiltração: “Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza”.

O mesmo Pontífice se pergunta: “Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. Seu nome é diabo, este misterioso ser a que também alude São Pedro em sua Epístola” (loc. cit.).

Diante de um panorama tão surpreendente e assustador — e atendendo ao pedido de orientação que nos faz a consulente — não causaria espanto que um fiel católico, ao confessar-se, recebesse de algum sacerdote orientações contrastantes com o que sempre aprendeu ser a doutrina e a Moral da Igreja. Não são poucos os casos em que isso tem ocorrido.

No caso dessa consulente, parece pouco provável que isso venha a acontecer, uma vez que já se confessa regularmente três vezes ao ano e, portanto, sabe com quem está se confessando. Faço votos que encontre sempre uma boa orientação. De qualquer modo, a advertência serve para outros leitores que, movidos pela graça do Espírito Santo, retomem o hábito da confissão frequente.

Quanto ao segundo consulente, releia com atenção o que acima está dito sobre a atual crise na Igreja, e compreenderá que essa é a causa maior da negligência na exortação dos pregadores sobre a importância — e, mais ainda, a necessidade — do sacramento da Confissão. E entenderá que o problema que o deixa perplexo se encaixa numa questão muito mais vasta, da qual nossa revista tem tratado amplamente. Diante dessa crise, o fiel católico é convidado a tomar posição e batalhar para que seja resolvida. O consulente faz bem em pedir explicações e sua pergunta contribui para que os responsáveis por essa situação sintam a imperiosa necessidade de dar uma resposta ampla à perplexidade dos fiéis.

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos já tem emitido importantes documentos sobre o Sacramento da Eucaristia. Talvez a pergunta do consulente esteja mostrando a necessidade de um novo documento também sobre o sacramento da Confissão. Porque se um fiel se dirigiu a um humilde sacerdote para pedir esclarecimentos a respeito, é provável que muitos outros pelo mundo acolheriam com gratidão uma cabal exortação sobre o tema, proveniente de uma instância muito mais autorizada, como é uma Congregação da Santa Sé. Creio interpretar assim o desejo do missivista.

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