Janeiro de 2010
A esquerda católica esforça-se por mobilizar a juventude brasileira
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Nacional

A esquerda católica esforça-se por mobilizar a juventude brasileira

Frederico Abranches Viotti

Após o fracasso do socialismo, procura-se ressuscitar, sob novas roupagens, a antiga Juventude Universitária Católica (JUC), apelando-se para a “mística” esotérica, rumo a uma sociedade tribal

Realizou-se na Universidade de São Paulo (USP), entre os dias 29 e 31 de maio último, o I Encontro de Mística e Militância.

O evento foi organizado pelo MIRE (Mística e Revolução), movimento de esquerda católica, objetivando dar vida à extinta JUC (1) na linha do Fórum Mundial Social de Porto Alegre (cfr. Catolicismo, março/2001). O organizador e principal coordenador do evento foi o tristemente famoso dominicano Frei Betto.

Para os três dias de exposição, foram convidados agentes conhecidos da esquerda católica, como João Pedro Stédile (um dos líderes do Movimento dos Sem Terra — MST), o próprio Frei Betto, Plinio de Arruda Sampaio, antigo corifeu do progressismo católico, além de representantes da esquerda laica, como Vicentinho (ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores — CUT), Alfredo Bosi, professor esquerdista da USP etc.

As palestras desenvolveram-se diante de um público muito heterogêneo: professores e alunos de nível universitário, pesquisadores, simples curiosos e militantes de diversos movimentos alternativos, como hippies, anarquistas, punks, além de elementos do MST, PC do B, PT etc.

Essa heterogeneidade refletiu-se sobretudo no momento em que foram apresentadas as perguntas, ocasião em que o auditório, composto por cerca de 200 pessoas, demonstrou um grande leque de concepções e psicologias diversas.

“Tem livros comunistas aqui...”

Com essas palavras, pronunciadas sem o menor entusiasmo, um aluno da USP comentou a presença de livros do MST, de Marx, “Che” Guevara...

Outro participante, diversamente do primeiro e “comunista de carteirinha”, dizia não entender como se poderia unir a Igreja (segundo ele hierárquica, patriarcal e moralizadora) com o socialismo anárquico e libertário.

Não foi por acaso que Frei Betto afirmou: “Não existe, hoje, nenhum grupo cristão progressista para jovens” (2), reconhecendo a dificuldade que as esquerdas estão encontrando para mobilizar uma juventude tão heterogênea. E asseverou ainda: “Queremos criar um movimento espiritual que una todos os movimentos políticos”.

Qual era, então, o ponto de unidade entre participantes tão diversificados? Parece ter sido o combate à doutrina católica tradicional e a defesa de uma nova mística igualitária e relativista. Mística que tem sido a mais recente alavanca na tentativa de rearticular a esquerda católica e dar unidade ao esvaziado movimento comunista na América Latina.

O tribalismo “místico” das esquerdas

Fábio Luís, jovem universitário e um dos organizadores do evento, apresenta seus objetivos: “O Encontro não será um seminário, mas uma troca de experiências de vida. Os participantes serão convidados a sentar nos espaços da FAU para ouvir as histórias e as experiências de gente que está em busca de luta e de paz. Será como nos tempos de intimidade tribal, quando a juventude senta para ouvir o que os mais velhos têm a ensinar.

Ele apenas se esqueceu de mencionar que não haveria cadeiras no auditório — ou melhor, havia apenas 10, para 200 pessoas —, obrigando quase todos a se sentarem no chão, formando círculos. Precisamente como sucede nas tribos, cujos membros, sentados no solo em torno do chefe, desfrutam da “intimidade tribal”.

E acrescenta Fábio Luís: “Os encontros serão abertos cada noite com o sabor de uma tradição espiritual, e sempre por uma mulher: o candomblé, o budismo e o cristianismo”.

Apenas para se ter uma idéia de um dos “cultos”, vejamos o exemplo do “cristianismo” (que de cristão nada tinha): apagam-se as luzes (e boa parte delas permanece apagada durante todas as palestras), velas são acesas e uma mulher, supostamente representando o Cristianismo, afirma que não existe “nem o bem nem o mal”, “verdade ou erro”, “certo ou errado”. Ao som de uma melodia sem letra, pede para cada um da platéia repetir com seu colega: “Feche os olhos e quebre a alteridade, como homem e como mulher, como ladrão e como honesto. Pense que seu colega pode ser seu pai, seu irmão. Eu me reconheço em você, vejo o divino em você, eu sou um outro você”.

Eis um exemplo bem significativo da nova “mística” esotérica que a esquerda católica parece trilhar. Uma “mística” prevista, com impressionante clarividência, pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 1970, após levantar a possibilidade da derrocada dos regimes comunistas (fato que ocorreu apenas em 1989) e o surgimento de um novo tipo de revolução: o tribalismo.

Tendo analisado então como se dava a extinção dos antigos padrões de reflexão e raciocínio, escrevia aquele insigne pensador católico: “Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo, etc, divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista, e agora, por fim, atrofiada e feita escrava do totemismo transpsicológico e parapsicológico” (Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 4ª ed., 1998, p. 182).

Era exatamente o que se via na USP durante aquelas exposições!

“Mudar o homem antes de tomar o poder”

Reconhecendo o fracasso do comunismo internacio­nal, vários dos expositores defenderam a tese de que era preciso “mudar o homem” antes de “tomar o poder”. Em outros termos, trata-se da revolução cultural, que esta revista tantas vezes tem denunciado em numerosos artigos. Uma verdadeira transformação das mentalidades para ser aplicada no mundo inteiro, como ficou claro nas manifestações contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizada no ano passado em Seattle (EUA) e no Fórum Mundial Social de Porto Alegre.

Dilema entre a “mística” e a Revolução

Conseguirá a esquerda engajar a juventude nessa nova mística igualitária? É difícil prever. Os revolucionários socialistas da escola antiga, materialistas em sua grande maioria, rejeitam a mística. E os místicos esotéricos não costumam ser adeptos da política...

Todavia, é certo que uma minoria organizada é capaz de grandes mobilizações em um país cujas elites se encontram desarticuladas e cujo tecido social está fragmentado (basta analisar a lamentável situação da família hoje em dia). Exemplos da influência de minorias, encontramos às centenas em todos os países que sucumbiram diante da tirania vermelha da foice e do martelo.

Cabe a nós, católicos, estudar e denunciar o perigo marxista que, renovado nas águas da mística, volta agora suas vistas para o ambiente universitário nesse encontro da USP, sob a pele de ovelha do esquerdismo católico.

E peçamos a Nossa Senhora Aparecida que proteja o Brasil dessas novas investidas da Revolução gnóstica e igualitária, magistralmente denunciada e refutada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em diversas de suas obras.

Notas:

1.A JUC era um ramo da Ação Católica, constituído por universitários católicos. Muitos membros dessa associação, no Brasil, perderam a fé, nas décadas de 50 e 60, e aderiram ao comunismo. Para realizar esse processo de apostasia da fé católica entre tantos jovens universitários, desempenhou importante papel a Ação Popular, entidade composta por jovens ativistas, que visavam subverter a ordem estabelecida e implantar um regime marxista no País.

2.“Jornal do Brasil”, 4-6-01.

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