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A esquerda católica
esforça-se por mobilizar a juventude brasileira
Frederico Abranches Viotti
Após o fracasso do socialismo, procura-se
ressuscitar, sob novas roupagens, a antiga Juventude Universitária
Católica (JUC), apelando-se para a mística
esotérica, rumo a uma sociedade tribal
Realizou-se na Universidade de São Paulo
(USP), entre os dias 29 e 31 de maio último, o I Encontro
de Mística e Militância.
O evento foi organizado pelo MIRE (Mística e
Revolução), movimento de esquerda católica,
objetivando dar vida à extinta JUC (1) na linha do Fórum
Mundial Social de Porto Alegre (cfr. Catolicismo,
março/2001). O organizador e principal coordenador do evento
foi o tristemente famoso dominicano Frei Betto.
Para os três dias de exposição,
foram convidados agentes conhecidos da esquerda católica,
como João Pedro Stédile (um dos líderes do
Movimento dos Sem Terra MST), o próprio Frei Betto,
Plinio de Arruda Sampaio, antigo corifeu do progressismo católico,
além de representantes da esquerda laica, como Vicentinho
(ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores CUT),
Alfredo Bosi, professor esquerdista da USP etc.
As palestras desenvolveram-se diante de um público
muito heterogêneo: professores e alunos de nível
universitário, pesquisadores, simples curiosos e militantes de
diversos movimentos alternativos, como hippies,
anarquistas, punks, além de elementos do MST, PC do B,
PT etc.
Essa heterogeneidade refletiu-se sobretudo no
momento em que foram apresentadas as perguntas, ocasião em que
o auditório, composto por cerca de 200 pessoas, demonstrou um
grande leque de concepções e psicologias diversas.
Tem livros comunistas aqui...
Com essas palavras, pronunciadas sem o menor
entusiasmo, um aluno da USP comentou a presença de livros do
MST, de Marx, Che Guevara...
Outro participante, diversamente do primeiro e
comunista de carteirinha, dizia não
entender como se poderia unir a Igreja (segundo ele hierárquica,
patriarcal e moralizadora) com o socialismo anárquico e
libertário.
Não foi por acaso que Frei Betto afirmou:
Não existe, hoje, nenhum grupo cristão
progressista para jovens (2), reconhecendo a dificuldade
que as esquerdas estão encontrando para mobilizar uma
juventude tão heterogênea. E asseverou ainda: Queremos
criar um movimento espiritual que una todos os movimentos políticos.
Qual era, então, o ponto de unidade entre
participantes tão diversificados? Parece ter sido o combate à
doutrina católica tradicional e a defesa de uma nova mística
igualitária e relativista. Mística que tem sido a mais
recente alavanca na tentativa de rearticular a esquerda católica
e dar unidade ao esvaziado movimento comunista na América
Latina.
O tribalismo místico
das esquerdas
Fábio Luís, jovem universitário
e um dos organizadores do evento, apresenta seus objetivos: O
Encontro não será um seminário, mas uma troca de
experiências de vida. Os participantes serão convidados
a sentar nos espaços da FAU para ouvir as histórias
e as experiências de gente que está em busca de luta e
de paz. Será como nos tempos de intimidade tribal, quando a
juventude senta para ouvir o que os mais velhos têm a ensinar.
Ele apenas se esqueceu de mencionar que não
haveria cadeiras no auditório ou melhor, havia apenas
10, para 200 pessoas , obrigando quase todos a se sentarem no
chão, formando círculos. Precisamente como sucede nas
tribos, cujos membros, sentados no solo em torno do chefe, desfrutam
da intimidade tribal.
E acrescenta Fábio Luís: Os
encontros serão abertos cada noite com o sabor de uma tradição
espiritual, e sempre por uma mulher: o candomblé, o budismo e
o cristianismo.
Apenas para se ter uma idéia de um dos
cultos, vejamos o exemplo do cristianismo
(que de cristão nada tinha): apagam-se as luzes (e boa
parte delas permanece apagada durante todas as palestras), velas são
acesas e uma mulher, supostamente representando o Cristianismo,
afirma que não existe nem o bem nem o mal,
verdade ou erro, certo ou errado.
Ao som de uma melodia sem letra, pede para cada um da platéia
repetir com seu colega: Feche os olhos e quebre a
alteridade, como homem e como mulher, como ladrão e como
honesto. Pense que seu colega pode ser seu pai, seu irmão. Eu
me reconheço em você, vejo o divino em você, eu
sou um outro você.
Eis um exemplo bem significativo da nova mística
esotérica que a esquerda católica parece
trilhar. Uma mística prevista, com
impressionante clarividência, pelo Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira, em 1970, após levantar a possibilidade da derrocada
dos regimes comunistas (fato que ocorreu apenas em 1989) e o
surgimento de um novo tipo de revolução: o tribalismo.
Tendo analisado então como se dava a extinção
dos antigos padrões de reflexão e raciocínio,
escrevia aquele insigne pensador católico: Da razão,
sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo, etc,
divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até
o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista, e
agora, por fim, atrofiada e feita escrava do totemismo
transpsicológico e parapsicológico (Revolução
e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 4ª
ed., 1998, p. 182).
Era exatamente o que se via na USP durante aquelas
exposições!
Mudar o homem antes de tomar o poder
Reconhecendo o fracasso do comunismo internacional,
vários dos expositores defenderam a tese de que era preciso
mudar o homem antes de tomar o poder.
Em outros termos, trata-se da revolução cultural,
que esta revista tantas vezes tem denunciado em numerosos artigos.
Uma verdadeira transformação das mentalidades
para ser aplicada no mundo inteiro, como ficou claro nas
manifestações contra a reunião da Organização
Mundial do Comércio (OMC) realizada no ano passado em
Seattle (EUA) e no Fórum Mundial Social de Porto
Alegre.
Dilema entre a mística
e a Revolução
Conseguirá a esquerda engajar a juventude
nessa nova mística igualitária? É difícil
prever. Os revolucionários socialistas da escola antiga,
materialistas em sua grande maioria, rejeitam a mística. E os
místicos esotéricos não costumam ser adeptos da
política...
Todavia, é certo que uma minoria organizada é
capaz de grandes mobilizações em um país cujas
elites se encontram desarticuladas e cujo tecido social está
fragmentado (basta analisar a lamentável situação
da família hoje em dia). Exemplos da influência de
minorias, encontramos às centenas em todos os países
que sucumbiram diante da tirania vermelha da foice e do martelo.
Cabe a nós, católicos, estudar e
denunciar o perigo marxista que, renovado nas águas da
mística, volta agora suas vistas para o ambiente
universitário nesse encontro da USP, sob a pele de ovelha
do esquerdismo católico.
E peçamos a Nossa Senhora Aparecida que
proteja o Brasil dessas novas investidas da Revolução
gnóstica e igualitária, magistralmente denunciada e
refutada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em diversas de
suas obras.
Notas:
1.A JUC era um ramo da Ação
Católica, constituído por universitários
católicos. Muitos membros dessa associação, no
Brasil, perderam a fé, nas décadas de 50 e 60, e
aderiram ao comunismo. Para realizar esse processo de apostasia da fé
católica entre tantos jovens universitários,
desempenhou importante papel a Ação Popular,
entidade composta por jovens ativistas, que visavam subverter a ordem
estabelecida e implantar um regime marxista no País.
2.Jornal do Brasil, 4-6-01.
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