Outubro de 2004
Pode-se fazer justiça com as próprias mãos, quando o Estado não o faz?
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A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac
Pergunta —
Nasci e fui educado numa família católica. Graças a Deus, recebi de meus pais e meus avós uma educação católica muito voltada para os princípios defendidos pela revista Catolicismo. O senhor não tem idéia da vida maravilhosa que tive em minha infância, por causa da Virgem Maria.

O fato é que meus avós morreram, meu pai foi assassinado, e aquela família patriarcal e autenticamente católica foi abalada, eu particularmente passei por momentos terríveis de depressão. Sem perceber que estávamos fazendo uma grande bobagem, fomos levados a apoiar e até a votar na esquerda neste País. Como sempre fomos católicos praticantes, sempre rezamos o terço em família todas as noites, sempre percebi que aquele mundo, aquelas promessas, no fundo não me atraíam e em nada lembravam a vida ordeira de outros tempos. Cheguei ridiculamente a me filiar no PT.

Porém, graças a Deus, conheci a revista Catolicismo. Tenho acompanhado e estudado seus artigos, e isto me fez reconhecer e voltar atrás em meus erros e da minha família. Desde então me livrei da depressão, parei de apoiar a esquerda, estou recuperando a auto-estima, pois até isto eles me tinham tirado. A coerência dos [seus] ensinamentos me abriram os olhos, descobri que os valores que os srs. defendem me são intrínsecos e sempre estiveram presentes em mim. Hoje me sinto muito melhor, o fato é que eu não percebia que estava sendo alienado por elementos progressistas da esquerda católica que têm como objetivo levar a sociedade ao caos, à guerra civil, à luta de classes, com o apoio até de pessoas honestas, que são levadas pela mística socialista a achar que em nome do social podem-se perverter os verdadeiros ensinamentos cristãos.

Ainda tenho grandes problemas em família, e gostaria que o senhor me desse alguns conselhos [o missivista narra um assunto particular]. Pode-se fazer justiça com as próprias mãos, quando o Estado não o faz?

Espero ansioso por sua resposta, e reze por mim e minha família. Eu também rezarei pelo senhor. Peço que continuem com o trabalho de levar a verdadeira Religião Católica à nossa Pátria e a ajudar outras pessoas. Que Deus o abençoe.

 

Ruínas dos Foros romanos: depois da queda do Império Romano do Ocidente, organicamente se constituíram poderes locais que exerciam a justiça, não cabendo aos indivíduos aplicá-la por si mesmos
Resposta —
Quis transcrever a pergunta do consulente praticamente na íntegra, pois ela constitui um retrato autêntico da situação de muitas famílias católicas no Brasil hodierno, profundamente abaladas pela atuação do esquerdismo e do progressismo católico. E ao mesmo tempo, da resistência que a formação católica tradicional oferece a essa investida contra a Igreja e a Civilização Cristã. Neste ponto, a carta fala por si e dispensa maiores comentários.

Quanto à pergunta que ele nos dirige, devemos responder que a moral católica, embora defenda o direito de legítima defesa, não permite a justiça pelas próprias mãos. O exercício da justiça deve ser normalmente um atributo do Poder constituído. Mesmo em épocas em que este Poder praticamente desmorona e fica impossibilitado de exercer suas funções, como historicamente ocorreu por ocasião da queda do Império Romano do Ocidente, foram se constituindo organicamente poderes locais, que exerciam o governo e a justiça, não cabendo aos indivíduos exercê-la por si mesmos. O Brasil, ainda hoje, constitui um Estado de Direito, pelo que não é lícito fazer (ou mandar fazer) justiça pelas próprias mãos. O consulente deve pois rejeitar firmemente as pressões que vier a receber nesse sentido, salvaguardando naturalmente o direito sagrado à legítima defesa pessoal, de sua família, de seus bens de fortuna (sendo eles consideráveis) quando, por razão de emergência, por exemplo, não cabe recurso à autoridade pública.

É verdade que o Brasil vai derrapando insensivelmente para o solapamento desse Estado de Direito, como o provam, entre outros fatos, as já rotineiras invasões de terra promovidas pelo MST e movimentos congêneres, e as cerca de 250 reintegrações de posse às quais, embora decretadas pelo Judiciário, os Executivos estaduais não dão cumprimento. É um fato gravíssimo, que aponta para hipóteses preocupantes e contraditórias, como a possível eclosão de um grave conflito social em nosso País, com sua imersão no caos ou a implantação de uma ditadura provavelmente de esquerda, que na fímbria do horizonte deixa aparecer o risco de uma verdadeira guerra civil. Os jornais brasileiros estão cheios de graves alertas nesse sentido, se não forem tomadas em tempo providências para a proteção do instituto da propriedade privada.

Nesse panorama, é lícito –– e, conforme o caso, um dever –– acionar todos os meios legais possíveis para que a justiça seja feita, e sobretudo para que se modifiquem as absurdas condições atuais em que vive o Brasil; mas não fazer justiça por si mesmo, a não ser, repetimos, quando se impõe a legítima defesa.

 

Pergunta — Tenho grande respeito e consideração pelo Sr., e tenho certeza tratar-se de uma das pessoas mais inteligentes e eruditas que compõem a Igreja Católica nos dias de hoje. A primeira coisa que leio na revista Catolicismo são os seus comentários, sempre sábios e educativos. Entretanto, desde criança tenho uma dúvida insistente, qual seja, se é verdadeira a afirmação de que São João, o discípulo preferido de Jesus, ainda é vivo na carne até hoje.

 

A exegese atual tende à interpretação de que São João morreu, como os demais Apóstolos
Resposta —
Tenho a convicção de que qualquer sacerdote de formação tradicional responderia do mesmo modo as perguntas que lhe fossem apresentadas, se estivesse no meu lugar, de modo que o missivista não tem por que deter-se nos elogios que me dirige. Se os reproduzo aqui, é apenas para estimular meus colegas de sacerdócio a que não temam tomar a pena para escrever em defesa da doutrina tradicional da Igreja, pois tais escritos atraem o reconhecimento e a benevolência dos verdadeiros fiéis.

Quanto à dúvida sobre o destino de São João Evangelista, ela está registrada nos versículos finais do próprio Evangelho desse Apóstolo: Pedro, tendo-se voltado, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava, o qual na Ceia estivera reclinado sobre o seu peito, e lhe perguntara: “Senhor, quem é que o há de entregar?” Por isso Pedro, vendo-o, disse a Jesus: “Senhor, e deste, que será?” Disse-lhe Jesus: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que tens com isso? Tu, segue-me”. Correu logo esta voz entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não dissera a Pedro que ele não morreria, mas sim: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que tens com isso? (Jo 21, 20-23).

A discussão deste trecho é objeto de muitos vais-e-vens entre os exegetas. Grandes santos, como São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, o interpretam como se São João tivesse sido realmente preservado da morte e levado preternaturalmente para algum lugar desconhecido. Outros julgam que ele se juntará a Enoch e Elias no combate ao Anticristo no fim do mundo. Outros ainda falam numa possível vinda de São João para uma renovação da Igreja, hoje tão provada em sacrílego processo de “autodemolição” (cfr. Paulo VI). São hipóteses grandiosas que não devemos desdenhar, inclusive por respeito aos grandes santos que a defenderam. Porém a crítica histórica e a própria crítica exegética do último versículo citado (23) é tendente hoje a interpretar que São João morreu, como os demais Apóstolos, sendo seu túmulo apontado na cidade de Éfeso. No dia do Juízo Final, tudo se esclarecerá!

 

 

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