Agosto de 2001
Harry Potter o sinistro e diabólico anti-conto de fadas
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Maravilhoso, o real e o horrendo na literatura infantil

Plinio Corrêa de Oliveira

As histórias, todos o sabem, são os primeiros contatos das crianças com a vida. Através delas, a inteligência infantil transpõe os limites do ambiente doméstico e apreende as noções iniciais sobre a sociedade humana, com as inúmeras diferenciações que comporta, as atrações que oferece, os deveres que impõe, as decepções que traz, e o jogo complicado das paixões nos altos e baixos desta grande luta que é a existência. “Militia est vita hominis super terram” [A vida do homem sobre a terra é uma luta], diz a Sagrada Escritura (Job 7,1). “Militia”, sim, em que uns lutam por seus interesses pessoais, legítimos ou ilegítimos, e outros lutam contra o mundo, contra o demônio, contra a carne, para a maior glória de Deus.

Daí haver importância essencial, para uma civilização católica, em proporcionar às crianças uma literatura profundamente e sadiamente religiosa. Não falamos apenas do curso de Catecismo e História Sagrada, que deve ser o centro de tudo, mas de histórias que fossem como que o comentário, o prolongamento, a aplicação do que a Religião ensina.

Isto, em termos de boa doutrina, é o normal. Quanto é evidente, porém, que a caudal da literatura infantil moderna está longe disto!

Desejando tratar hoje da literatura infantil nesta seção, que não é de crítica literária, fazemo-lo analisando algumas destas ilustrações.

Antes de tudo, uma composição de Walt Disney. É a Cinderela, que vai com seu Príncipe rumo ao castelo encantado. É o maravilhoso na literatura infantil.

Haveria restrições a fazer. Em princípio, o que se oferece à criança deve tender a amadurecê-la, sob pena de não ser inteiramente sadio. Alguma coisa no cocheiro, no lacaio, na estrutura do morro e dos edifícios dá idéia de coisa feita não só para crianças, mas por crianças. E isto se nota, embora menos claramente, nos outros elementos da cena.

Mas, feita esta reserva, como não elogiar o gosto, a delicadeza, a variedade desta composição? O maravilhoso, indispensável nos horizontes infantis como meio de apurar o senso artístico, elevar o espírito, abrir o descortinio, estimular sadiamente a imaginação, está aqui expresso com um tato e um gosto notáveis.

*   *   *

Passemos agora do maravilhoso para uma representação da vida quotidiana, com seus aspectos calmos, caseiros, simpáticos — outro elemento essencial nos horizontes da literatura infantil, para despertar a atração, o interesse pela realidade e pela virtude.

Aqui está uma conhecida ilustração do Juca e Chico. No alto do telhado, os dois meninos das “sete travessuras” estão “pescando” as galinhas da Viúva Chaves. Junto ao fogão, ladra assustado o fiel cãozinho. Os “dois meninos malcriados, esses dois endiabrados” que “põem toda a gente maluca”, representam com real expressão a traquinagem tão freqüente na vida caseira. Traquinagem tratada aliás, no livro, não sem uma exemplar severidade: “lede esta história e vereis a sorte dos dois”. Exceção feita dos traquinas — e talvez nem isto —, tudo evoca a atmosfera feliz, calma, modicamente farta, da vida doméstica popular. Louçania de alma, temperança, largueza, bem-estar sensato na própria mediania, tudo aí se exprime.

Vem depois a literatura malfazeja. Apresentamos um entre mil. Murros, tiros, assaltos, agressões, vibração exagerada, narração melodramática, corre-corre, sangue, morte, “super-homens” que manipulam raios — toda uma sinistra e ridícula contextura de inverossimilhanças, de crueldades, de grosseiros artifícios de sensacionalismo.

Com isso não se forma um homem, e muito menos um cristão. O produto próprio desta literatura é o neobárbaro...


Catolicismo nº 40 — abril 1954, Excertos da seção Ambientes, Costumes, Civilizações

Nota da Redação: Se na década de 50, comentando uma cena de história em quadrinhos da época, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira previu que o “produto próprio” de tal “literatura é o neobárbaro”, pode-se imaginar o juízo muito mais severo que ele faria das aventuras de Harry Potter! Esta literatura é própria a criar na alma infantil e juvenil uma conaturalidade com algo muito pior que a barbárie: o monstruoso, o horrendo e, por fim, o diabólico e infernal.

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