Na infância o aprendizado se faz pela imitação, dizia Aristóteles. Vendo a menina à esquerda, quem não sente saudades da infância iluminada pelo maravilhoso dos contos de fada?
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Universo de coisas asquerosas: plantas
purulentas...
O asqueroso e não mais a contínua
procura do bonum, verum, pulchrum (bom, verdadeiro, belo), que
deve ser o objeto de uma sólida educação
está igualmente presente nas aulas a que Harry assiste em
Hogwarts.
A professora Sprout, uma bruxinha atarracada
que usava um chapéu remendado sobre os cabelos soltos, que
geralmente tinha uma grande quantidade de terra nas roupas, e cujas
unhas fariam tia Petúnia desmaiar 16,
mostra aos alunos as plantas mais horríveis que Harry
jamais houvera visto. De fato, elas se pareciam menos com plantas do
que com gigantescos caramujos que se elevavam verticalmente do solo,
contorcendo-se e dobrando-se. Em suas hastes traziam pústulas
grandes e brilhantes, cheias de uma substância líquida.
Essas plantas são os Bubotubler,
disse-lhes vivamente a professora Sprout. Elas devem ser
espremidas. Aí vocês podem recolher o pus...
O quê?, perguntou Seamus
Finnigan com nojo.
O pus, Finnigan, o pus, respondeu
a professora Sprout, e ele é altamente valioso, portanto
não o joguem fora. É preciso recolhê-lo.
Espremer os Bubotubler foi uma tarefa asquerosa, mas
que produzia de certo modo contentamento. De cada uma das pústulas,
que espremiam, corria uma grande quantidade de líquido
verde-amarelo, que recendia fortemente a gasolina... 17.
... Rony e as lesmas
O nojento está presente ao longo de toda a
obra. Rony, o grande amigo de Harry, lança um feitiço
contra um colega que o odeia. Porém, sua varinha de condão
bate-lhe no corpo e o efeito volta-se contra ele. E passa a vomitar
ininterruptamente vermes:
Rony abriu a boca para falar, mas não
saiu nada. Em vez disso, soltou um poderoso arroto e várias
lesmas caíram de sua boca para o colo. O time da Sonserina
ficou paralisado de tanto rir. ... Draco caíra de quatro,
dando murros no chão. Os alunos da Grifinória
agrupavam-se em torno de Rony, que não parava de arrotar
lesmas enormes 18.
Banquete
na masmorra: macabro aliado ao nojento
Em Harry Potter o repugnante não encontra
barreiras nem limites. Assim Harry descreve um banquete para o qual
ele e seus amigos haviam sido convidados. Na descrição
do banquete, que se realiza nas masmorras do castelo de Hogwarts,
nota-se novamente a mistura do belo com o hediondo, quando a autora
se refere por exemplo aos peixes podres servidos em travessas de
prata:
A masmorra continha centenas de pessoas
esbranquiçadas e translúcidas, a maioria deslizando por
uma pista de dança, valsando ao som medonho de trinta serrotes
musicais, tocados por uma orquestra reunida em cima de uma plataforma
drapeada de negro. ... Parecia que estavam entrando numa câmara
frigorífica. ... Passaram por um grupo de freiras soturnas, um
homem vestido de trapos que usava correntes e o Frade Gordo, o alegre
fantasma da Lufa-Lufa, que conversava com um cavalheiro que tinha uma
flecha espetada na testa. Harry não se surpreendeu ao ver que
os outros fantasmas se distanciavam do Barão Sangrento, um
fantasma da Sonserina, muito magro, de olhos arregalados e coberto de
manchas de sangue prateado. ... Do lado oposto da masmorra havia uma
longa mesa, também coberta de veludo negro. Aproximaram-se
pressurosos, mas no instante seguinte pararam de chofre,
horrorizados. O cheiro era bem desagradável. Grandes peixes
podres estavam dispostos em belas travessas de pratas; bolos
carbonizados arrumados em salvas; havia uma grande terrina de
picadinho de miúdos de carneiro cheio de vermes... e o orgulho
do buffet, um enorme bolo cinzento em forma de sepultura, com os
dizeres em glacê de asfalto 19.
Um fogo
agradável e uma língua imensa e
gosmenta de serpente
Com a permissão de seus parentes trouxas,
Potter deve passar parte de suas férias em casa de uma família
de bruxos, seus amigos. Esses chegam através da lareira. Na
saída, um dos colegas de Harry deixa cair de propósito
uma bala enfeitiçada, logo engolida por seu primo trouxa,
o guloso Dudley. Aqui, ao nojento une-se o horror. A língua do
menino cresce e incha, a ponto de ficar como uma imensa serpente
píton gosmenta.
Até logo, disse
Harry, e colocou os pés nas chamas verdes. Eram agradáveis
e transmitiam uma sensação de um sopro quente. Neste
momento, porém, ouviu-se um horrível som de engasgo, e
a tia Petúnia começou a gritar. Harry voltou-se. Dudley
... estava ajoelhado junto à mesa de café, engasgado
com uma coisa comprida, avermelhada e gosmenta que lhe saía da
boca. Harry viu logo que esta coisa gosmenta era a língua de
Dudley 20.
Os diabretes
da Cornualha: espírito diabólico de
destruição
Em meio a toda espécie de seres estranhos que
aparecem ao longo dos quatro volumes já editados, como os
animagi (homens que se transformam em animais), os hipogrifos
(seres meio cavalo, meio águia), as aranhas do tamanho de
cavalos e árvores que chicoteiam etc., entram em
cena também diabretes. Uma maneira eufemística
de falar do demônio.
Assim, Lockhart, professor de Proteção
contra Artes Mágicas, traz um dia para a sala de aula
diabretes de cor azul-elétrico, diabolicamente
astutos, de vinte centímetros de altura:
Foi um pandemônio. Os diabretes
disparavam em todas as direções como foguetes. Dois
deles agarraram Neville pelas orelhas e o ergueram no ar. Vários
outros voaram direto pelas janelas, fazendo cair uma chuva de
estilhaços de vidro. Os demais se puseram a destruir a sala de
aula com mais eficiência do que um rinoceronte desembestado.
Agarraram tinteiros e salpicaram a sala de tinta, picaram livros e
papéis, arrancaram quadros das paredes, viraram a cesta de
lixo, pegaram as mochilas e os livros e os atiraram contra as
vidraças quebradas; em poucos minutos, metade da classe estava
abrigada embaixo das carteiras, e Neville pendurado no teto pelo
lustre de ferro 21.
Se a autora quisesse preparar seus jovens leitores
para uma real aparição do demônio, poderia
perfeitamente ter escrito o que escreveu.
Antítese entre antecâmara do
inferno e pré-figura do Céu
Tal é o mundo de horrores proposto com
base numa gigantesca máquina de propaganda mediática
a dezenas de milhões de leitores de Harry Potter nos
cinco continentes da Terra. Um mundo dominado pela magia, habitado
por seres que parecem brotados de uma mente alucinada, no qual, por
assim dizer, todos os sentidos são agredidos pelo monstruoso,
de modo tal que já se vai tendo uma antevisão e um
antegosto do que possa ser o inferno.
Os grossos volumes de Harry Potter procuram de modo
sutil incutir no leitor a idéia de que o mundo real é
invisível e mágico, no qual vivem os bruxos. Aí
é que as coisas de fato importantes se decidem. A sociedade
dos trouxas, dos homens comuns, constituiria um mundo de
segunda classe, estúpido, sem graça, banal.
A obra da escritora Joanne Rowling toma assim um
caráter de iniciação nos mistérios da
feitiçaria, da magia e do ocultismo, enquanto porta de acesso
a este novo mundo anticristão, que não é outra
coisa senão uma pré-figura do reino do demônio.
Objetar-se-á que o reino de bruxos e
feiticeiras desvendado em Harry Potter não passa de mera
fantasia de literatura infanto-juvenil. Sem dúvida. Mas também
é indubitável que tal fantasia prepara e de modo
possante as almas para um estado de coisas que se encontra bem
exatamente nos antípodas do Reino de Maria previsto por Nossa
Senhora em Fátima. E anelado por grandes santos como São
Luís Grignion de Montfort e eminentes pensadores católicos
como o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Sim, do Reino de Maria,
futuro ápice da Cristandade, quando Nossa Senhora reinará
sobre os corações, fazendo da sociedade humana uma
antecâmara do Céu.
Notas
1. Título original inglês:
Harry Potter and the Goblet of Fire. As citações
deste volume no presente artigo foram extraídas da edição
alemã Harry Potter und der Feuerkelch, Carlsen,
Hamburg, 2000.
2. Ver por exemplo: O Estado de S.
Paulo, 23-6-2001, Caderno 2.
3. Engana-se rotundamente quem pensar que
a leitura de Harry Potter atrai somente crianças e jovens. De
fato, pessoas de todas as idades estão lendo essa obra.
Norbert Blum, ex-Ministro do Trabalho da Alemanha e membro do CDU,
referindo-se ao sucesso da série, declarou: Depois
que devorei os três primeiros volumes, não estou de modo
algum surpreso com o seu sucesso. Pois esses livros são todos
eles um exercício em matéria de assombro. E o assombro
é o veículo que transporta as fábulas
(Stern, Hamburg, 41/2000)
4. Diário das Leis,
São Paulo, 2a. edição, 1982
5. Frankfurter Rundschau,
20-11-2000.
6. Título original: Harry
Potter and the Philosopher´s Stone
7. Títulos originais
respectivamente: Harry Potter and the Chamber of Secrets, Harry
Potter and the Prisoner of Azkaban.
8. Cfr. Harry Potter und der
Feuerkelch, pp. 667 ss.
9. No currículo escolar das
escolas secundárias constam matérias como História,
Geografia, Inglês, Matemática, Física etc. Porém,
na Escola de Bruxaria de Hogwarts os jovens alunos cursam disciplinas
tais como Ciência das Ervas, Criação de Seres
Mágicos, Predições, Aritmântica, História
da Feitiçaria, Aula de Transformação (em outros
seres), Parsel, ou a habilidade de falar com cobras, Curso de Poções
Mágicas (o qual se revela uma verdadeira tortura:
As aulas de Poções Mágicas eram sempre uma
experiência horrível, porém agora
transformaram-se numa verdadeira tortura. Estar durante uma hora e
meia trancado num calabouço com o professor Snape...
idem, p. 310).
10. Idem, p. 314.
11. O crítico literário de
fama internacional Harold Bloom, professor da Universidade de Yale,
considera que Potter não é aconselhável para
quem esteja interessado em literatura, e muito menos para crianças:
O livro é uma massa de clichês que não
pode fazer nenhum bem às crianças. Tudo isso começou
por causa de Stephen King, que é um autor horrível. Ele
escreveu uma resenha dizendo que os leitores de Harry Potter, com 12,
13 anos, estariam prontos para ler os livros dele aos 16 ou 17. E
esta é exatamente a verdade (Jornal do
Brasil, 3/2/2001). Stephen King escreve livros de horror
pesado. Tanto seus livros quanto os de Rowling estariam desde há
muito no Index Librorum Prohibitorum do antigo Santo Ofício
(hoje Congregação para a Doutrina da Fé),
caso ele ainda estivesse vigente.
12. Harry Potter and the Prisoner of
Azkaban, Bloomsberry, London, 1999, pp. 93-94
13. Idem, p. 203
14. Idem, p. 365
15. Harry Potter e a Câmara
Secreta, Rocco, Rio de Janeiro, 2000, p. 168
16. Idem, p. 181
17. Harry Potter und der Feuerkelch,
pp. 404-405.
18. Harry Potter e a Câmara
Secreta, p. 100
19. Idem, pp. 116-117)
20. Harry Potter und der Feuerkelch,
pp. 53-54
21. Harry Potter e a Câmara
Secreta, pp. 91-92
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