Setembro de 2009
Café, bebida do pensamento
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Café

Café, bebida do pensamento

Valdis Grinsteins

Em 1683, durante o cerco de Viena pelos turcos muçulmanos, o comandante austríaco necessitava de um mensageiro que atravessasse as linhas turcas e levasse ao rei Jan Sobieski uma importante informação. Franz George Kolschitzky foi escolhido, por ter vivido muitos anos entre os povos orientais. Disfarçado com um uniforme turco, conseguiu cumprir sua missão.




Estátua de Kolschitzky erigida pelo Café Makers Guild de Viena
Depois disso, os turcos foram derrotados e postos em fuga. Entre numerosos bens que deixaram para trás, havia grandes sacos repletos de grãos negros, que os austríacos julgaram tratar-se de algum alimento para camelos. Ao constatar que não lhes podiam ser úteis, começaram a queimá-los. Contudo, ao sentir o odor, Kolschitzky, que conhecia os costumes turcos, reconheceu imediatamente tratar-se de café. Conseguiu evitar que o queimassem, e que lho entregassem em recompensa por sua missão.

Provido assim daquela rubiácea, abriu em Viena o primeiro estabelecimento desta bebida, que até então era conhecida apenas como remédio. Mas em pouco tempo o café tornou-se popular, pois foi modificada a forma de seu preparo, tornando-o menos forte, adicionando-se depois um pouco de leite. Com a popularidade, surgiram novos locais, os cafés, criando-se uma moda.

*       *       *

Ao contrário das cervejarias, dominadas pelo ruído e às vezes por disputas, os cafés tornaram-se o ponto preferido de encontro dos intelectuais, apreciadores da concentração mental que essa bebida lhes proporcionava, além de lhes tirar o sono.







No Café Procope, em Paris, sentados, da esquerda para a direita: Condorcet, La Harpe, Voltaire e Diderot
Em Paris, passou-se algo semelhante. O café já era lá conhecido por poucos, e usado mais como remédio. A partir de 1684 — quando um imigrante italiano abriu o Café Procope, em frente à Comédie Française — os cafés começaram a atrair intelectuais, artistas e homens de pensamento, multiplicando-se a partir de então esses estabelecimentos.

Infelizmente, os inimigos da civilização cristã rapidamente souberam utilizar-se deles para alcançarem seus objetivos, e os cafés transformaram-se rapidamente em lugares igualitários de reunião, onde eram socialmente admitidos homens para conversar em público sem maiores formalidades ou apresentações, e onde se urdiam conspirações: “Os cafés proporcionaram à Inglaterra o primeiro lugar de reunião igualitário, onde se supunha que um homem podia dialogar com seus vizinhos de mesa, quer os conhecesse ou não”.(1)

Além de aumentar de número, os cafés foram se especializando. Em alguns difundiam-se notícias, em outros reuniam-se os enciclopedistas para divulgar seu veneno doutrinário, em outros disseminavam-se boatos, enquanto outros atraíam escritores, pintores, poetas, etc. Sob o reinado de Luís XV, só em Paris chegou a haver 600 cafés. Não se pode medir adequadamente a obra de difusão de idéias igualitárias e contestatárias neles realizada.

*       *       *

Esta associação entre o café e a difusão de idéias revolucionárias foi com o tempo se diluindo. A rubiácia começou a ser cultivada em outras terras além da sua originária Arábia, surgindo plantações importantes, famílias que se enriqueciam e toda uma cultura ligada à sua produção. Com isso, passou a ter uma conotação exótica, algo mais geográfico que ideológico. Diversos tipos de café foram aparecendo, criando-se como conseqüência grupos especializados de apreciadores, além de estabelecimentos dedicados à busca de variedades de aromas e misturas.

As modas sociais foram mudando, e a generalização do trato social igualitário tornou desnecessário ir a um café para conversar com desconhecidos. Devido às numerosas guerras e à conseqüente necessidade de vigiar e estar de guarda, o café tornou-se popular também entre os soldados, penetrando através deles nas classes mais humildes e nos países mais longínquos. O café é o segundo produto básico legal de exportação existente no mundo, perdendo apenas para o petróleo.(2)

*       *       *

Todos esses motivos ajudaram a erradicar a má associação que se havia estabelecido entre café e Revolução.

Além daqueles que apreciam a arte de fazer um bom café, há os que fazem "café com arte". São apreciadores da nossa rubiácia que ornamentam o café com desenhos diversos. para isso, bastam o café, creme, leite e um pouco de imaginação...
Mas não se detiveram aqui as mudanças. A mesma Revolução, que no século XVII difundia idéias e apresentava os homens de pensamento liberal como modelos a serem imitados, no século XX passou a apresentar como modelos do futuro os seres primitivos e as pessoas que se movem por impulsos espontâneos (quando não animais…). O estruturalismo, o tribalismo, o rock, a contra-cultura assumiram os novos pontos de referência. Nesse ambiente, o café, com seu estímulo à reflexão e à tranqüilidade, transformou-se em um inimigo, pois nada mais contrário a uma explosão de espontaneidade do que o pensamento metódico ou a reflexão, que o café pode nos proporcionar. É claramente improvável que um cantor de hard-rock venha a dizer, com uma fina xícara de porcelana nas mãos: “Vamos beber um café para, de forma metódica, tranqüila e sistemática, analisar a doutrina e o pensamento profundo que estão por trás de nossa forma de ser”.

O café adquiriu em nossos dias uma conotação tradicional, em algo contra-revolucionária, de bom trato e de harmonia entre as pessoas. “Transformou-se em símbolo da distensão e convívio”.(3) Em muitos países, toda reunião social, e mesmo comercial, fica incompleta se não for servido um café que permita prolongar de forma mais pessoal os temas tratados.

*       *       *

Para concluir, um curioso episódio religioso no qual está presente o café. Trata-se do diário espiritual de Santa Gemma Galgani, mística italiana canonizada em 1936. Ao relatar o início do dia 20 de agosto de 1900, ela escreve em seu diário: “Meu anjo da guarda não cessa de velar sobre mim, de instruir-me e dar-me sábios conselhos. Várias vezes durante o dia ele se apresenta a mim e me fala. Ontem ele me fez companhia enquanto eu tomava minha refeição. Como eu não me sentia bem depois que terminei de comer, ele me trouxe uma xícara de café tão bom, que me senti instantaneamente curada, e então ele me fez descansar um pouco”.

Que tipo de café terá o anjo oferecido a Santa Gemma? Infelizmente não sabemos. Mas o fato indica que no Céu empíreo talvez possamos saborear essa bebida paradisíaca!

__________________

Notas:

1. Mark Pendergrast, El Café, Ed. Vergara, p. 34.

2. Idem, p. 17.

3. Annie Perrier-Robert, Le café, Ed. Solar, p. 6.

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão