| Bem em frente a Fontainebleau... Próximo ao castelo de Fontainebleau, estabelecimento comercial de largas proporções oferece ao público, por preços astronômicos, quadros de “arte moderna” que se destacam pela hediondez e extravagância. Gregorio Vivanco Lopes Entre os castelos da França merece realce, por sua beleza e por sua história, Fontainebleau, cuja construção foi iniciada por Francisco I, rei de 1515 a 1547. É diante desse portentoso edifício da arte renascentista francesa que se situa a Maison des Ventes Osenat Fontainebleau, um vasto estabelecimento em que se vendem e leiloam obras de arte. São três salas de vendas e 3.000 m² de exposições, onde se podem adquirir quadros, móveis, automóveis de coleção, jóias, etc. Um amigo de Catolicismo residente em Paris enviou-nos um catálogo de propaganda dos objetos leiloados em junho pela Osenat: 118 páginas em papel cuchê fosco, formato 24,5 x 32,5 cm, contendo um sem-número de ilustrações de boa qualidade, tudo em cores e com explicações detalhadas de como proceder para adquirir os objetos ou apresentar lances nos leilões (pela internet, por via postal ou pessoalmente). Nas ilustrações, quadros da chamada arte contemporânea e objetos de arte decorativa do século XX. Tudo a preços astronômicos! Não conheço o resultado das vendas, mas o catálogo pede um comentário. A tela e o burro
Os quadros, como também os objetos oferecidos, são frutos característicos do que se convencionou chamar “arte moderna”, totalmente contestável enquanto “arte”, na qual se sente palpitar a ilogicidade, a cacofonia e o disforme, quando não o materialismo. Ante quase todas as numerosas telas apresentadas no catálogo, tem-se a sensação de traços desconexos, numa agressão ao bom senso, à ordem da natureza e ao reto vibrar da sensibilidade humana. Tudo isso condiz com este fato muito conhecido: numa exposição de arte moderna, diversas telas foram admiradas e interpretadas por alguns “especialistas”. Depois se soube que não haviam sido produzidas por mão humana, mas sim pela movimentação do rabo de um burro ao qual se amarrara um pincel, que vagueara entre a tela e potes de tintas de diferentes cores. Não sei se o fato é verídico, mas é pelo menos verossímil. E é essa a sensação que produzem vários dos quadros oferecidos no catálogo. Veja-se, por exemplo, o óleo sobre tela de Joan Mitchel (figura 1), de 1956. O preço de referência para o leilão é calculado entre 250 mil e 350 mil euros! Visão fantasmagórica
Em matéria de objetos decorativos, note-se este suporte para lâmpada (figura 2), concebido por Pablo Picasso em 1950. Imagine-se uma criança desprevenida que, durante a noite, acende essa lâmpada e se depara com essa figura monstruosa, de cabeça luminosa, e em cujos braços inchados parecem ter-se instalado olhos assustadores. Conseguirá ela conciliar o sono, depois dessa visão fantasmagórica? 15 mil a 20 mil euros é o preço estimado!
Poltrona ou vaso sanitário?
Imagine, leitor, o mal-estar e mesmo o nojo de ter que sentar-se, na sala de visitas de um amigo, nessa poltrona de plástico laqueado (figura 3). Foi concebida em 1969 por Wendell Castle, e mais parece um vaso sanitário. O preço é calculado entre 1.500 e 2.000 euros.
Gavetas empilhadas
Há também esta cômoda (chest of drawers, figura 4), assim descrita: Reunião de 21 gavetas recuperadas, em madeira, plástico e metal, amarradas com uma fita que as envolve. A obra de “arte” é de Tejo Remy, em 1991, e seu preço varia entre 15 mil e 20 mil euros. O natural é que se tenha repulsa em decorar a residência com algo assim.
Ambientes formam os homens Um catálogo tão luxuoso, com preços tão altos para objetos tão disformes, só se explica porque algo de muito importante e muito grave está em jogo. De fato, como nos ensina Plinio Corrêa de Oliveira: “Os homens formam para si ambientes à sua imagem e semelhança, ambientes em que se espelham seus costumes e sua civilização. Mas a recíproca também é verdadeira em larga medida: os ambientes formam à sua imagem e semelhança os homens, os costumes, as civilizações. [...] Assim, o católico pode e deve exigir, dos ambientes em que está, que sejam instrumento eficaz para sua formação moral. “Ora, em matéria de arte — e em muitas outras — uma propaganda hábil, pertinaz, onímoda, vai inculcando cada vez mais certo espírito de materialismo, de sensualidade, de extravagância delirante. O estilo animado por este espírito preside à construção ou reconstrução de cidades inteiras, marca em todas as partes do mundo o aspecto externo e a decoração interior da maioria dos edifícios novos de importância grande, média ou até pequena, expõe suas produções em certames de arte universais” (Catolicismo, nºs 37 e 38, jan. e fev. de 1954). E-mail do autor: gregorio@catolicismo.com.br |