Setembro de 2009
Símbolos religiosos nos lugares públicos: violação de direitos no Estado laico?
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
A Palavra do Sacerdote

Pergunta — A imprensa noticiou que as repartições públicas federais do Estado de São Paulo têm o prazo de 120 dias, a contar de 31 de julho, para remover todos os símbolos religiosos dos “locais de ampla visibilidade e de atendimento ao público”, de acordo com uma liminar obtida pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão. Medidas análogas, de alcance mais restrito ou menos, têm sido noticiadas aqui e acolá. A alegação é que estamos num Estado laico, que não deve privilegiar nenhuma religião. Os que se sentem mais atingidos são evidentemente os católicos. Que direito têm eles de exigir a manutenção de seus símbolos nos lugares públicos?

 

Resposta Boa pergunta! Que tal os ateus e agnósticos promoverem um abaixo-assinado para a remoção da estátua do Cristo Redentor do Corcovado, local de “ampla visibilidade” no Rio de Janeiro?

A sugestão choca pela sua brutalidade e impiedade, mas está na lógica do Estado laico. Há algo de errado, portanto, na situação que se vai criando em nosso País, e o momento é oportuno para esclarecê-la.

Raízes cristãs de nossa sociedade

Um tema quente da discussão que varre a União Européia diz respeito exatamente ao reconhecimento, ou não, das raízes cristãs da Europa. Um projeto de constituição que ignorava essas raízes cristãs chegou a ser elaborado, porém não foi aprovado. Remanejado e substituído pelo Tratado de Lisboa, conserva as diretrizes gerais do projeto anterior, mas tampouco conseguiu a ratificação unânime necessária para entrar em vigor. O embate continua, a cúpula da UE tentando por todos os modos e artimanhas fazê-lo passar.

No Tratado de Lisboa se vê bem como a laicidade dos Estados — apresentando-os como neutros em matéria de religião — encobre na realidade uma grande fraude. Pois impõe aos países membros alguns dispositivos que violam gravemente pontos da doutrina católica, como a legalização do aborto, por exemplo. Daí a rejeição vigorosa que sofreu na Irlanda, onde teve de ser submetido a plebiscito. Foi ratificado em outras nações (ainda não em todas) pelos respectivos parlamentos, mais dóceis às ordens da cúpula política.

Que neutralidade laica é essa, em que se quer impor, à sorrelfa, uma moral oposta aos princípios católicos?

Estado laico não é, portanto, sinônimo de neutralidade religiosa. Na verdade, é um eufemismo para significar Estado anticristão. Os fatos são eloqüentes a esse respeito.

E aqui chegamos ao fundo do problema: Estado laico é um estado ateu ou agnóstico, que pretende impor aos demais cidadãos seus princípios ateus e agnósticos. Trata-se, portanto, de uma ideologia (atéia, agnóstica) que quer se sobrepor a uma ideologia religiosa.

Ateu: é mesmo um livre-pensador?

É curiosamente incoerente a mentalidade do ateu. Ele acusa os católicos de estarem atados por dogmas religiosos, e conseqüentemente não podem impor aos demais os princípios morais que deduzem de sua religião. O ateu, um livre-pensador, não se considera vinculado por nenhum dogma, pois guia-se exclusivamente pelas luzes da razão. Livre de qualquer preconceito religioso, a razão chegaria a conclusões certas, válidas para todos. Assim, iluminado pela razão infalível, ele pode e deve impor essas conclusões aos outros. Ao contrário do católico, cuja mente é condicionada por dogmas apriorísticos que obnubilam a razão...

Como pondera muito bem o Pe. David Francisquini em seu excelente Catecismo contra o aborto, recentemente publicado, o Estado laico está longe de ser isento de qualquer ideologia:

“O Estado neutro ou leigo não professa uma religião, mas professa uma ideologia que postula uma vida social e pública desvinculada do fator religioso. É um tipo de confessionalidade ideológica: agnóstica ou laicista. Equivaleria a dizer: ‘Como você tem uma convicção religiosa, não pode impô-la a mim. Mas eu, que sou agnóstico ou ateu, posso impor a minha a você. Nós divergimos, mas quem tem razão sou eu, que tenho a mente livre e não atada por dogmas religiosos’. Trata-se de um estranho Estado de Direito, dito democrático e pluralista, no qual somente os ateus e agnósticos têm o direito de falar e modelar as leis segundo seus princípios” (op. cit., p. 35).

O ateu não deseja ser lembrado da existência de Deus por quem o rodeia. Daí seu empenho em eliminar de sua vista qualquer símbolo religioso, sobretudo um símbolo religioso católico. Este o ponto de partida das medidas citadas pelo missivista.

Obrigação de prestar culto público a Deus

A continuar nessa marcha, mais dia menos dia chegaremos de fato à hipótese estapafúrdia da demolição do Cristo Redentor do Corcovado!
Deus criou o homem livre, e não o obriga a crer n’Ele. Ele quer ser aceito livremente pelo homem. Este pode, portanto, rejeitar a Deus. Mas, fazendo-o, age contra a sua razão, que leva-o a reconhecer os sinais da existência de Deus por todos os lados para os quais volte a sua vista, por pouco instruído que seja. Assim, não é sem um grande pecado que ele rejeita a existência de Deus (é o caso do ateu), ou quando simplesmente diz: “Não sei se Ele existe” (é o caso do agnóstico).

Um homem de consciência reta não pode deixar de reconhecer facilmente a existência de Deus, pelos infinitos sinais que Ele pôs no universo. São Paulo aplica a expressão “inexcusabili sunt” (Rom 2, 1), para pessoas que hoje se identificariam como ateus e agnósticos.

Assim como os homens individualmente são inescusáveis ao negar a existência de Deus, a sociedade por eles formada também deve reconhecer a existência do Ser absolutamente perfeito e infinitamente poderoso, que tudo criou e a todos convoca para uma vida eternamente feliz no Céu.

A conseqüência desta verdade é que, assim como cada homem tem obrigação de prestar individualmente culto a Deus, a coletividade dos homens deve prestar culto público a Deus.

De fato, a História nos mostra que a generalidade das sociedades formadas pelos homens sempre prestou culto a um Deus, embora muitas vezes eivado de idéias erradas a respeito da natureza desse Deus que cultuavam. Foi preciso chegarmos aos Tempos Modernos para que a laicidade tomasse conta dos Estados e quisesse varrer da vida pública os sinais da presença de Deus. Daí os fatos a que estamos assistindo, que colidem com essa obrigação de toda sociedade reconhecer a existência de Deus e prestar-Lhe o devido culto público.

É em nome destas verdades que os católicos devem rejeitar esses intentos de ateização da vida pública para a abolição dos símbolos religiosos dos “locais de ampla visibilidade e de atendimento ao público”, como decidido pela autoridade judicial.

Preservação da cultura católica no Brasil

Hoje tanto se fala da preservação da cultura dos povos aborígines, e ai daquele que ousar fazer a menor crítica à extrema indigência dessas culturas. Apesar dessa conhecida indigência, é legítimo e importante que se trate de preservar tudo que nelas houver de remanescente de uma cultura autêntica. Se a cultura dos indígenas deve ser preservada, não temos também o dever de preservar nossa cultura de cristãos civilizados? É claro que o mesmo princípio vale também, e maximamente, para a cultura católica que nossos ancestrais implantaram no Brasil. A iconoclastia laica quer varrer os símbolos religiosos que nossa cultura introduziu por toda parte, tanto na esfera particular quanto na esfera pública. Trata-se de uma demolição da cultura ancestral brasileira, contra a qual temos o direito e o dever de resistir.

A continuar nessa marcha, mais dia menos dia chegaremos de fato à hipótese estapafúrdia, aventada no início deste artigo, da demolição do Cristo Redentor do Corcovado!

Que Nossa Senhora Aparecida, coroada solenemente Rainha do Brasil, não permita tal desfiguração de nossa Pátria!

 

Catolicismo felicitou muito especialmente o Revmo. Mons. José Luiz Marinho Villac na passagem de seu octogésimo aniversário, comemorado no dia 26 de julho p.p., com a presença de numerosos amigos e beneficiados espirituais. Rogamos aos leitores orações por esse nosso eminente colaborador, que de modo tão competente ocupa mensalmente estas páginas, respondendo às mais variadas perguntas dos leitores. Saliente-se de passagem que suas substanciosas e sábias respostas correspondem às páginas mais apreciadas de nossa revista.

 

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão