Outubro de 2007
Exercícios espirituais: onde obter mais conhecimento sobre esses exercícios
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A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Fazendo uma pesquisa na Internet sobre pecados de pensamento, descobri um artigo assinado pelo senhor, falando da gravidade desses pecados, que teriam o mesmo efeito dos que viessem a se transformar em atos, contanto que houvesse perfeita advertência do entendimento e pleno consentimento da vontade [no pensamento mau]. Para evitar tais pecados, o senhor falou, entre outras coisas, de exercícios espirituais. Gostaria de saber onde posso obter mais conhecimento sobre esses exercícios, e se o senhor poderia me adiantar alguns para que eu já pudesse praticá-los em minha vida e na luta contra o pecado.

Resposta Nada pode ser mais agradável ao coração de um sacerdote do que um consulente que manifesta a firme resolução de pôr em prática os exercícios espirituais recomendados pela Santa Madre Igreja para lutar contra o pecado. Assim, é com gosto que respondo a essa pergunta.

Na referida matéria, publicada nesta coluna em janeiro de 2006, foram mencionados alguns atos da vida espiritual de um católico, tais como a devoção a Nossa Senhora, a fuga das ocasiões de pecado, a recepção dos Sacramentos, etc. Mas o consulente deseja saber mais especificamente sobre o que sejam os “exercícios espirituais” e como praticá-los.

Assim como se fala em exercícios físicos, tão recomendados pelos médicos para a saúde do corpo, analogamente existem também os exercícios espirituais para a saúde e progresso da alma. Queremos falar aqui apenas de dois deles, muito recomendados pelos bons autores até algum tempo atrás, e hoje bastante esquecidos e pouco mencionados nos sermões dominicais e até nas reuniões de associações religiosas católicas. Trata-se da meditação e da leitura espiritual. Comecemos por esta última.

Vidas de santos e livros de leitura espiritual

São Domingos meditando – Fra Angélico, séc. XV. Museu de São Marcos, Florença, Itália

Não é preciso ler toda a Bíblia para depois passar a outros livros de leitura espiritual. Muito recomendável é, desde logo, ler as vidas de santos, cujos exemplos nos incitam a imitá-los, na medida da inspiração da graça, ou seja, da atuação do Divino Espírito Santo na alma. Foi assim que Santo Inácio resolveu abandonar seus sonhos de feitos gloriosos na guerra e consagrar-se inteiramente ao serviço de Deus. Foi também lendo a vida dos santos que Santo Agostinho se animou a empreender o caminho da santidade: “Se estes e estas puderam, por que não eu?”.

Não obstante todo o prestígio de que gozou antigamente, a Imitação de Cristo tem uma lacuna — a bem dizer, incompreensível — que é a sua quase completa omissão de Nossa Senhora, citada apenas de passagem. Mas o leitor da Imitação de Cristo pode preencher esta lacuna com dois livros importantíssimos: o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort, e Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório. Nestes dois livros encontrará uma síntese maravilhosa do que há de melhor sobre a devoção a Nossa Senhora, como meio indispensável à nossa salvação e santificação.

Devemos ter uma devoção genérica aos santos, mas tal devoção não nos obriga a ser especialmente devotos deste ou daquele santo em particular. Seremos mais devotos de um ou outro deles, segundo nossas legítimas inclinações pessoais, nossas necessidades de momento, a história de nossa vida etc. Mas a devoção à Santíssima Virgem Maria, por uma admirabilíssima disposição divina, é necessária para todos, como Medianeira Universal de todas as graças.

Também muito proveitosos são os livros que narram as grandes aparições mariais dos séculos XIX e XX, principalmente da Medalha Milagrosa (1830), La Salette (1846), Lourdes (1858) e Fátima (1917).

Naturalmente, estamos dando apenas uma lista exemplificativa. Tenha-se presente que as obras escritas por santos gozam de uma autoridade especial e merecem desde logo a nossa preferência, pela garantia de sua ortodoxia.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, varão de insigne virtude, costumava dizer que o melhor modo de conhecer a Nosso Senhor Jesus Cristo é vê-lo refletido na vida dos santos.

A Bíblia como leitura espiritual

Como os protestantes costumam criticar os católicos por não lerem a Bíblia, organizaram-se em certos meios eclesiásticos e leigos, sobretudo "progressistas", campanhas para colocar indiscriminadamente o texto sagrado nas mãos dos fiéis, sob o slogan Leia a Bíblia! Como se — máxime nesta época de ignorância religiosa generalizada — todos os fiéis estivessem em condições de entender a Sagrada Escritura e tirar dela proveito para a sua formação e progresso espiritual. Nisso houve um otimismo pouco realista, além de um enfrentamento pouco esclarecido e pusilânime com os protestantes, que não deixaram de cantar vitória: “Vejam como tínhamos razão [em nossas críticas]”!

A Santa Igreja sempre foi muito mais prudente nesta matéria. A recomendação que prevalecia era começar pelos Santos Evangelhos, em seguida os Atos dos Apóstolos, muito mais fáceis de entender e proveitosos para a vida espiritual dos fiéis. É também o meu conselho para o consulente e os leitores de minha coluna em geral.

Numa segunda etapa podem-se ler as Epístolas dos Apóstolos, deixando para mais tarde a leitura do Apocalipse, cuja compreensão é mais complexa e exige o acompanhamento de uma boa interpretação (aliás, é um livro divinamente misterioso, cuja revelação vem desafiando até hoje os maiores Doutores da Igreja, que dizer dos simples fiéis!).

Lido assim o Novo Testamento, pode-se passar para o Antigo Testamento, começando pelos chamados livros sapienciais, isto é, segundo a enumeração do Concílio de Trento, o livro de , os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, o Livro da Sabedoria e o Eclesiástico.

Ficam para outra etapa o Pentateuco (o Gênese, etc., ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento), os livros históricos, os didáticos e os livros proféticos.

Além do proveito espiritual, a leitura da Sagrada Escritura é indulgenciada, isto é, quem o fizer com a veneração devida à palavra divina e a modo de leitura espiritual (portanto, não como um simples estudo), ganha uma indulgência parcial, que se transforma em plenária (uma vez ao dia), se se estender ao menos por meia hora. Constituiria gravíssima lacuna se omitíssemos que o Autor Primário de toda a Sagrada Escritura é o próprio Divino Espírito Santo, e que os hagiógrafos são autores meramente secundários, revelando o que lhes é inspirado.

Os exercícios espirituais de Santo Inácio

Santo Inácio...

Falando, porém, de exercícios espirituais, um nome não pode absolutamente ser omitido: Santo Inácio de Loyola, cujo livro inspirado serve de base para os famosos “Retiros espirituais”. É verdade que, com a crise progressista que afeta extensos ambientes católicos, muitos retiros espirituais seguem hoje uma linha bem diferente. Razão a mais para desejarmos um retorno à autêntica espiritualidade de Santo Inácio de Loyola.

Convém, entretanto, esclarecer que o livro escrito por Santo Inácio é um manual sintético para uso dos pregadores, supondo pois um desdobramento feito pelos mesmos pregadores. Alguns destes publicaram excelentes livros com suas explanações e/ou comentários. É muito de se recear, porém, que eles não sejam hoje facilmente encontráveis nas editoras e livrarias católicas, devido à crise progressista já mencionada. Um desses comentários, famoso e elogiável, é o do Pe. João Pedro Pinamonti, SJ.



...e seus Exercícios Espirituais

E com Santo Inácio de Loyola chegamos propriamente ao segundo tema que nos propúnhamos tratar, isto é, as meditações. Pois são estas que compõem o núcleo principal dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.

Como para uma explanação cabal falta-nos espaço, dizemos aqui apenas uma palavra: uma leitura espiritual bem feita tende naturalmente para uma meditação, e mesmo para o fruto natural desta, que é a contemplação dos mistérios divinos.

Assim como Arquimedes dizia “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio, e eu levantarei o mundo”, Santa Teresa de Jesus voa muito mais alto ao dizer: “Dai-me uma alma que faça um quarto de hora de meditação todos os dias, e Deus dela fará um santo”.

Sobre isso trataremos, se Deus quiser, no próximo mês.

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