Ai do rebanho sem pastor, ai do povo sem guia! Rafael Menezes A caravana de propagandistas da TFP, da qual participo, fazia campanha no centro da cidade de Serrinha, no sertão baiano. A curta distância, um caatingueiro típico, todo vestido de couro, segurando pelas rédeas seu cavalo, observava pensativo a movimentação, os cânticos, as músicas, os brados, o esvoaçar dos estandartes e a louçania dos jovens caravanistas. O homem era um verdadeiro "couraçado": suas botas eram de couro, com polainas altas, calça e jaqueta de couro, chapéu de couro, segurando luvas de couro. Também seu cavalo era revestido de couro. Assim são os vaqueiros da caatinga, onde o trançado dos espinheiros exige tais "couraças", sob pena de não se vaquejar sem ficar dilacerado. A certa altura, ao ser abordado por um caravanista, o "couraçado" deixou transbordar suas reflexões: "Sou vaqueiro, como o senhor vê! Não fique vexado comigo se eu lhe disser que temos a mesma profissão! Só que eu sou guia de gado e os senhores são guias de gente. Às vezes fico observando o gado. "Quando estou presente ele pasta tranqüilo, despreocupado, sem agitação. Quando eu dou sinal de partida e canto minha canção de boiadeiro, todo o rebanho se põe em movimento, na direção que eu indico. Apenas um ou outro animal mais indisciplinado tenho que pôr no caminho certo, com a vara ou o ferrão. Mas é só eu me ausentar que o rebanho se agita, dispersa-se pela caatinga, invade as propriedades alheias; alguns mais fracos são apanhados pelas onças, outros caem nas grotas ou são levados por qualquer aventureiro. "Enquanto via a movimentação dos senhores, eu estava fazendo a comparação entre o gado e o povo. E pensei: é por isto que nós somos comparados a um rebanho, e Cristo é chamado 'O Bom Pastor', ai do gado sem vaqueiro, ai do povo sem guia! Vosmecê não vai ficar vexado comigo, mas temos a mesma profissão: vosmecês são guias do povo, como eu sou vaqueiro do gado. O Bom Jesus seja louvado! "Eu já começava a pensar que Deus tivesse abandonado cada um à sua própria sorte. Mas agora, vendo esse trabalho bonito dos senhores, e matutando sobre o significado dele, entendi que o Bom Jesus é mesmo o Bom Pastor e nunca nos abandona; nós é que muitas vezes abandonamos a Ele". Na tromba do elefante Embrenhando sertão adentro, nossa caravana foi até o Rio Grande do Norte. Quem tiver a curiosidade de olhar um mapa notará que este Estado tem, pitorescamente, a forma de um elefante, cuja tromba nos atraiu especialmente a atenção. Pois aí a velha modernidade não produziu suas devastações. Era freqüente encontrarmos os valentes boiadeiros da caatinga, metidos em suas "armaduras" de couro, chapéus lembrando capacetes: em suas tradicionais montarias arqueadas mas robustas; com fisionomias sérias e sofridas pelo rude oficio, bigode ralo e olhar profundo, inseparáveis de suas peixeiras e carabinas. Era impressionante considerar a seriedade com que aquela gente ouvia nossas explicações sobre o perigo do comunismo que não morreu e o desfazimento moral do mundo. Tivemos aí o contato mais vivo com aquele misticismo que evola do sofrimento, da vida dura do autêntico sertanejo, e que faz com que ele sinta à distância, por uma espécie de faro, aquilo que provém do Deus único e verdadeiro. Sem compreender, racionalmente, todo o emaranhado dos problemas atuais, o sertanejo distingue, com impressionante perspicácia, o bem do mal, a verdade do erro e admira o belo. Seu "faro" chega até a distinguir a "piedade falsa da sincera". Para ele os chamados "católicos de esquerda" são agentes do diabo. O sertanejo e o professor polonês A fina observação do caatingueiro faz jus ao elogio do brasileiro que ouvi de um jovem e culto polonês, professor universitário em São Paulo: "Trabalhei numa empresa multinacional de alumínio e visitei muitos países. Dos muitos povos que conheci, o brasileiro é o que tem o mais alto coeficiente de inteligência. Repito: o povo brasileiro é muito inteligente, pena é que não seja igualmente diligente!" |