Novembro de 2000
Patriarca José - Governador do Egito, exemplo de perdão
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Grandes Personagens

Patriarca José,  Governador do Egito, exemplo de perdão

Prefigura de Nosso Senhor Jesus Cristo, esse admirável personagem do Antigo Testamento foi, como o Divino Redentor, traído, vilipendiado e vendido, tendo retribuído a seus perseguidores o bem pelo mal que estes lhe infligiram

  • José Maria dos Santos

José, que, sendo hebreu, foi Governador do Egito, possuía as virtudes que tornam o homem especialmente agradável às pessoas de coração reto: era bom, casto, humilde e generoso. Por amor de Deus, esquecia as ofensas e mesmo as injustiças cometidas contra si, sempre disposto a fazer o bem. Nem por isso deixou de ser odiado e maltratado por seus próprios irmãos, num claro ensinamento de que, nesta Terra, o bem é freqüentemente perseguido.

Naquele tempo em que a poligamia ainda era tolerada no Antigo Testamento, o Patriarca Jacó tinha tido vários filhos com suas mulheres, mas nenhum com a preferida, Raquel, que era estéril. Ambos rezaram muito ao Senhor pedindo que ela gerasse um filho. Isto sucedeu quando Jacó (ou Israel, nome que recebeu depois que, por desígnio de Deus, lutou contra um Anjo) já atingira os 90 anos. Por ser o filho de sua velhice e da esposa mais querida, Jacó amava José mais do que qualquer outro de seus filhos, incluindo o caçula, Benjamim, também filho de Raquel, a qual morrera ao nascimento deste último.

Jacó já estava idoso e não dissimulava essa predileção, que vinha também do fato de José ser o mais virtuoso e o mais amável dos membros de sua prole. Essa notória preferência do pai provocou a inveja dos outros filhos, sobretudo quando ele mandou confeccionar para José uma túnica de várias cores, o que fez extravasar o ódio dos irmãos contra o preferido.

Passaram a maltratá-lo e a injuriá-lo com palavras fortes. Mas José pouca importância dava a isso. Pelo contrário, sem querer, aumentava a  indisposição dos irmãos contando-lhes sonhos nada lisonjeiros para eles. José fora favorecido por Deus, desde muito cedo, com sonhos proféticos.

 Certo dia, por exemplo, contou um deles aos irmãos: “Parecia-me que atávamos no campo os feixes, e que o meu feixe como que se erguia, estava direito, e que os vossos feixes, estando em roda, se prostravam diante do meu feixe” (Gen. 37, 7). Tendo narrado outro sonho semelhante, o pai o repreendeu por aquilo que julgava pretensão.

José é lançado na cisterna - Bartolo di Fredi
Os irmãos, entretanto, o olhavam de soslaio, premeditando vingança. Ora, um dia em que eles haviam conduzido seus rebanhos a Siquém, Jacó enviou José para ter deles notícias. “Eles, porém, tendo-o visto de longe, antes que se aproximasse, resolveram matá-lo” (id., ib. 18). Rubens, o mais velho, querendo salvá-lo, propôs que, em vez de mancharem as mãos com o sangue do próprio irmão, o lançassem em uma cisterna seca que havia por ali. Pensava em resgatá-lo depois e o reapresentar a seu pai.

Assim que José se aproximou, caíram sobre ele, tiraram-lhe a túnica que tanta inveja lhes tinha causado, e o desceram à cisterna. Depois do ato criminoso, enquanto comiam, viram passar uma caravana dirigindo-se ao Egito. Judá, que também queria salvar o irmão, propôs que, em vez de deixar o rapaz na cisterna, o vendessem aos negociantes, para que o levassem ao Egito. “E venderam-no por vinte dinheiros de prata” (id. ib., 28). Mancharam depois a túnica de José  com o sangue de um cabrito e a apresentaram ao pai, dizendo que bestas selvagens o tinham devorado. Ao ouvir o fato, Jacó rasgou as vestes, cobriu-se com cilícios e chorou seu filho por muito tempo, não querendo nenhuma consolação.

Provações e prosperidades de José no Egito

Entretanto, no Egito, José foi vendido a Putifar, general dos exércitos do Faraó. “E o Senhor era com ele, e tudo o que fazia lhe sucedia prosperamente; e habitava em casa do seu senhor, o qual conhecia muito bem que o Senhor era com ele, e prosperava em suas mãos tudo o que fazia” (id., 39 2,3). Tal foi  a confiança que Putifar pôs em José, que ele “não tinha outro cuidado que pôr-se à mesa e comer” (id., ib., 6).

Acontece que José, além de todas as suas qualidades, “era de rosto formoso e aspecto gentil” (id. ib.), pelo que a mulher de Putifar concebeu por ele uma paixão criminosa que culminou com o convite para o  pecado. O casto José recuou horrorizado: como poderia trair a confiança de seu mestre, “cometer esta maldade, e pecar contra meu Deus?” E fugiu, passando a evitá-la.

Porém, certo dia ela o agarrou pelo manto, insistindo no pecado, e ele, para não ceder aos seus pérfidos desejos, fugiu, deixando-lhe o manto. A  paixão da adúltera transformou-se então em ódio. Para vingar-se de José, acusou-o perante o marido de querer violá-la, mostrando-lhe, como prova, o manto.

Entristecido, Putifar mandou José para a prisão. “O Senhor, porém, foi com José e, compadecido dele, fê-lo encontrar graça diante do governador da prisão... que lhe confiou tudo; porque o Senhor era com ele, e fazia prosperar todas as suas obras” (id. ib. 21 a  23).

Ora, encontravam-se detidos na prisão o copeiro-mor e o padeiro do Faraó. Certa noite, cada um teve um enigmático sonho, que os deixou perplexos. “Por que tendes um ar sombrio?”, perguntou José quando os viu na manhã seguinte. Explicaram a razão. “Porventura não pertence a Deus a interpretação dos sonhos?”, replicou José. E ao ouvir a narrativa dos sonhos, os interpretou: ao padeiro predisse que seria enforcado em três dias, e ao copeiro que seria restituído ao seu antigo posto. E isso se deu ao pé da letra.

José, poderoso governador do Egito

José manda alcançar seus irmãos - Fra Angélico, Museu de São Marcos, Florença
Algum tempo mais tarde, o Faraó teve também um sonho estranho: viu surgirem do Nilo sete vacas gordas, formosas, que pastavam tranqüilamente. De repente saíram do rio sete vacas esqueléticas que devoraram as vacas gordas. O Faraó acordou sobressaltado; mas dormindo novamente, teve outro sonho semelhante, desta vez com espigas de milho.

Todos os adivinhos do reino foram chamados para tentar interpretar o sonho do Faraó, mas nenhum o conseguiu. Foi então que o copeiro-mor, de quem José tinha interpretado o sonho, lembrou-se do jovem prisioneiro e o recomendou ao Faraó como capaz de interpretar o enigma.

José foi chamado: “O sonho do rei reduz-se a um só: Deus mostrou ao Faraó o que está para fazer”, disse. E explicou que as sete vacas gordas e as sete espigas formosas representavam sete anos de fartura, aos quais seguir-se-iam sete anos de miséria, simbolizados pelas vacas e espigas que devoravam as anteriores. Por isso recomendava ao Faraó que escolhesse "um homem sábio e ativo” a quem desse toda a autoridade sobre o país, que recolhesse e estocasse nos anos de fartura o que iria faltar nos de carência.

O Faraó perguntou aos seus ministros: “Poderemos nós encontrar um homem como este, que esteja cheio do espírito de Deus?” (id. 41, 38). E deu a José tão grande autoridade para isso, como governador, que só estava acima dele o próprio Faraó.

Nos sete anos de abundância, José fez estocar em celeiros, em cada cidade do Egito, todo o excedente da produção agrícola. E nesse ínterim casou-se com a filha de um outro Putifar, sacerdote de On, com a qual teve dois filhos, a quem deu os nomes de Manassés e de Efraim.

Chegaram os anos de miséria. A todos que pediam socorro ao Faraó, dizia ele que se dirigissem a José. E este a todos socorria.

No reencontro com os irmãos, José não é reconhecido

A carestia atingiu também Canaã, onde moravam o pai e os irmãos de José, com grande rigor. Jacó, ouvindo dizer que no Egito se vendia o que comer, pediu a seus 10 filhos que lá fossem comprar mantimentos, ficando com ele apenas o caçula, Benjamim.

Dirigiram-se os irmãos ao governador do Egito, sem reconhecerem que ele era José. Este tratou-os de início com fingida aspereza, como a espias. Atemorizados, responderam que eram apenas doze filhos do mesmo pai, que o caçula tinha ficado com ele e que o outro já não existia.

José mandou lançá-los na prisão por três dias. No quarto dia, chamou-os e lhes disse que, para provar se diziam a verdade, reteria um deles como refém, e que os outros retornassem a Canaã com o trigo comprado e trouxessem o irmão mais moço. Só assim libertaria o detido.

Os irmãos comentaram entre si que isso era um justo castigo por terem pecado contra José, sem saber que este, que falara com eles por meio de um intérprete, os entendia em sua língua. Comovido até as entranhas, José retirou-se para que não vissem as lágrimas que lhe corriam pela face. Depois mandou que prendessem Simeão, e que enchessem as sacas de trigo de cada um dos outros. E ademais, mandou pôr nelas de volta o dinheiro que haviam pago.

Chegando em casa, contaram ao pai o sucedido. Jacó entristeceu-se muito, porque dos dois filhos de Raquel - dizia - José já não existe. E agora não queria ficar sem o outro. Mas Rubens prometeu que o traria de volta.

Passado algum tempo, a fome retornou e Jacó mandou aos filhos que voltassem ao Egito para comprar mantimentos, concordando desta vez em que levassem Benjamim ao governador: “E o meu Deus onipotente vo-lo torne propício, e remeta convosco o vosso irmão que retém preso, e este Benjamim; eu serei como um homem que fica privado de filhos” (id., 43, 14).

José identifica-se e protege sua família

José encontra seu pai Jacó - Nicola Carcher, Florença
Quando José viu que traziam Benjamim, mandou preparar um banquete para seus irmãos. Estes, ao serem chamados à casa do governador, ficaram amedrontados, julgando que seriam condenados como ladrões pelo dinheiro que lhes tinha sido colocado de volta nas sacas de trigo. E um deles, logo ao entrar José, começou a explicar-lhe o ocorrido e sua inocência.

José, ao ver Benjamim, comoveu-se até as lágrimas e teve que retirar-se algum tempo. Voltando, convidou todos a cearem, favorecendo a Benjamim, durante o banquete, com os melhores bocados.

Depois mandou que lhes enchessem as sacas, e na do mais novo pusessem, além do dinheiro, uma taça de prata.

Quando os irmãos já se punham a caminho, um oficial veio atrás deles. Tendo encontrado a taça com Benjamim, levou-o preso. Entretanto Judá, que se tinha responsabilizado pelo menino diante do pai, intercedeu por ele junto a José, propondo ficar como escravo em seu lugar, explicando a dor que isso causaria a seu pai.

Nesse momento José não pôde mais conter-se. Mandou que saíssem os circunstantes e, só com seus irmãos, deu-se a conhecer. Mais. Disse-lhes que não temessem por tê-lo vendido aos egípcios, pois isso fora desígnio de Deus para que depois pudesse socorrê-los nos tempos de miséria. Que voltassem, contassem tudo a seu pai, e o convidassem a vir  morar no Egito.

Pode-se imaginar a alegria de Jacó com essas novas! Propôs-se então a ir para o Egito para rever o filho querido antes de morrer. Partiu assim, levando tudo o que possuía. No caminho Deus se lhe manifestou, reatando a aliança com ele.

Chegando ao Egito, Jacó mandou avisar José para que fosse ao seu encontro. Quando o viu, lançou-se-lhe ao pescoço, dizendo como o velho Simeão diria séculos depois à vista do Divino Infante: “Agora morrerei contente, porque vi a tua face, e te deixo depois de mim” (id. 46, 30).

José apresentou seu pai e irmãos ao Faraó, que, por amor a José, lhes deu para habitar a terra de Gessém. José sustentava sua família dando-lhe tudo o que necessitava.

Últimos dias abençoados de Jacó e José

Encontro de José com sua família - Fundo Landau Finaly, Biblioteca Nacional, Florença
Jacó viveu ainda 17 anos nas terras do Egito antes de entregar seu espírito ao Criador. Quando viu chegada sua última hora, adotou, como sendo seus, os filhos de José, Manassés e Efraim, e lhes deu uma bênção especial. Concedeu depois bênçãos específicas para cada um dos seus doze filhos, dos quais saíram as doze tribos de Israel. Conforme seu pedido, foi sepultado em Canaã, no túmulo de seu pai Isaac.

José, por sua vez, viveu mais de cem anos e viu os filhos de seus filhos até a terceira geração, antes de entregar sua alma a Deus. Mais tarde, conforme fora seu desejo, Moisés transportou seus restos do Egito durante o êxodo, sendo ele enterrado perto de Siquém.

Desse homem misericordioso, diz o Livro do Eclesiástico (49, 16-18): “Ninguém nasceu na terra.... como José, que nasceu para ser o príncipe de seus irmãos, o esteio da nação, o guia dos seus irmãos, o firme arrimo do povo. Seus ossos foram visitados, e depois da sua morte profetizaram”.

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Nota

Além das Sagradas Escrituras, foram consultadas para este artigo as seguintes obras:

L.C.L. Fillion, La Sainte Bible, commentée d’après la Vulgate, Paris, Letouzey et Ané, Éditeurs, 1899, tomo I, pp. 118 e ss.

Dom Augustin Calmet, Dictionnaire Historique, archéologique, philologique, chronologique, géographique et littéral de la Bible, Aux Ateliers Catholiques du Petit-Montrouge, Paris, 1846, tomo II, pp. 1102 e ss.

Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, pp. 184 e ss.

John L. McKenzie, S.J., Dicionário Bíblico, Paulus, São Paulo, 1984, pp. 506 e ss.

 

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