Novembro de 1998
O Segredo de Jacinta, a vidente de Fátima
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O Segredo de Jacinta, a admirável vidente de Fátima


Atílio Faoro
Correspondente
Alemanha

Jacinta era uma criança quando Nossa Senhora apareceu. Entra na História aos sete anos, precisamente na idade que habitualmente se costuma indicar como a do começo da vida consciente e da razão. Em que medida uma criatura dessa idade é capaz de praticar a virtude? E de praticá-la de modo heróico?

A história da espiritualidade católica tem exemplos surpreendentes de santidade a pouca idade: Santa Maria Goretti, martirizada aos 11 anos com plena consciência do que fazia; São Domingos Sávio, que morreu aos 15 anos.

Jacinta – e seu irmão Francisco – depois de um rigoroso processo em Roma, tiveram reconhecidas suas virtudes heróicas, podendo ser venerados privadamente como santos. Qual o segredo da santidade de Jacinta? O tema vem ocupando atualmente a atenção dos católicos e merece ser conhecido por nossos leitores.

* * *


Frankfurt Jamais se vira, naquele lugar, uma coisa igual: 70 mil pessoas, vindas de todas as partes de Portugal, estão reunidas, sob a chuva, no local que se chama Cova da Iria. O que aconteceu?

Estamos no dia 13 de outubro de 1917. A duras penas, os três pastorinhos tentam varar a multidão rumo a suas pequenas casas em Aljustrel. A menor das crianças - nossa Jacinta - é conduzida através de atalhos por um soldado, que a protege das manifestações de entusiasmo de pessoas que desejam vê-la e dirigir-lhe a palavra. Milhares de perguntas, pedidos de oração e intercessões. Conversões, lágrimas de alegria...

As crianças – Lúcia, Francisco e Jacinta - não prestam atenção na multidão reunida, a qual presenciara o milagre do sol ao final da última aparição. Suas mentes estão tomadas pela sublimidade e pelo esplendor do extraordinário fato sobrenatural que há pouco acabam de contemplar. A Senhora do Céu, com quem haviam falado seis vezes, acabava de realizar o milagre prometido...

Desapego quanto a louvores dos homens

Jacinta Marto, com apenas sete anos de idade, é dotada de seriedade marcante. A fronte franzida indica profunda preocupação. Os olhos, que ainda refletem maravilhosamente o brilho do que haviam contemplado, estão contraídos mas calmos, indicando uma alma inclinada ao recolhimento.

O que dizer desta fisionomia? Talvez Jacinta se esteja lembrando dos penosos caminhos percorridos anteriormente em meio ao desprezo, aos impropérios e até aos golpes daqueles que agora estão no meio da multidão. Não, a alegria do momento não a impressiona, ela conhece bem a inconstância do espírito humano. Sua vontade está posta em Deus, no cumprimento de Sua vontade, de tal modo que, depois das aparições, levou verdadeiramente a vida de uma grande santa. A Congregação para a Causa dos Santos constatou: sua vontade era inteiramente submissa à de Deus. Como seria útil, principalmente para os nossos dias, conhecer a vida desta criança.

A caminho da santidade

No espaço de tempo que vai dos sete aos dez anos, em que suportou heroicamente o fardo da doença que a levaria à morte, Jacinta trilhou o caminho da santidade. Já nessa tão precoce idade conheceu profundamente a realidade da vida. Sua existência foi curta, porém repleta de acontecimentos extraordinários e até mesmo fascinantes. A descrição deles extrapolaria os limites deste artigo. Temos que nos cingir aos traços marcantes de sua alma, a algumas cenas de sua vida e mencionar alguns testemunhos.

O caminho da santidade, a que já nos referimos, esta menina o percorreu de tal maneira que seus pais e parentes chegaram a exclamar a respeito dela e dos outros dois videntes: “É um mistério que não dá para compreender. São crianças como outras quaisquer. No entanto, percebe-se nelas qualquer coisa de extraordinário!” Sim, o que havia de extraordinário nessas crianças que as pessoas (até hoje!) não conseguem entender?

Quem foi Jacinta Marto? Última de uma grande prole, nasceu em 11 de março de 1910. De natureza meiga, era uma criança como as outras. Brincava, cantava, tinha seus defeitos maiores ou menores, o seu temperamento e, naturalmente, suas preferências... até 13 de maio de 1917.

Oração e sacrifícios resgatam pecadores

Depois desse dia, empreendeu Jacinta uma mudança interior profunda, uma conversão de sua vida como Nossa Senhora tinha pedido. As palavras de Maria Santíssima impregnaram de modo indelével sua alma e passaram a ser o conteúdo, o ideal de sua vida. Mais ainda, colocou esse ideal em prática.

“Fazei penitência pelos pecadores! Muitos vão para o inferno porque ninguém reza e se sacrifica por eles.” - Tais palavras encontraram profunda ressonância em Jacinta. E com que inquebrantável vontade fazia ela penitência! Aqui vão mencionados alguns exemplos desta jovem e já grande santa. Ela não hesitava em freqüentemente jejuar um dia inteiro, sem nada comer ou beber, dando alegremente seu pão às crianças pobres. Em outros dias, comia justamente aquilo que mais detestava. Trazia como penitência uma corda em torno da cintura. Nada, nenhum sacrifício lhe parecia demasiado grande, tratando-se da salvação das almas!

O pecado e o Céu em sua espiritualidade

De fato, pode-se dizer que a espiritualidade de Jacinta funda-se nos pedidos formulados por Nossa Senhora. Ela contém dois aspectos importantes: 1) claro conceito do pecado; 2) noção muito definida da beleza sobrenatural do Céu. Exatamente dois pontos em relação aos quais nossa época está imensamente distante.

Não se fala mais em pecado. Esta palavra está sendo omitida na catequese e banida do pensamento das pessoas. Juntamente com isso, vai sendo também eliminada necessariamente a idéia do próprio Deus! Pois, de que outra coisa se trata senão da honra divina que é ofendida pelo pecado?

Estreitamente relacionado com esse pensamento vem o segundo ponto: a noção clara da beleza sobrenatural do Céu. Quanto mais intensamente uma alma tem essa noção do sobrenatural celeste, tanto mais fácil será sua correspondência às solicitações da Mãe de Deus. Jacinta é um exemplo concreto arrebatador de tal correspondência. A mensagem de sua vida convida-nos a reconhecer esses aspectos da mensagem de Nossa Senhora e torná-los o eixo orientador de nossas vidas.

Enormes penitências salvaram muitas almas

Profundamente impressionada pela visão do inferno e pelo mistério da eternidade, Jacinta não poupou nenhum sacrifício visando a conversão dos pecadores. Em sua doença -- uma tuberculose que a levou à morte -- oferecia principalmente suas dores: “Sim, eu sofro, porém ofereço tudo pelos pecadores, para desagravar o Imaculado Coração de Maria. Ó Jesus, agora podeis salvar muitos pecadores porque este sacrifício é muito grande”.

Todos os que conheciam Jacinta sentiam certo respeito por ela. Lúcia, sua prima, escreve: “Jacinta era também aquela a quem, me parece, a Santíssima Virgem deu a maior plenitude de graças, conhecimento de Deus e da virtude. Ela parecia refletir em tudo a presença de Deus.”

Mesmo na sua dolorosa moléstia mostrava-se sempre paciente, sem reclamações, inteiramente despretensiosa. Conduta que não correspondia ao seu caráter natural. O que possibilitava a essa criança a prática de tal fortaleza e manifestar semelhante comportamento?

A própria Jacinta dá resposta a essa pergunta em sua exclamação: “Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora que nunca me canso de dizer que Os amo. Quando eu digo isso muitas vezes, parece-me que tenho um lume no peito, mas não me queima!” O amor ardente a Jesus e Maria! Este foi o amor que transformou Jacinta e que fez dela uma cópia fiel das virtudes da Virgem Santíssima.

Último sacrifício: na morte, isolamento

O Revmo. Pe. Luís Fischer, grande apóstolo de Fátima, examina o corpo de Jacinta durante sua primeira exumação, em 12-9-35. A face da vidente foi encontrada incorrupta

Tão heróica foi a morte quanto a vida de Jacinta, num hospital de Lisboa, inteiramente sozinha. Este fato foi objeto de uma das últimas previsões recebidas por Jacinta, diretamente de Nossa Senhora. Com que coragem conservou a menina este pensamento! Deixemo-la narrar esta profecia, por ela confiada a Lúcia:

“Nossa Senhora disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem aos meus pais; que depois de sofrer muito, morro sozinha; mas que não tenha medo, que me vai lá Ela me buscar para o Céu.”

Nossa Senhora anunciou também o dia e a hora em que deveria morrer. Quatro dias antes, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores. Como ninguém esteve presente nesse grandioso momento, podemos apenas imaginar a cena. Como terá sido a recepção deste pequeno lírio no Céu? Diante de Nossa Senhora, aquele rosto virginal não estará mais contraído pelo sofrimento, mas resplandecente em presença dAquele que foi o Fundamento de sua vida: “Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro do peito e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!”

De que maneira o conhecimento da vida de Jacinta atua sobre as almas, pode-se deduzir das palavras do postulador das Causas de Beatificação dela e de seu irmão Francisco: “Nunca na História da Igreja duas crianças foram tão conhecidas e estimadas quanto Francisco e Jacinta. Elas têm trazido inúmeras almas para o caminho da perfeição”.

Desejamos que a vida de Jacinta tenha no Brasil grande divulgação para a salvação das almas e o breve triunfo do Imaculado Coração de Maria!

Decreto da Santa Sé
declara as virtudes de Jacinta

A 13 de maio de 1989, um decreto da Congregação para a Causa dos Santos, assinado pelo Cardeal Angelo Felici, declarou a heroicidade das virtudes da Serva de Deus Jacinta Martos.

O documento, lembrando as palavras de Nosso Senhor “Se não fizerdes como um destes pequeninos não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3), afirma que Jacinta “correspondendo sem reservas à graça divina realizou rapidamente uma grande perfeição na imitação de Cristo e voluntariamente consumiu sua breve existência pela glória de Deus, cooperando na salvação das almas mediante fervorosa oração e assídua penitência”.

Depois de resumir sua vida, o decreto declara que “sua entrega à vontade de Deus foi total”, o esforço “para corresponder ao amor e às graças de Deus foi constante”, dando provas de “possuir em alto grau as virtudes teologais e as virtudes da prudência, justiça, temperança, humildade, sinceridade e modéstia”.

Na mesma data, a Santa Sé declarou as virtudes do Servo de Deus Francisco Marto, irmão de Jacinta.


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