Fevereiro de 1998
Em Minas, trabalhadores contra a Reforma Agrária
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Nacional

Em Minas, trabalhadores contra a Reforma Agrária

Plinio Vidigal Xavier da Silveira

Engenheiro Dolabela é uma pequena localidade situada ao norte de Minas Gerais, pertencente ao município de Bocaiuva, próximo de Montes Claros.

Ali ocorreu um fato que merece ser registrado com destaque na história do Brasil de hoje. É toda uma população pobre e trabalhadora que rejeita categoricamente a Reforma Agrária.

O problema fundamental passou-se em torno da Usina Malvina, que após uma administração desastrada, causa de seu endividamento, foi recentemente adquirida por um grupo paulista.

Os novos proprietários arrendaram a Usina à Indústria e Comércio Americana Ltda., que se comprometeu a pô-la em funcionamento, pagar imediatamente os salários atrasados dos operários e saldar as dívidas da empresa dentro de um prazo razoável. O que de fato começou a ser feito com êxito.

Convém esclarecer que a Malvina possui 19 mil hectares de terra e comporta 800 trabalhadores na lavoura de cana, além de 350 na própria Usina.

Reforma Agrária cai de pára-quedas

As coisas estavam nesse pé, quando o Prefeito de Bocaiuva começou a falar na necessidade de se fazer Reforma Agrária nas terras da Usina. Pouco depois o Governo estadual de Minas entrava com uma ação judicial, por meio da qual adjudicou (recebeu em propriedade) aquelas terras em compensação pelas dívidas da Usina. E passou a negociar com o INCRA para ceder-lhe as terras.

Não nos interessa aqui entrar no mérito da questão judicial. Os atuais arrendatários da Malvina garantem ter condições de saldar as dívidas, dentro de um prazo razoável, sem necessidade da adjudicação. Também não sabemos se a Usina continuará a funcionar nas novas condições, pois passará a depender da produção de cana dos futuros assentamentos que o INCRA pretende realizar.

Passeata e plebiscito contra a Reforma Agrária

O fato importante que desejamos salientar, é a posição que os trabalhadores de Engenheiro Dolabela tomaram no caso, contrários à Reforma Agrária e desejosos de continuarem como empregados da Usina.

Chegaram eles a fazer uma passeata contra a Reforma Agrária pelas ruas de Bocaiuva, com faixas e cartazes. Ademais, votaram contra a Reforma Agrária num plebiscito local realizado sobre o mesmo tema.

Enviados do "Informativo Rural", boletim editado pela TFP, percorreram as ruas de Engenheiro Dolabela perguntando a esmo, a este ou aquele, o que pensa da Reforma Agrária que o Governo está querendo fazer nas terras daquela localidade. Não encontraram praticamente pessoas favoráveis à Reforma Agrária. A população é maciçamente anti-agro-reformista. E com conhecimento de causa.

Deseja a população que as terras permaneçam com a Usina Malvina, a qual lhes proporciona empregos com garantias.

Depoimentos significativos

Falam alto, no sentido anti-agro-reformista, os dados e entrevistas que a equipe do "Informativo Rural" obteve em Engenheiro Dolabela e Bocaiuva, durante o mês de novembro p.p. Abaixo publicamos algmas dessas declarações.

Edson Eustáquio da Silva

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Açúcar de Bocaiúva, desde janeiro/1995

"A Reforma Agrária é uma ilusão do trabalhador do campo. Eu não acredito que funcione.

"Em Dolabela e arredores temos mais ou menos 1.600 pessoas adultas. Fizemos um plebiscito, no qual votaram umas 600 pessoas e 80% disse NÃO à Reforma Agrária.

"Os que trabalham na Usina não são todos sem-terra. Há muitos proprietários de terra que preferem trabalhar na Usina como empregados. Temos até um diretor do Sindicato, o Roberto Prates, que o pai dele tem um pedaço de terra bom, muita terra mesmo, e trabalha como empregado.

"Acho bom a TFP divulgar o livro sobre o fracasso dos assentamentos no Brasil.

"Meu ponto de vista é que tivesse emprego para todos. Eu acho que o Brasil hoje não tem sem-terra, tem sem-emprego. O Governo procurando a Reforma Agrária só vai arrumar mais funcionários públicos no campo".

Vicente Gonçalves Costa

Vice-Presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Açúcar de Bocaiúva e membro muito antigo desse Sindicato

"Houve uma experiência de Reforma Agrária em Dolabela, no passado, quando a Usina era dos Matarazzo.

"Lá na Colônia do Breno do Prado, os Matarazzo fizeram um assentamento de experiência, para umas 40 famílias. Deram casa pronta, terreno todo cercado, escola, foi muito bem preparado. Não deu resultado. Hoje em dia, só tem lá duas ou três famílias. O resto vendeu tudo.

"Na época, receberam todas as condições. Foi uma festa muito bonita, Prefeito, todas as autoridades locais assistindo a festa. Foram chamados um por um recebendo seu título da terra. Não deu resultado.

"O pessoal deixava o assentamento e vinha trabalhar na Usina".

Manoel Messias da Silva, 36 anos, casado, 2 filhos, neocomerciante, trabalhou 11 anos na Usina Malvina

"Participei da passeata em Bocaiuva. Saímos daqui às 14 horas, reunimo-nos na Prefeitura. Fomos recebidos por alguns vereadores, muito bem. Houve muito aplauso da população, até a Rádio Clube de Bocaiúva disse que a população está apoiando a pessoal de Dolabela.

"De Dolabela foram umas 600 pessoas. Foi pessoal daqui, de Joaquim Felício, Boinópolis, Engenheiro Navarro.

"Depois disso, veio uma comissão com o Prefeito de Bocaiuva e um ônibus e fizeram uma reunião no Colégio daqui, em Dolabela.

"Estive presente. Quando ele pediu opinião, eu disse que a Usina devia funcionar, que Reforma Agrária não dá certo aqui, que a Empresa está dando emprego para o povo. Ele não gostou. Eles não aceitaram. Disseram que eu estava tumultuando a reunião e pediram para um cabo da PM que me retirasse do Colégio. Só porque eu discordei.

"O direito de propriedade deve ser respeitado".

Aírton Virginio de Menezes

Diretor-Bibliotecário do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Açúcar de Bocaiuva (MG)

"Na época em que os Matarazzo cuidavam da Usina, eles tiraram uma área de terra que era perto da Usina, chamada Embaraçaia, e assentaram 100 famílias. 3,5 alqueires para cada família, com casas muito boas.

"Resultado: hoje restam 2 famílias. Fracasso total.

"Foi feito um plebiscito aqui em Dolabela, em 17 de outubro, sobre a Reforma Agrária. Não houve nenhuma manipulação. O resultado foi: 559 votos contra a Reforma Agrária, 30 a favor, 1 voto nulo e outro em branco".

Santílio Ramos Peçanha

Presidente da Usina Americana que arrendou a Usina Malvina

"Conhecendo o Movimento dos Sem Terra e a Reforma Agrária em geral, vê-se que tem acontecido muita miséria nos assentamentos. Eles têm fracassado. E o assentamento de Malvina, seria mais um.

"A terra aqui, devido ao clima, só dá capim ou cana. E eu nunca vi assentado pecuarista, ia ser o primeiro assentamento pecuarista do Brasil.

"Eu tenho fazendeiros, sitiantes, que são meus empregados. Tenho diversos proprietários da região que vêm me oferecer as terras porque não têm condições cultivá-las. Se esses têm a terra e vêm ser meus empregados, para serem assalariados, por que os daqui vão querer adquirir terra?

"Gostaria de mandar um recado à classe política para que viesse aqui, olhasse essa população, ouvisse o povo".

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão