Novembro de 2002
Ressurge na Rússia brutal perseguição anticatólica
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Atualidade

Renasce na Rússia brutal perseguição anticatólica

A Igreja Ortodoxa (cismática) e o governo Putin unidos para impedir o Renascimento católico naquele país

Nelson Ramos Barretto

Breve explicação do tema

1 – Durante seus 73 anos de vigência na Rússia, o comunismo teve como principal aliado interno a chamada Igreja Ortodoxa (I.O.). A tal ponto que a I.O. era tida como uma espécie de departamento religioso do Governo comunista.

2 – Nesse mesmo tempo, os católicos foram ferozmente perseguidos, constituindo a Igreja mártir.

3 – Com a queda do regime comunista, um início de liberdade foi concedido aos católicos, os quais foram imediatamente objeto de simpatia e atração por parte de numerosos russos.

4 – Isso encolerizou os dirigentes da I.O., que continuam a dar sustentação ao atual regime do presidente Putin, antigo membro da KGB (polícia secreta) soviética. Reiniciou-se então a perseguição religiosa, nos termos expostos neste artigo.

5 – O futuro imediato faz temer um aumento de perseguição, até o momento bendito em que a Rússia venha a se converter, segundo a promessa explícita de Nossa Senhora, em Fátima.



Logo após a ascensão de Putin (esq.) ao poder, comentava-se em Moscou: "Putin precisa de Alexis II (direita), e este precisa daquele"

“Passei toda a noite preso numa sala, sem lavabo, sem cama e sem comida, até que chegou a hora do vôo para o Japão na manhã seguinte”, conta o padre Jaroslaw ainda estupefato.

Naquela segunda-feira, 9 de setembro último, ao chegar ao aeroporto de Jabarovsk, um funcionário da polícia de imigração russa destruíra brutalmente seu visto de residente e lhe dissera que estava expulso do país por ter feito proselitismo em favor da Igreja Católica.

A prova? Mais de um ano antes ele havia ousado declarar pela televisão local que a Rússia fora batizada na Igreja única e universal, porque em 988 não havia a divisão entre católicos e ortodoxos! De fato, foi só em 1054 que Miguel Cerulário consumou a separação (cisma) do ramo bizantino da Igreja, criando a chamada Igreja Ortodoxa (I.O.) e sendo excomungado pelo Papa Leão IX.

Para os atuais esbirros da polícia russa, pouco importava que o Padre Jaroslaw Wisniewski, de origem polonesa, tivesse passado mais de 10 anos, em condições miseráveis, assistindo denodadamente os católicos de uma das populações mais afastadas da Rússia, em Sakhalin, na região onde a Sibéria faz limite com o Japão.

Mons. Jerzi Mazur, Bispo de Irkust, na Sibéria Oriental, antes de sua expulsão da Rússia, dirige a palavra a aderentes da "Luci sull'Est", em Roma, a 30-10-2001

O mesmo “estilo” persecutório da ex-URSS

Outros funcionários russos, igualmente desalmados, anularam o visto de residência do religioso salesiano Edward Maszkiewicz, também de nacionalidade polonesa, sob pretexto de que sua paróquia tinha sido supressa e que, portanto, “já não tinha necessidade de ser sacerdote em Rostov”, na região do Don. Ou do superior dos jesuítas e secretário da Conferência episcopal, o padre Stanislaw Opiela; ou do monge francês Bruno Maziolek, que por uma década havia animado um centro infantil e um programa de reabilitação de toxicômanos a 120 quilômetros ao nordeste de Moscou; ou do padre italiano Stefano Caprio, acusado de “atividades incompatíveis com a condição de ministro do culto”, como se tratasse de vulgar espião; ou do religioso verbita Stanislav Krajnak, de origem eslovaca, desta vez, simplesmente sem explicações…

A polícia de imigração nem sequer tem levado em consideração a dignidade episcopal e a eventualidade de um confronto com o Vaticano. Com efeito, o bispo Jeryk Mazur — cuja diocese é a maior do mundo, pois cobre toda a Sibéria Oriental, e têm como fiéis milhares de vítimas do Gulag e seus descendentes — também fora expulso ao chegar no aeroporto de Moscou, em 19 de abril passado. Como única explicação, o chefe da polícia de fronteira declarou que esse “cidadão polonês” estava na lista de pessoas proibidas de entrar no território da Federação Russa. 

Quem será o próximo católico expulso?

Os 280 sacerdotes e cerca de 300 religiosas de origem estrangeira que residem na Rússia perguntam-se cada manhã quem será o próximo expulso. E o presidente da Conferência de Religiosos católicos da Rússia, o claretiano espanhol Mariano José Sedano, comenta que “o pior de tudo é o hermetismo”, pois “ninguém do governo diz nada”.

De fato, em resposta a uma carta pessoal de João Paulo II, o presidente Vladimir Putin limitou-se a assinalar cinicamente e com dois meses de atraso, que a supressão dos vistos “não era fruto de uma campanha arquitetada contra a Igreja Católica”, mas tratava-se apenas de “providências normais” de um Estado soberano face a certos cidadãos estrangeiros.

Esse clima persecutório levou o jovem padre Jaroslaw a comentar, já no exílio: Tem-se “a sensação de que voltou o terror característico do niilismo estalinista de 1936”. E a perguntar-se: “Será o próximo passo o insulto, ou, inclusive o assassinato de católicos?”.

Recepção da cópia da imagem peregrina em Irkust. Os catolicos afluíram de várias regiões para rezar diante da imagem

A volta anunciada para as catacumbas

Seu prognóstico não parece exagerado. No início de outubro, na vizinha Bielorrússia – mera colônia de Moscou, que sobrevive graças à venda de armas russas para o mundo inteiro – foi aprovada pelo Parlamento uma lei destinada a proteger a Igreja Ortodoxa contra qualquer concorrência. Declara ilegais as atividades de organismos religiosos não registrados, inclusive as reuniões ocasionais em residências privadas.  E para obter tal autorização, é preciso demonstrar o registro da existência de pelo menos uma comunidade antes de 1982, requisito impossível de ser cumprido pelos católicos, que na época eram perseguidos pelo regime soviético.

Eles não terão outra opção senão entrar na catacumba para sobreviver. O arquimandrita greco-católico Sergiusz Jan Gajek, de Minsk, comenta resolutamente: “Estamos acostumados à clandestinidade e à perseguição, mas não queremos que eles nos ‘eutanasiem’”.

Um conluio anticatólico nos moldes da KGB

Na Rússia, as dificuldades também começaram com a sanção de uma lei, votada em 1997 e paradoxalmente intitulada “lei sobre a liberdade de consciência e as associações religiosas”, a qual exige, entre outros requisitos, provar uma existência legal anterior a 1982, favorecendo assim os ortodoxos, os muçulmanos e os judeus; e prejudicando os católicos e, a seu modo, também as seitas protestantes.

Em virtude dessa legislação, o registro de duas dioceses católicas foi recentemente rejeitado, sob a alegação de que os respectivos bispos não tinham cidadania russa. O único meio de a obter — foi-lhes dito acintosamente — seria “casando-se com uma russa”

Decreto posterior impondo a nova política de segurança, assinado por Putin em janeiro de 2000, indicava como uma das principais ameaças internas “a influência negativa dos missionários estrangeiros”.

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