Novembro de 1999
No Timor Leste, cruel perseguição anticatólica
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Internacional

No Timor Leste, cruel perseguição anticatólica

 

Pequena ilha de 800 mil almas – enclave católico em meio a um arquipélago maciçamente muçulmano – é mergulhada num banho de sangue

·         Helvécio Alves

Com muita honra os timorenses se proclamam portugueses. A veneração deles por Portugal é tão grande, que jamais permitem seja pisada sequer na sombra da bandeira lusa, que consideram sacrossanta.

Timor – território luso de além-mar

Indonésia: no realçe, o ensangüentado Timor Leste
Quando os maléficos ventos da “Revolução dos Cravos”, eclodida em Portugal em 1974, ainda não haviam atingido o Timor Leste, esta ilha recebeu a visita, em 20 de outubro daquele ano, do insuspeito Dr. Almeida Santos, Ministro de Coordenação Internacional de Portugal. Ele, diante de 15 mil pessoas, não pôde deixar de evocar a missão colonial de seu país com as seguintes palavras:

“Nós, portugueses, ficamos muito comovidos quando um português sai de Lisboa, dá a volta ao mundo e pode ainda encontrar Portugal no outro lado do mundo. Que Pátria! Que povo!” (1)

Nesse mesmo sentido afirmou o escritor Joaquim Fonseca: “Realmente, os timorenses amavam Portugal, orgulhavam-se de usar nomes portugueses e guardavam, desde os tempos da Monarquia, as bandeiras de Portugal, que transmitiam de geração em geração, como precioso e sagrado depósito” (2)

Timor – ex-colônia abandonada pelo  governo revolucionário português

A partir da denominada “Revolução dos Cravos, o novo governo marxista de Lisboa inicia a funesta política de descolonização  das então Províncias Ultramarinas. E fê-lo de maneira a entregar o poder desses territórios a movimentos guerrilheiros de orientação comunista.

Abandonado o Timor à sua própria sorte, em conseqüência da citada Revolução, a Ilha é mergulhada num trágico período: o movimento de tendência marxista-leninista Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), proclama a independência da ex-colônia. Independência que pouco durou. Doze dias após, a Indonésia invadiu e dominou o Timor. Saem os portugueses, entram os indonésios...

Assim, os católicos timorenses vieram a ficar mais tarde entre dois fogos: de um lado perseguidos pelos muçulmanos e, de outro, sofrendo domínio da Fretilin.

A Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, tentou eliminar o catolicismo da Ilha; construiu mesquitas e destruiu igrejas; encheu a Ilha com seguidores da religião de Maomé e expulsou católicos; chegou ao cúmulo de obrigar mulheres do Timor Leste a tomar contraceptivos, enquanto estimulava o aumento da prole entre os islamitas, com o fim de diminuir a população católica. E, no início desta década, promoveu um grande massacre no qual pereceram cerca de 200 mil timorenses!

 

Apesar da perseguição,  timorenses  conservaram a Fé católica

Católica timorense reza devotamente diante de imagem da Virgem Santíssima, semidestruída devodo ao ódio à verdadeira Religião.
Chegamos ao referendo realizado em  setembro último, mediante o qual 78,5% da população optou pela independência de Timor Leste em relação à Indonésia. Referendo realizado sob observação da ONU, mas sem proteção internacional...

Grupos islâmicos muito bem armados não aceitaram o resultado evidente e começaram a submergir a Ilha num banho de sangue. Devido à violência em curso, a ONU, incompreensivelmente, mandou retirar seu pessoal... A palavra de ordem era para que também os jornalistas do mundo inteiro, que lá ainda se encontravam dando cobertura ao referendo, se retirassem... Teria sido para que o martírio de católicos, perpetrado pelos grupos islâmicos, ocorresse sem testemunhas?...

Quando o mundo acordou... já era tarde!

Somente após terem os militantes paramilitares, apoiados pelo Exército indonésio, “depenado” as principais cidades do Timor Leste e massacrado seus habitantes, é que a ONU começou a organizar uma força internacional para a manutenção da paz... Uma derrota a mais para a coleção, já não pequena, de fracassos acumulados por essa organização internacional.

Por fim, no dia 20 de setembro, a Interfet (força de pacificação das Nações Unidas), composta por 7.500 homens – inclusive 51 brasileiros –  sob o comando do general australiano, Peter Cosgrove, desembarcou no Timor Leste. Ou melhor, naquilo que restou do país. Era tarde... Os membros da  Interfet chegaram para contar os cadáveres, para verem as fossas comuns, para apagarem os últimos incêndios e distribuir alimentos aos que morriam de fome. Encontraram cidades em ruínas, despovoadas, pois os que conseguiram escapar da barbárie destrutiva das milíciais paramilitares muçulmanas fugiram para as montanhas, onde diariamente ocorrem mortes devido à falta de mantimentos e mesmo água.

Terra arrasada

Hoje a capital, Dili, segundo informam alguns repórteres,  é uma cidade-fantasma, destruída pelos saques, pela fúria dos milicianos islâmicos contrários à independência.

“‘A capital de Timor Leste é um deserto em chamas’, afirma o chanceler australiano, Alexander Downer, reproduzindo relatos de refugiados que chegaram a Darwin, norte da Austrália. Disse que a cidade lembra Phnom-Penh quando o Kmer Vermelho tomou a capital do Camboja, em 1975. ‘Não há mais moradores, apenas rondam a cidade os soldados do exército indonésio e os paramilitares, enquanto os prédios pegam fogo’” (“Jornal do Brasil”, 9-9-99)

E a Agência de notícias “Zenit” completou: “Muitos soldados indonésios estão confessando as atrocidades cometidas contra a população  civil no Timor, e não se trata de casos isolados”. É o que confirma Franciscus Lengkong, superior dos Irmãos de Nossa Senhora da Misericórdia, em Dili. Muitos soldados, assegura, “vêem aqui todos os dias para confessar seus pecados” (“Zenit”,  4-10-99).

Uma guerra de religião

Um jovem timorense do Leste é encurralado por milicianos paramilitares apoiados pelo governo de Jacarta...
Não há dúvida que existe um fator político-ideológico por detrás do “affaire” Timor e tal fator pode tornar mais complexa a elucidação desses acontecimentos. Seja como for, independente dos interesses de alguns dirigentes políticos autonomistas mais destacados, é indiscutível a legitimidade da aspiração da maioria dos timorenses em constituir uma realidade separada da Indonésia, ou mesmo restabelecer seus laços com a ex-metrópole portuguesa.

Porém, o elemento mais decisivo nesse caso parece ser de natureza religiosa, uma vez que a esmagadora maioria dos timorenses é católica – 90% da população.

Com o estímulo ou a cumplicidade do regime indonésio, desde o início desses dramáticos acontecimentos intervieram fundamentalistas muçulmanos procurando islamizar a parte leste da Ilha. No seu todo, algo de muito parecido ao que acontece com os cristãos do Sudão meridional, vítimas de uma bem orquestrada campanha, cujo objetivo é o extermínio ou a islamização pela força. Assemelha-se ao que já ocorreu em outros lugares da Indonésia, como a ilha de Ambon, nas Molucas. Naquela ocasião, o diário italiano “Corriere della Sera”, de 25-2-99, denunciava que cerca de 200 igrejas tinham sido destruídas na Indonésia em 1998!

Mártires no final do século XX

...e morto a tiros
De fato, já nos primeiros dias da tragédia ocorrida logo após a votação favorável à independência, o mundo tomou conhecimento das atrocidades perpetradas contra católicos: igrejas incendiadas, sacerdotes e freiras trucidados, execuções sumárias, horríveis assassinatos de mulheres grávidas e de crianças indefesas, as quais foram mortas de tanto golpeá-las  furiosamente contra paredes (cfr. “Diário de Notícias”, Lisboa, 14-9-99). A agência vaticana “Fides”, de 17-9-99, cita um relatório da FAO que calcula terem sido sete mil os timorenses mortos pelas milícias filo-indonésias, 100 mil os que foram deportados para Timor Oeste e outros 100 mil os que estão escondidos nas montanhas de Timor Leste.

     O jornal “Avvenire” (orgão oficioso do Episcopado italiano) denunciou um plano de ação, acertado em novembro último, entre os grupos fundamentalistas de Jacarta, visando islamizar totalmente o arquipélago indonésio (Maria Grazia Cutuli, Fundamentalistas em ação, “Corriere della Sera”, 10-9-99).

O Padre Elvio Damoli, diretor da seção italiana da Caritas,  afirma “que já no passado órfãos católicos foram deportados de Timor Leste para serem islamizados” (ibidem); e o Padre Caesario Sisto Sanedrin, diretor do mesmo organismo para a Ásia e o Pacífico, acrescenta: “Há setores do Exército indonésio que exercem pressões para a islamização... a Igreja  está em pedaços” (ibidem).

     A aludida agência “Fides” reproduz as palavras de um missionário da capital do Timor: “Todos os incêndios – das igrejas às casas religiosas – fazem parte de um plano de destruição total dos lugares de culto. O destino das igrejas não é diferente do da população” (“Fides”, 17-9-99).

Uma nova “Guerra Santa” maometana

Logo que zarparam os primeiros navios da Interfet, surgiram novas ameaças. De Surabaya, a segunda cidade indonésia, conta-nos o enviado do “Corriere della Sera”, Massimo Nava: “Os dirigentes da NU (Nadhlatul Ulama), a  poderosa organização muçulmana, com 20 milhões de inscritos, conclamam à guerra santa e falam de dezenas de milhares de voluntários mobilizados bem como de um ‘heroísmo espontâneo’ contra os novos colonizadores” – isto é, os membros da força de paz (“Corriere della Sera”, 19-9-99). O mesmo fato é apontado por “O Público” de Lisboa (19-9-99) ao informar que “cem mil muçulmanos indonésios já assinaram uma declaração de apoio à ‘jihad’ (guerra santa)”. O periódico português atribui à NU 30 milhões de militantes e comenta a respeito de seu líder, Gus Dur Wahid, que se trata de um dos mais influentes dirigentes políticos indonésios.

Uma “Internacional” islâmica

Essa ofensiva islâmica fundamentalista, é bom lembrar, está presente em vários pontos quentes do mundo: da Argélia ao Médio Oriente, do ex-império soviético até a Indonésia. É mesmo um dos elementos mais obscuros do panorama, para qualquer pessoa que queira estabelecer um balanço sério da situação mundial neste fim de século e de milênio.

A esse respeito, basta pensar nas pavorosas explosões ocorridas recentemente na Rússia, as quais ceifaram centenas de vidas humanas, obrigando as cambaleantes autoridades moscovitas a redobrar a vigilância nas centrais nucleares. Desde há muito tempo, analistas internacionais se  perguntam se os terroristas maometanos já não estariam de posse de sofisticadas armas de destruição maciça.

Por isso, não podemos olhar para o fundamentalismo islâmico como uma realidade fragmentada. Mas devemos dar-nos conta de que estamos diante da atuação de uma verdadeira e nova Internacional, particularmente ativa e eficaz nestes momentos de grande instabilidade política para muitas nações, e de renovados perigos para a ação evangelizadora da Santa Igreja.  

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Notas:

(1)  Daniel Rodrigues, O Caso de Timor, in “O Comércio do Porto”, Porto, 19-5-76.

(2) Joaquim M. Fonseca, Comissão em Timor, Tipografia  Veritas, Guarda, Portugal, 1976, p. 87.

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