Fevereiro de 2002
A pretexto do combate à globalização: RENASCE A LUTA DE CLASSES /Fórum Social Mundial de Porto Alegre, berço de uma neo-revolução anárquica
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A pretexto do combate à globalização

Renasce a luta de classes

Fórum Social Mundial de Porto Alegre, berço de uma neo-revolução anárquica

Com o título em epígrafe, foi publicado recentemente um ensaio* sobre a nova rede internacional das esquerdas. O II Fórum Social Mundial, a realizar-se de 31 de janeiro a 5 de fevereiro em Porto Alegre, onde estarão presentes corifeus dessas correntes no mundo inteiro, torna a obra da maior atualidade. Apresentamos aos leitores de Catolicismo um resumo desse
importante estudo.

Guilherme da Penha

As agitações e o quebra-quebra realizados por movimentos de extrema esquerda em Seattle (EUA) e Göteborg (Suécia), e em Gênova (Itália) por ocasião da reunião dos chefes de Estado do G-8, chamaram a atenção da opinião pública mundial para um fenômeno que vinha despontando nos últimos três anos.



Agitação e quebra-quebra em Gênova (Itália). Uma contestação inusitada e violenta à globalização e à atual ordem econômico-social, rotulada de "neo-liberal".

É uma contestação inusitada e violenta à globalização e à atual ordem econômico-social, etiquetada de "neoliberal". Contestação essa levada a cabo por grupos diversos, muitos dos quais não pareciam ter nexo entre si, e outros que até há pouco nem sequer existiam. O conjunto desses agrupamentos mobiliza dezenas de milhares de ativistas contestatários nos vários continentes, à procura de ocasiões propícias para prosseguir sua agitação, que está atingindo auges crescentes.

Bem observado o fenômeno, constata-se que a globalização serve de pretexto para formar, impulsionar e articular tais grupos, que vão constituindo nova, possante e perigosa rede internacional de esquerda de cunho anarquista, cujo pensamento e sistema foi delineado pelas intervenções e documentos publicados no I Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Porto Alegre em janeiro de 2001. Na esteira desse evento, realizou-se igualmente na capital gaúcha, o Fórum Mundial de Educação (FME), em outubro desse mesmo ano.

***

O ensaio, objeto deste artigo, denuncia esse esforço mundial para criar uma nova Internacional Comunista, desde já denominada nos meios da esquerda radical de Internacional Rebelde. De fato, é o próprio comunismo que ressurge, porém metamorfoseado. Levando como companheira de viagem a "esquerda católica", tais forças procuram se recuperar do trauma sofrido com a queda do império soviético, para se reagrupar e passar à ação.

Chefes de Estado do G-8.

A ocasião é bem escolhida, posto o descontentamento profundo no mundo de hoje com algumas das conseqüências da globalização, como a perda de identidade das nações, o crescente movimento migratório e a penetração dos efeitos das crises econômicas de certos países em muitos outros, por vezes ameaçando transformar-se numa crise geral.

Porém, junto às críticas feitas à globalização, essas forças lançam violentos ataques contra o próprio capitalismo, visando destruir seus fundamentos, que são da própria ordem natural: a propriedade privada e a livre iniciativa.

No dizer dos representantes de tais forças, o combate não é dirigido contra toda forma de globalização, mas contra a globalização capitalista; vêem eles até com simpatia a de índole socialista. Os novos contestatários também querem uma globalização, mas de tipo anárquico-tribal, que absorva as nações, acabe com as autoridades e favoreça as pequenas comunidades autogestionárias, totalmente igualitárias.

O referido ensaio, objeto deste artigo, rejeita o falso dilema, muito repetido pela mídia, de que é preciso optar entre "global" e "não global". Como veremos, entrar nesse debate tomando posição de um lado ou de outro, sem as devidas ressalvas, já é aceitar o falso dilema e se deixar confundir por ele.

O estudo, baseado em farta e sólida documentação, poderá ser adquirido por quem o desejar, através do seguinte site: http://www.tfp.org.br/

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Promotores da agitação antiglobalista

O conteúdo deste artigo, cuja importância e atualidade é desnecessário acentuar, supõe uma explicação sintética preliminar, que apresentamos abaixo, sobre os principais organismos, publicações e líderes da nova rede internacional das esquerdas, à qual já se tem atribuído a denominação Internacional Rebelde. Sem essa conceituação inicial, não seria fácil ao leitor compreender a estrutura, os métodos de ação e os objetivos desse movimento de agitação mundial, que ainda não é bastante conhecido por todos os setores da opinião pública.



  • Fórum Social Mundial — Conjunto de entidades que organiza, entre outras iniciativas, os eventos realizados em Porto Alegre. É formado pela ATTAC, pelo MST, pela CUT, pela COMISSÃO JUSTIÇA E PAZ da CNBB, pela ABONG (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais), pela CIVES (Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania), pelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e pela REDE DE JUSTIÇA SOCIAL E DIREITOS HUMANOS.

  • ATTAC (Associação por uma Taxa às Transações financeiras especulativas para Ajuda aos Cidadãos). Entidade francesa, contando com filiais ou entidades similares em 23 países, 15 deles na Europa. De início, a finalidade dessa associação constava em seu título. Hoje visa ela ser "uma universidade popular voltada para a ação", rearticulando grupos da esquerda em todo o mundo para agir conjuntamente, seja cada um no próprio país, seja mobilizando ativistas para atuar contra os eventos que promovem a globalização, seja para protestar contra esta nas nações que enfrentam crises financeiras.

  • "Le Monde Diplomatique" — Mensário francês esquerdista. São publicadas dele 20 edições em 10 línguas, com uma tiragem total de 1.200.000 exemplares. Sua versão italiana é difundida por "Il Manifesto", periódico declaradamente comunista. A edição francesa conta só com oito redatores, mas apela para a colaboração de mais de 3.000 esquerdistas espalhados pelo mundo. Seu diretor, Ignacio Ramonet, e seu redator e diretor administrativo, Bernard Cassen, são, sem dúvida, as pessoas de maior projeção tanto da ATTAC quanto do periódico.

  • Noam Chomsky — Um dos mais salientes intelectuais anticapitalistas da atualidade. Declara-se "socialista libertário", sendo qualificado por seus próprios seguidores como "o mais conhecido dos anarquistas contemporâneos". Questiona todas as instituições sociais, que define como "opressivas", e propugna diretamente seu desmantelamento, caso elas não possam provar o contrário. Ademais, postula o sistema autogestionário e combate fortemente a política exterior norte-americana.

  • Toni Negri — Militou nos anos 70 em vários grupos comunistas próximos ao terrorismo. Em vista disso, foi julgado e condenado pela Justiça italiana, por ocasião do seqüestro e assassinato de Aldo Moro. Embora preso, foi eleito deputado, sendo então libertado em virtude da imunidade parlamentar. Quando esta foi eliminada para reconduzi-lo ao cárcere, fugiu para a França, onde se exilou durante vários anos, entrando nessa ocasião em contato com os adeptos do pós-estruturalismo. Conheceu nessa época Michael Hardt, um norte-americano com o qual escreveu a mais conhecida de suas obras, Império. Recentemente, voltou à Itália para cumprir, em regime de semi-liberdade, a pena a que havia sido condenado.

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