29 de maio de 2008: dia trágico na história do Brasil Para a obtenção do amparo legal às pesquisas com embriões humanos — com a controvertida decisão do STF — alguns cientistas e instituições pró-aborto, com largo apoio da mídia, fizeram “propaganda enganosa”, venderam ilusões, e muitos compraram suas falsas promessas. Paulo Roberto Campos
Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal,
dá seu voto no julgamento da constitucionalidade do artigo
5º da Lei de Biossegurança
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No dia seguinte à votação no Supremo Tribunal Federal — que em controvertida sessão aprovou por 6 votos a 5 as pesquisas com células-tronco embrionárias (conforme a Lei de Biossegurança) — quase todos os meios de comunicação do Brasil festejaram tal aprovação, considerando aquele dia como radioso e de grandes esperanças. Entretanto, não temos a menor dúvida em afirmar que foi um dia sinistro e triste para a história de nosso País. A deplorável votação no STF parece interpretar a Constituição como não reconhecendo o direito à vida senão depois do nascimento. Isso corresponde a um verdadeiro atentado contra a Lei natural, a ética e a moral católica. Além do mais, contraria fundamentadas pesquisas de grandes cientistas do Brasil e do exterior, comprovando que a vida se inicia na fecundação, e que o embrião humano não é apenas um aglomerado de células, mas possui uma vida em estado inicial, com um patrimônio genético próprio (vide Catolicismo, maio/2008 – entrevista com o Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos). É o que, por exemplo, afirma a renomada pesquisadora e médica Dra. Alice Teixeira Ferreira: “Está demonstrado pela ciência que a origem do ser humano se situa no momento da concepção. [...] Já em 1827 isso foi descrito por Karl Ernst von Baer. Ele observou o ovo, ou zigoto, em divisão na tuba uterina, e o blastócito no útero de animais. Em duas obras descreveu os estágios correspondentes ao desenvolvimento do embrião. Por isso é chamado ‘pai da embriologia moderna’. Todo livro moderno de embriologia humana traz essa descrição. Todos os textos consultados, nas suas últimas edições, afirmam que o desenvolvimento humano se inicia quando o ovócito é fertilizado pelo espermatozóide. Todos afirmam que o desenvolvimento humano é a expressão do fluxo irreversível de eventos biológicos ao longo do tempo, que só pára com a morte”.(1) Resolução que abre as portas para a prática do aborto
O corpo de Dolly, a primeira ovelha clonada, é preservado
no The Connect Gallery at the National Museum da Escócia
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Com a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias (CTEH), abrem-se as portas para a despenalização do aborto, pois o feto é um embrião mais desenvolvido. Se for permitido destruir a vida embrionária, por que proibir que se tire a vida de um feto no ventre materno? O ministro Marco Aurélio Mello afirmou que, com a aprovação da Lei de Biossegurança, o STF está maduro para julgar a causa de aborto nos casos de anencefalia. Segundo ele, “o julgamento do processo sobre as pesquisas com células-tronco embrionárias aplainou o terreno”. Primeiramente, a legalização do aborto nos casos de bebês anencefálicos, depois... Depois da aprovação pelo STF das pesquisas com embriões humanos, os abortistas tentarão legalizar o aborto — em qualquer tempo de gestação, até mesmo quando praticado no 9º mês da gravidez. Com isso, abrem-se as portas também para outras práticas antinaturais. Como, por exemplo, a clonagem humana (técnica de reprodução sem o concurso do casal). Primeiramente, poderão alegar que a clonagem visa à obtenção de “material biológico” (peças de reposição) para servir na cura de certas doenças ou de órgãos para transplantes. Depois, nesta deplorável senda antinatural, revelar-se-á que a finalidade real é a tentativa de produção de seres humanos por meio da chamada “engenharia genética”. Portanto, tal aprovação e suas conseqüências merecem o repúdio de todos aqueles que defendem a ordem da criação estabelecida por Deus. Nessa escalada de absurdos que violam a Lei Divina e a própria Lei Natural, não se chegaria também a propor no Brasil experiências de gestação de embriões humanos em úteros de animais? Causa horror só em pensar, mas... “cesteiro que faz um cesto, faz um cento”. Ou, recordando um salmo da Sagrada Escritura: “Abyssus abyssum invocat” (Um abismo atrai outro abismo). Nesse sentido, o Parlamento Britânico aprovou recentemente uma monstruosidade: a criação de embriões híbridos — a implantação de células humanas em animais.(2) O homem, distanciando-se da ordem natural, revoltando-se contra o Criador, pode chegar a abismos de infâmia e aberração. Nesse caso, que monstros serão gerados? A tecnologia da clonagem já não está sendo experimentada em laboratórios clandestinos, talvez já em diversos países, à revelia das leis atualmente proibitivas? Assim como “criaram” uma ovelha “Dolly” (o primeiro mamífero clonado), não tentariam criar um “humano clonado”? Com a prática abortiva, mata-se um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus; com a clonagem, “constrói-se” um ente humano criado em laboratório. É a utopia atéia e materialista dos propugnadores do chamado “mundo novo” a ser construído. E, para habitar esse “mundo novo”, a criação de um “homem novo”. Uma “nova era” para os contestadores da existência de Deus, Criador de todas as coisas. Não estamos considerando aqui um aspecto delicado da questão. A ser possível tal “criação” — o que de nenhum modo está provado — Deus poderia infundir uma alma num ser assim? Em que condições? É um problema teológico-filosófico que fica para os especialistas da Igreja estudarem. De qualquer modo, vai ficando claro que há, da parte de alguns, um desígnio malfazejo de substituir-se ao Criador, à maneira do ato de revolta de Lúcifer que quis igualar-se a Deus. Revolta esta que a serpente infernal procurou instilar também nos homens, quando prometeu a Eva: “Sereis como deuses” (Gen. 3,5). As declarações “salvadoras” antes da votação no STF
Células-tronco
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Nos últimos dias de maio, houve uma gigantesca articulação para se obter a liberação das pesquisas com CTEH. Por detrás disso, a existência de fortes interesses de instituições pró-aborto (por exemplo, a Fundação Rockefeller), que sustentam ONGs e o lobby nacional e internacional para forçar a aprovação de leis que despenalizem o aborto. Na mesma ocasião, observou-se também grande atividade midiática de desinformação. Muitas vezes a mídia adulterava os fatos, noticiava sucessos em pesquisas com células-tronco, insinuando que se tratava de células-tronco embrionárias (CTEH), quando os bons resultados tinham sido obtidos a partir de células-tronco adultas (CTAH). Estas sim, extraídas da medula óssea, do cordão umbilical e de outros tecidos humanos, têm produzido bons resultados. O que não é divulgado pela grande mídia. Manipulou-se também o sentimentalismo do povo brasileiro, divulgando apenas a “voz do sentimento” e não a “voz da razão” — como se, para o bem do progresso e dos deficientes físicos, a ciência tivesse direito a fazer qualquer coisa. Portanto, agindo segundo a pseudo-ética maquiavélica: “Os fins justificam os meios”. Para sensibilizar e criar forte emoção na opinião pública, e assim influenciar os senhores ministros, não tiveram escrúpulos em fazer uso de deficientes, enganados por falsas promessas de curas. Assim, muitos deles foram conduzidos em suas cadeiras de rodas para o prédio do STF, a fim de serem televisionados e prestarem declarações emocionadas. Reportagens afirmaram que, em todo o Brasil, milhões de deficientes e portadores de moléstias degenerativas “torciam” pela autorização das pesquisas, pois, desse modo, em pouco tempo eles seriam curados. É a velha tática revolucionária: “Menti, menti, sempre alguma coisa ficará” [nas cabeças das pessoas], dizia o ímpio Voltaire. É curioso observar que esse era o discurso antes da aprovação no STF. Após a aprovação, o discurso mudou. Os mesmos cientistas e porta-vozes das pesquisas com CTEH, que prometeram as curas, começaram a dizer que ainda tinham pela frente longos anos de pesquisas, e que não havia nenhum resultado concreto para apresentar. Por exemplo, a geneticista Mayana Zatz (da USP) declarou: “Todos vamos nos beneficiar dessa vitória. Temos uma enorme responsabilidade pela frente. Quero deixar claro que não estamos prometendo cura imediata, mas dar o melhor de nós nas pesquisas”. |