Drogas, marxismo e a guerra do futuro Como se explica a aliança da subversão com o narcotráfico? O que visa essa aliança estratégica, e como é aplicada nos países do bloco latino-americano? Alejandro Ezcurra Naón Correspondente
Camponeses peruanos lutam contra o Sendero Luminoso
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Lima – O nexo entre a subversão marxista e o narcotráfico é cada vez mais patente, no Peru como em outros países. O próprio testemunho de terroristas e narcotraficantes capturados deixou claro que os remanescentes do Sendero Luminoso peruano dedicam-se agora a proteger a produção e o transporte da droga em zonas de cultivo ilegal de coca.(1) O plantio e elaboração da droga está crescendo precisamente em áreas onde existem remanescentes de bandos terroristas, revelando ainda mais o estreito vínculo entre traficantes e subversivos. O fenômeno não se restringe ao Peru. Em maio deste ano, o diretor da Polícia da Colômbia, General Oscar Naranjo, revelou que o guerrilheiro Oscar Medina –– vulgo Negro Acácio, membro da cúpula das FARC, abatido pelo Exército em setembro passado –– era o encarregado do tráfico de cocaína por conta dessa organização subversiva. Ele substituía nesse “negócio” o chefe da Frente 16 das FARC, Ángel Leopoldo López, vulgo El Chigüiro, detido há três anos na Venezuela portando nada menos que 600 quilos de cocaína.(2) O substituto de Acácio parece ser agora o subversivo Gener García Molina, vulgo John 40, que de acordo com o citado chefe policial “tem um comportamento mais narco que guerrilheiro”.(3) O Brasil não está alheio a esse fenômeno. Parte da fortuna do narcotraficante Luiz Fernando da Costa, vulgo Fernandinho Beira-Mar, provém do fornecimento de armas às FARC em troca de cocaína,(4) em sociedade com o Negro Acácio.(5) Em março deste ano, a revista “Isto É”, de São Paulo, denunciou que a chamada Liga dos Camponeses Pobres, oriunda do MST, vem utilizando métodos de guerrilha em zonas do Estado de Rondônia –– onde estabeleceu um corredor de centenas de quilômetros, denominado “Transcocaineira” –– para introduzir drogas e armas a partir da Bolívia.(6) “Conversão” marxista ao capitalismo?
Exército mexicano destrói carregamento de maconha
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O contubérnio subversão-narcotráfico é hoje uma realidade indiscutível. Mas, precisamente por ser indiscutível, o público é levado a supor que os grupos subversivos marxistas de não importa que tendência — os stalinistas das FARC colombianas ou os maoístas do Sendero Luminoso peruano — teriam abandonado suas posições revolucionárias radicais para ingressar sem dissimulação na delinqüência pura e simples, e desde logo em sua forma mais lucrativa. O afã de riqueza fácil, pensam muitos ingênuos, estaria prevalecendo sobre os objetivos ideológicos, aproximando esses marxistas da posição “capitalista”, ainda que em suas formas ilícitas. Ledo engano! A verdade é precisamente o contrário: a aliança com o narcotráfico joga um papel central, teórico e prático, na estratégia revolucionária para nossos dias. Vejamos por quê. Anarquia na sociedade e na alma humana, meta revolucionária
Narco-guerrilha colombiana
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Os comunistas não dissimulam que sua meta final é instaurar a anarquia, ou seja, a abolição de todas as formas de hierarquia, moralidade e ordem na sociedade, para substituí-las por um caos igualitário e libertário. Mas, como explica o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu magistral ensaio Revolução e Contra-Revolução (1959), para que esse caos seja durável, cumpre destruir também a ordem e a hierarquia no interior do próprio homem. Abolir assim o domínio que exercem na alma os componentes espirituais — a inteligência e a vontade — sobre os componentes materiais, os sentidos; domínio sempre árduo, como todos sabemos por experiência própria, já que, em conseqüência do pecado original, nossa sensibilidade está continuamente inclinada a rebelar-se contra a reta razão. O papel da Revolução Cultural Liberando os apetites sensíveis — os impulsos, os instintos, as paixões, as emoções — da tutela da racionalidade, o homem perde o senhorio sobre si próprio. Desse modo vai se instalando dentro de sua alma uma desordem crescente: a escravidão aos impulsos caprichosos ou descontrolados evidencia justamente uma anarquia interior. É rumo a essa anarquia que conduz, por exemplo, a chamada Revolução Cultural iniciada nos anos 60, cujo expoente mais notório é a geração do rock and roll, caracterizada pela “espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade”, e pelo “predomínio da fantasia e das ‘vivências’ sobre a análise metódica da realidade”.(7) É neste ponto que entra o papel da droga, tornando-se fácil ver o quanto sua difusão pode agravar até o paroxismo esse resvalar da mente para o mundo da pura fantasia, e como isto coincide com a meta marxista de subverter interiormente o homem. Tribalismo, perda da individualidade e massificação
Mas o papel revolucionário da droga vai ainda mais longe. Em 1976, quase 20 anos depois de publicada a obra Revolução e Contra-Revolução, seu autor acrescentou-lhe uma importante terceira parte, na qual aprofunda a análise desse processo caotizante, mostrando que uma forma concreta de se conduzir à anarquia é através do que denomina “fusão coletivista tribal”.(8) Essa fusão consiste no seguinte: nas tribos mais primitivas há uma espécie de sentir e de querer comuns, que substituem a razão e a vontade individuais, e estas se atrofiam até ficarem reduzidas à sua mínima expressão. Nesse sentir e querer panteísta tribal se dissolvem e se fundem todos os “eus” individuais, resultando daí uma espécie de “personalidade coletiva”, puramente sensorial, que é dirigida pelos feiticeiros, curandeiros e congêneres da tribo. Um fenômeno similar ocorre hoje, precisamente nas sociedades massificadas e cada vez mais despersonalizadas do Ocidente. Nestas, o papel dos “feiticeiros” é exercido por uma profusa coorte de especialistas em manipular emoções coletivas: disc-jockeys, “animadores” religiosos como os de certas seitas pentecostais, líderes de alucinantes espetáculos de massas (demagogos, roqueiros etc.), todos eles dedicados a excitar a sensibilidade coletiva de seus seguidores massificados, ajudados por uma parafernália visual e auditiva cada vez mais sofisticada e estridente. O papel da droga: a “eucaristia do demônio”
Disc-jockeys, “animadores” religiosos como os de certas seitas
pentecostais, líderes de alucinantes espetáculos de massas
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Mas toda essa manipulação de massas, destinada a fazer com que os homens percam sua identidade individual, não produziria pleno efeito se não contivesse um poderoso elemento ativador: a droga. É mediante a ação narcótica do alucinógeno que, nas tribos mais degradadas, o feiticeiro pode manipular num plano pseudo-místico a psique coletiva, utilizando “cultos totêmicos carregados de mensagens confusas, mas ‘ricas’ em fogos fátuos ou até em fulgurações, provenientes muitas vezes do mundo da transpsicologia ou da parapsicologia. Por meio dessas ‘riquezas’ o homem compensaria a atrofia da razão”.(9) Para esse estado conduz a nova etapa revolucionária na qual vamos ingressando. É a fase da razão atrofiada ou do “pensamento selvagem”, como o denominou um pioneiro da Revolução Cultural dos anos 60:(10) a etapa em que a alucinação deve destronar a razão, e uma irracional mania de sensações deve chegar às últimas profundidades da mente humana. Mas, repetimos, esse extremo seria inalcançável sem o concurso da droga. Valendo-nos de uma expressiva comparação de Plinio Corrêa de Oliveira, podemos denominar a droga como “eucaristia do demônio”: uma tenebrosa comunhão com o preternatural, pela qual o homem afunda num pseudo-êxtase de irracionalidade que o aniquila mental, moral e fisicamente. Alucinógenos e marxismo, uma aliança estratégica
A nova etapa revolucionária, na qual vamos ingressando,
é a aquela em que a alucinação deve destronar a razão
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Se tal é a importância dos alucinógenos para anarquizar o homem, compreende-se perfeitamente por que, na atual fase revolucionária, em vários países europeus e da América (inclusive no Brasil) os partidos socialistas e a esquerda em geral quebram lanças pela liberalização do consumo de certas drogas. E se compreende também por que em nações como a Colômbia e o Peru a guerrilha ou o terrorismo marxista se converteram, eles próprios, ora em cartéis de narcotráfico, ora numa espécie de guarda pretoriana dos cartéis. É que a droga, “libertando” o homem da “opressão” da razão, o converte num perfeito anarquista interior, encurtando as etapas para se chegar a estabelecer a anarquia em toda a sociedade, como quer, em última análise, o marxismo. A aliança marxismo-narcotráfico não é portanto um fenômeno casual e fugaz, fruto de circunstâncias fortuitas, mas uma estratégia calculada na passagem da atual etapa revolucionária para a sua fase final anárquica. Dois tipos humanos opostos, numa grande confrontação Por conseguinte, uma visão atualizada do marxismo em nossos dias impõe ter em vista que o conflito comunismo-anticomunismo não se limita ao terreno sócio-econômico, mas se desenvolve num campo preponderantemente psicológico, no qual está dando origem a uma confrontação, agora de tipos humanos e de modos de ser. De um lado está o neo-revolucionário, entregue à desordem total dos sentidos. Fazem parte do quadro o uso de drogas, a libertinagem sexual e todas as formas de frenesi induzido, como meios de impeli-lo, e à sociedade atual, a um estado de coisas neotribal. Na nova estratégia do comunismo e do socialismo, é o “homem novo”, produto de um embrutecimento programado. No extremo oposto situa-se o homem de fé e de princípios, o católico verdadeiro. Conservando a ordem das potências de sua alma — isto é, a lucidez de sua inteligência iluminada pela graça, a força de sua vontade sujeita à reta razão, o equilíbrio de seus sentidos — encarna o protótipo mais atualizado e mais eficiente do batalhador contra-revolucionário. Estes são os dois paradigmas que personificam dois pólos metafísico-religiosos opostos, entre os quais o Ocidente e o mundo inteiro estão sendo levados a optar, de forma imperceptível mas inexorável. Preparemo-nos! Pois, querendo ou não, essa opção se aproxima de nós. Mais rapidamente do que imaginamos. E-mail do autor: ezcurra@catolicismo.com.br _______________ Notas: 1. Ver http://ffaaperu.blogspot.com/2008/02/sendero-produce-y-vende-droga-los.html 2. Cfr. “Correo”, Lima, 25-2-05, p. 16. 3. http://www.milenio.com/index.php/2008/05/04/233737/ 4. “El Mercurio”, Santiago do Chile, 15-6-05. 5. EFE, Bogotá, 3-8-07. 6. http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2003/artigo75560-3.htm 7. Revolução e Contra-Revolução, Parte I, Cap. VII, § 3, B., d. 8. Idem, Cap. III, § 2., IV. 9. Idem, ibid. 10. Cfr. Claude Lévy-Strauss, La Pensée Sauvage, Plon, Paris, 1969. |