Janeiro de 2010
Vagalhões das esquerdas quebram-se contra um mundo mais reativo
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Vagalhões das esquerdas quebram-se
contra um mundo mais reativo

Em vez do conhecido adágio “vox populi, vox Dei”, a versão “vox populi, vox diaboli” exprimiu o espanto de agentes revolucionários face às reações da opinião pública em 2009

Luis Dufaur


O ano 2009 apenas se iniciava quando o vôo 1549 da U.S. Airways, recém-saído do Aeroporto La Guardia, perto de Nova York, por pouco não sofreu uma catástrofe. Num gesto de suma destreza, o comandante Chesley B. Sullenberger pousou sobre o rio Hudson. De uniforme impecável, num frio gélido, ele supervisionou meticulosamente a evacuação dos passageiros, só abandonando a aeronave após certificar-se de que todos haviam sido resgatados. Os EUA saudaram-no como herói.

Cinco dias depois, em Washington, alguém tentaria fazer decolar uma máquina incomparavelmente maior, com mais de 300 milhões de pessoas a bordo. Era Barack Hussein Obama, no comando da primeira potência econômico-militar mundial em plena turbulência financeira. Aclamado pela mídia como “salvador” e “profeta” de uma nova ordem mundial, as tubas da esquerda alçaram-no aos cornos da lua. Já no primeiro dia, no salão oval da Casa Branca (sua cabine de comando), tirou o paletó1 e arregaçou as mangas. Uma estranheza invadiu o espírito de grande número de norte-americanos, que não viram nisso o sinal de um presidente confiável.

O fiasco Obama

À estranheza sucederam-se o silêncio, o desprestígio, a crítica, o abandono, a oposição e a decadência. Nunca um presidente tão prestigiado pela mídia caiu tanto, tão profundamente, em tão pouco tempo. No final do ano, até seus mais entusiastas apoiadores constatavam o fiasco. Assim, em outubro, nos próprios jornais que o enalteciam, apareciam matérias com títulos do seguinte tipo: “Obama frustra expectativas e deixa de cumprir boa parte de promessas”;2 ou então: “Muitos esquerdistas estão frustrados com Obama”,3 como dizia Hollis Felkel, presidente do Felkel Group de comunicação política. É comum ler-se, nas análises de um ano de governo do “messias” das esquerdas, apreciações do gênero: “Não há consenso sobre o rumo que o presidente deve tomar”; “Enormes resistências no Congresso”; “Decepções acumuladas”; “Mais desconforto na opinião pública do que simpatia pelo governo”; “Descontentamento insuflou onda surpreendente de manifestações contra o governo, patrocinadas por grupos conservadores”; “Insatisfação pela reforma do sistema da saúde”.4

O alerta máximo soou em novembro, quando os candidatos a governador nos estados de Virgínia e de New Jersey, apoiados diretamente por Obama, sofreram históricos reveses. Tanto mais quanto New Jersey foi sempre feudo político do partido governista.

Crise econômica

 
Hillary Clinton e o presidente Obama

Obama aplicou trilhões de dólares para escorar a economia americana durante a crise; assumiu os passivos de bancos e das duas maiores cooperativas de crédito; forçou a “estatização” da General Motors, símbolo do poder industrial americano. Mas seus planos pareceram “pouco claros”. Houve bancos e empresas que recusaram ou devolveram seus “auxílios”.

Na Europa, os governos endividaram-se para segurar bancos e empresas. A mídia trombeteou o fim do liberalismo econômico e o retorno “salvador” do estatismo. O primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown foi saudado como portador da velha fórmula socialista, enquanto Obama era considerado o coveiro da “era conservadora”.5

Após meses de turbulência, contudo, nenhuma das profecias do catastrofismo anticapitalista se cumpriu. Pelo contrário, uma forte tendência anti-socialista havia tomado conta dos EUA e até da Europa. O trabalhismo inglês descia ao terceiro lugar na preferência dos eleitores na Grã Bretanha e se preparava para a pior derrota eleitoral de sua história.

Os problemas econômicos de fundo não foram resolvidos, mas apenas protelados. Em muitos casos, a dívida “podre” das instituições bancárias — o cerne da crise — foi transferida para os Estados. Pelo fim do ano, a incógnita era se estes seriam capazes de honrar seus compromissos. Embora circunscrita, a concordata do fundo Dubai World, em novembro, espalhou interrogações sobre qual Estado seria o próximo insolvente.

“Nova ética” de Obama: coleção de escândalos

Obama prometeu uma “nova ética” no governo, a qual estaria nos antípodas dos vícios atribuídos à administração de George W. Bush. Em certo sentido a cumpriu, mas de modo inesperado: Vários de seus assessores caíram nos primeiros dias; o ex-senador Tom Daschle, proposto para secretário de Saúde, foi apanhado em sonegação fiscal;6 três outros designados cometeram o mesmo delito; e ainda mais três foram desmascarados como lobbistas de empresas militares e bancos, o que Obama prometera banir da Casa Branca; Van Jones, conselheiro em política ambiental, demitiu-se após atos grosseiros no exercício de suas funções. No âmbito familiar, enquanto um primo-irmão do presidente era preso por porte de maconha e resistência à autoridade,7 uma tia queniana de Obama, imigrante ilegal nos EUA, desobedecia à ordem da Justiça de abandonar o país.8

Rebaixamento internacional dos EUA

O primeiro ato de governo foi simbólico e ideológico: Obama cassou decisões presidenciais anteriores sobre a manutenção da base militar de Guantánamo como prisão de terroristas islâmicos. A mídia comemorou, no ano que findou a bancada democrata não removeu o arcabouço legal que alicerça tal prisão. Em sua primeira viagem à Europa, Obama propôs em Praga a admissão da Turquia na União Européia;9 e na Turquia, prometeu remodelar as relações com o mundo islâmico, conflitantes desde o 11 de setembro de 2001.10

O presidente americano eliminou restrições à ditadura castrista, facilitou visitas e remessas de recursos a Cuba. Fidel Castro retribuiu com cálidos elogios pessoais ao presidente, e bofetadas nos EUA.11 Obama também cancelou o escudo contra eventuais mísseis do Irã e da Rússia e não aludiu ao tema da violação dos direitos humanos na China, por ocasião de sua viagem àquele país. Ele foi incensado pela mídia, mas rebaixou os EUA.

A bajulação a Obama passou da conta, com a outorga do Prêmio Nobel da Paz.12 Ninguém soube dizer o que ele fizera para merecê-lo. Para o presidente Lula, “o prêmio está em boas mãos”.13

Socialização do sistema de saúde

A socialização da medicina, menina dos olhos do presidente Obama, transformou-se em guerra ideológica. Cartazes, panfletos, clips, charges, passeatas nas ruas, exibiram frases como: “Obama socialista”; “Obama comunista”.

O projeto de reforma da saúde foi acusado de “diabólico” e de criar os chamados “painéis da morte”, ao propor que se decida quais doentes terminais e idosos devem continuar a ter ou não cobertura médica. Isso ocasionou a doentes e não-doentes um verdadeiro pavor. Para acalmá-los, os congressistas democratas, de concerto com Obama, tentaram defender o projeto em reuniões públicas. Nelas encontraram idosos agastados, cartazes incendiários, agressões verbais e intervenções policiais.

“Revolução sexual” acelerada nos EUA

Desde o início, Obama favoreceu o aborto e levantou a proibição de financiamento público a ONGs, clínicas e órgãos da ONU que promovem o massacre dos inocentes; anulou anteriores decisões presidenciais que bloqueavam fundos federais para experiências com embriões humanos; e multiplicou ao longo do ano os estímulos ao “casamento” homossexual.

Atendendo às aspirações mais caras do progressismo católico e contundindo as tendências conservadoras, a ofensiva de Obama tornou o conflito inevitável. Este ocorreu antes do previsto, por ocasião do convite da Universidade Católica Notre Dame ao presidente, para conceder-lhe o título de doutor honoris causa. Invocando o ativismo abortista de Obama, católicos pediram ao reitor — sacerdote católico — o cancelamento do ato. Cerca de 80 bispos deploraram de público o convite. Estranhamente, porém, Obama sentiu-se apoiado pela cúpula da Conferência Episcopal americana, por gestos encorajadores do Núncio Apostólico e do jornal “L'Osservatore Romano”. No dia da visita, três mil estudantes pró-vida manifestaram-se contra o presidente, e alguns deles foram presos. Obama levou seu título, mas obteve uma “vitória de Pirro” que precipitou o decréscimo de sua popularidade.

Em setembro realizou-se em Washington uma imensa manifestação de protesto contra o aumento dos impostos e dos controles federais, na data patriótica do Tea party. As críticas dos setores conservadores foram acaloradas. A rede Fox News saiu na frente com os ataques. A Casa Branca revidou “declarando-lhe guerra”, ao que a rede replicou apresentando um mapa de seu prédio sendo assediado por tanques. Glenn Beck, popular âncora da mencionada rede, bateu continuamente na tecla de que o “presidente é um radical revolucionário comunista”.14 Sob a presidência de Obama, a oposicionista Fox News tornou-se a TV nos EUA de maior audiência, enquanto a esquerdista “CNN caiu para o último lugar entre os canais de notícia”.15

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