Janeiro de 2010
 
Alimentos aprimorados, uma receita para a caridade
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Gastronomia

Alimentos aprimorados,
uma receita para a caridade

Nelson Ribeiro Fragelli

 

Tornou-se comum ouvir, até mesmo em família, a seguinte exclamação: “Cozinha?! É coisa do passado! Foi-se o tempo das manhãs trabalhosas junto ao fogão, preparando pratos rebuscados. A simplificação se impõe, os minutos são preciosos”. Propagou-se a idéia de que o esmero das refeições, a seleção de receitas, a busca dos ingredientes, e ainda mais a preparação dos pratos, são desvelos inúteis.

Essa opinião é prejudicial a todos, não toma em consideração que a boa cozinha denota a dedicação e o afeto indispensáveis para manter a união da família. Pais e filhos se consideram estimados ao notar o cuidado no preparo dos pratos. As refeições criam um ambiente capaz de influenciar as relações pessoais, e São Francisco de Sales dizia que as refeições favorecem a condescendência que nós cristãos devemos ter uns com os outros. 

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A mesa é um fiel espelho no qual se reflete o carinho da esposa e mãe. Um de meus amigos, Pedro Luiz, casou-se tarde, já próximo dos 40 anos. Enquanto solteiro, residia com a mãe, e ela lhe preparava o lanche a ser servido no escritório onde trabalhava. A cada dia ele tinha sanduíches diferentes, bem amanteigados, consumidos com sucos de frutas frescas. Ela mesma fazia biscoitos ou bolos para a sobremesa do filho. Da garrafa térmica, os colegas sentiam o odor de bom café. Copo, xícara e talheres acomodados numa caixinha de couro, tudo envolto num grande guardanapo de linho branco, imaculado, que lhe servia de toalha de mesa. Nenhum colega tinha algo semelhante. Eles comiam seus sanduíches embrulhados em papel comum e tomavam café em copos plásticos, mas viam com delícias Pedro Luiz tomar sua rápida refeição.

Entretanto, a partir de certo dia Pedro Luiz passou a retirar de um saco plástico sanduíches comprados num supermercado. Como sobremesa, um tablete de chocolate. Seu café passou a ser o da máquina do escritório. E assim se passaram três, cinco dias, com Pedro Luiz calado mastigando sua vulgar merenda. Lá pelo quinto dia, um dos colegas lhe perguntou:

Não, ainda não. A mãe passava dez dias no hospital, em cura de reumatismo.

Eis como uma simples refeição porta uma mensagem. De atenção ou de desafeto. Os colegas de Pedro Luiz a perceberam, e explicitaram uma triste realidade atual: freqüentemente certas esposas, mesmo diligentes, negligenciam os cuidados com a mesa.

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Abadia de Cluny

Enganam-se os que acham que a Igreja, para evitar a gula, tomou o partido do jejum e da abstinência como regra geral da sociedade. Justos e necessários nos tempos e condições próprios a ele destinados, desde os primeiros séculos a Igreja favoreceu, no entanto, a elaboração de receitas como fator de aprimoramento dos povos.

O cristianismo beneficiou todas as artes. Sob sua influência a arquitetura atingiu, com o gótico, esplendores nunca vistos pelo mundo antigo. A pintura com o Beato Fra Angélico, e a música com o canto gregoriano, chegaram às mais altas expressões do sublime. Assim também se deu com a arte culinária, que teve seu grande desenvolvimento nos mosteiros e abadias.

Os beneditinos da abadia de Cluny, na Borgonha, tomaram a si o dever de criar receitas para o preparo de peixes, ovos e verduras (abstinham-se de carne). A cada dia era servido no grande refeitório dos monges um menu diferente, o que os obrigou a refletir sobre sabores e possibilidades alimentares, saindo assim do primitivismo em que se encontrava a culinária pagã. De Cluny datam os primeiros livros de receita, destinados à educação dos povos ainda impregnados de barbárie.

Ao penetrar os segredos gustativos da Criação, os monges sabiam que seus bons pratos, ao agradar o corpo, suscitariam virtudes da alma. Tinham em vista os deleites do maná, dado milagrosamente aos judeus no deserto, quando se dirigiam à Terra Prometida. Especulavam sobre a excelência do vinho oferecido por Nosso Senhor Jesus Cristo nas bodas de Caná: Deus não manifestava assim o desejo de que os homens também procurassem refinados sabores? Não despertariam assim nas almas movimentos virtuosos, análogos às sensações gustativas do paladar.

“Deus estabeleceu misteriosas e admiráveis relações entre certas formas, cores, sons, perfumes, sabores e certos estados de alma. As artes podem influenciar de modo intenso as mentalidades”. Este pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira, em Revolução e Contra-Revolução, foi por ele repetido e desenvolvido em inúmeras conferências e na intimidade com seus amigos.

 
São Gregório VII

Na Idade Média — época por excelência católica — havia nas abadias o costume dos grandes banquetes. Soberanos e monges (estes, em grande parte, vinham da nobreza) repartiam assim dons de Deus elaborados pelo bom gosto. A sacralidade dos ritos das refeições levava à união espiritual, apaziguando os ânimos e diminuindo as querelas. Os monges elaboravam delícias por dever de caridade, e com elas uma etiqueta, e com a etiqueta a elevação dos costumes. A conversa e a cortesia se aperfeiçoavam. Formavam-se gradualmente nesse convívio os ritos da sociedade civil, que fizeram da Europa um modelo de civilização. Não é essa a mais alta finalidade da refeição? 

Os grandes abades de Cluny — Santo Odon, Santo Odilon, São Mayeul — tiveram grandes cozinheiros. Santo Tomás de Aquino era apreciador de bons pratos e os consumia com entusiasmo. São Gregório VII prezava receitas aprimoradas. São Pio V tinha um cozinheiro de renome, Bartolomeo Scappi, que deixou receitas culinárias em conceituado livro.

Quase todas as heresias, sob pretexto de opor-se à gula e promover a austeridade, combateram a qualidade de pratos “aos quais a Igreja dera uma alma”. Lutero, embora notório glutão, foi dos mais demolidores nesse sentido.

 

Em sua excelente obra Gastronomie française, Jean-Robert Pitte mostra como “a tendência sensual de Lutero não impediu a Reforma Protestante — e ainda mais a calvinista — de optar pela austeridade. Para compreendê-lo, é necessário relacionar a atitude moral dos protestantes com a negação feita do Sacramento da Confissão, que os obriga a viver em sobressalto, mantendo seus adeptos em constante inquietação”. É surpreendente, embora verossímil, pois a inquietação causada pela recusa do Sacramento da Confissão, e conseqüentemente a falta da certeza quanto ao perdão, leva o protestante a procurar uma falsa austeridade, renunciando a um prazer não só lícito mas necessário à elevação espiritual, tal como uma boa mesa.

No filme A festa de Babette, premiado em Cannes em 1987, encontra-se um exemplo simbólico dos males causados pelo protestantismo à culinária cristã — e em conseqüência, ao convívio social.  

A evolução dessa atitude pessimista dos protestantes resultou em nossos dias na comida enlatada ou em pó, na proliferação dos MacDonalds e no fast food. O preparo dos pratos deixa de ter em vista as almas e o convívio humano, tornando-se alimentação em massa. Abandona-se o forno e o fogão e adota-se a linha de montagem alimentícia, à moda das grandes fábricas. É um tipo de alimentação que representa o triunfo da matéria sobre o espírito.

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Conta-se que um francês, afeiçoado à mesa, perguntou a um amigo se ele desejava comer algo. Este lhe respondeu: “Não, não tenho fome”. Ao que o francês replicou: “Mas você só come quando tem fome?”. A concepção de muitos franceses, segundo a qual o bom prato alimenta sobretudo o convívio das almas, tem muito de verdadeira. Com o fast food as formas de respeito pela dignidade do próximo tendem a desaparecer.

Embora pareça paradoxal, aqueles que, sem necessidade, preferem este tipo de refeição podem cometer o pecado atribuído aos glutões, que ao comer pensam apenas em satisfazer apetências do corpo. Com o fast food, comete-se o pecado dos glutões sem ter comido.

Certa vez, uma família de minhas relações recebia um velho e caro amigo vindo de longe, e a quem há muito não via. Esse amigo tinha especial preferência por pato com ameixas, e com este prato a família o aguardou. Momentos antes da refeição, alguém teve um sobressalto: “Estamos na Quaresma, tempo de abstinência!”. Inquieto, sem outra comida para oferecer dignamente ao amigo, o chefe de família consultou um cônego da catedral. Constatado o engano, e tendo em vista as circunstâncias, respondeu o velho sacerdote com toda segurança: “Sirvam o pato. A caridade passa, neste caso, adiante do sacrifício. A penitência deve ser feita por cada um, mas não imposta a outros”.

A boa cozinha e a mesa dignamente servida são preceitos de caridade cristã.

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