Estirpes familiares — III
A concórdia da aldeia - Jean-Baptiste Greuse (1761) - Museu do Louvre, Paris
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Na organização da sociedade familiar, deve-se ter como ponto de referência os valores do passado. E não o rompimento com as tradições, como apregoam certos adoradores da modernidade.
Em prosseguimento à série de artigos desta seção, apresentamos a seguir trechos da terceira e última parte da conferência de Plinio Corrêa de Oliveira sobre o conceito de estipe familiar, proferida em 1º-6-1966; seu papel na formação dos membros de uma família; sua independência em relação ao Estado; sua contribuição para a origem de um povo e sua missão histórica na constituição de um país.
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“Se houver numa família caracteres bem definidos, espraiando-se numa parentela muito remota, mas muito unida, em que todos tenham a sensação viva de serem membros da mesma família, cada membro será amparado por um grupo social independente do Estado. A família é uma potência, um todo; ela se move independente do Estado, constitui uma célula com a qual o Estado tem que contar; seus membros não dependem de IAPAS [Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social] ou de quaisquer outros órgãos de assistência social; se empobrecerem, a família ajuda-los-á; os parentes constituem o meio de suas relações, que lhes asseguram uma posição social, independente da maneira de se trajarem.
Em relação a instituições desta natureza, o Estado tem um poder muito limitado: se alguém nasceu em determinada estirpe, o Estado não a pode promover muito além disto. Uma estirpe definida é o fator da própria independência do indivíduo; cria uma barreira contra o Estado.
A família na historicidade de um país
Uma sociedade repleta de estirpes é aquela em que há grupos sociais muito importantes, que o Estado deve a todo momento tomar em consideração. Uma sociedade sem estirpes, onde só há parentescos vagos e as famílias se desbotam, é caracteristicamente a sociedade de hoje. Na organização feudal e medieval, a matéria-prima eram as estirpes. São um, dois, dez séculos de continuidade histórica realizada por essas estirpes.
É preciso notar que os historiadores são concordes em afirmar a existência de obras que precisam ser levadas a cabo por várias gerações: a fundação de certos países, o desenvolvimento de determinada política, a criação de certas fontes de prosperidade. A instituição que, de direito natural, assegura a realização da obra histórica através das gerações, é a família.
É a estirpe que faz com que, ao longo das gerações, uma dinastia realize uma obra, uma família de sineiros aperfeiçoe certo tipo de sinos, uma família de viticultores chegue a produzir um vinho excelente, ou uma de professores apure um sistema didático incomparável. São obras de gerações, e são as obras mais profundas da História. De direito natural, devem ser desenvolvidas por estirpes.
Punição ou recompensa às famílias ainda nesta Terra
Os homens, sendo eternos — no sentido da imortalidade da alma humana —, serão julgados na vida eterna; mas as nações, não o sendo, receberão prêmio ou castigo ainda nesta Terra. O mesmo se dá com as famílias: como tais, não se salvam nem se perdem; têm a recompensa de suas qualidades ou a punição de seus defeitos mesmo nesta Terra. Certas famílias terão até seu anjo da guarda próprio.
Este é o mistério de que nos fala muitas vezes a Sagrada Escritura: famílias que são chamadas a uma certa missão, recusam e saem do cenário histórico; outras, que correspondem à graça, começam a florescer e Deus faz nascer delas homens inteligentes, capazes, ilustres.
Não quer isto dizer que cada família que empobreça, isto sucede como punição; mas de um modo geral, pode-se dizer que a ascensão ou decadência das famílias está relacionada com o uso que tenham feito das graças divinas.
Um homem, pois, assegura a continuidade e ascensão de sua estirpe, praticando atos de virtude que se somam, como que numa balança, aqui na Terra. O bem de um avô recairá sobre o neto. E muitas vezes a punição de um acaba caindo sobre o descendente(*). Tal é a continuidade da família, que a sua balança na justiça divina é uma só.
A família moderna vive na anticonaturalidade
Uma das razões do tédio da vida de família hodierna consiste no fato de, muitas vezes, serem famílias frustradas; as personalidades e a conversa também o são; e uma das frustrações — quanta maldição daí provém! — é que nem todos os filhos nasceram [devido a abortos, controle artificial da natalidade etc.].
Numa família do Ancien Régime(**) — nobre ou plebéia, porque todas são miniaturas umas das outras, desde a família do rei até a do mais pobre — todos pensam e sentem do mesmo modo, todos se querem, a prole é fecunda, a família existe efetivamente. Se vão passear juntos, é porque lhes é conatural estarem uns com os outros. Com a atual decadência das famílias, isto tudo já não mais se dá. Se elas fossem estirpes, todos sentiriam tal conaturalidade; cada comentário feito por um repercutiria em todos de um modo agradável; seria uma espécie de sinfonia. Hoje é uma cacofonia pobre, com poucos instrumentos e dissonantes, porque quase não são mais sonantes!”
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Notas da Redação:
(*) A esse respeito, diz a Sagrada Escritura: “Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20, 5-6).
(**) Antigo Regime: Denominação francesa para a época histórica iniciada com o Renascimento, e que se estende até a Revolução Francesa de 1789.
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A força da tradição
“O sopro impetuoso dos novos tempos arrasta na sua voragem as tradições do passado. Mas, com isso, vem mostrar mais claramente o que está destinado a cair como folhas mortas, e o que, pelo contrário, pela força da sua vida interna, tende a manter-se e a consolidar-se”.
(Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, 11-1-1951, p. 423).