Setembro de 2003
 
Espiritualidade admirável
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Discernindo, comentando, agindo

Espiritualidade admirável

Sóror Catarina de Jesus Maria Herrera, religiosa dominicana (1717-1795), escreveu sua autobiografia por ordem de sua Priora. O texto começou a circular após sua morte, sendo muito apreciado mesmo por altos eclesiásticos. Trechos escolhidos dela comunicam um pouco do perfume que se desprende dessa alma eleita.

Cid Alencastro

Fachada da igreja do Mosteiro de Santa Catarina
A grande Santa Teresa de Ávila dizia que a humildade é a verdade. Parafraseando-a, poderíamos dizer também que a verdade é a humildade. Ou seja, quem quiser, de fato, colocar-se diante da verdade e olhá-la de frente, tem que necessariamente assumir uma postura de humildade.

Nós, humanos, somos tão pequenos diante de Deus, tão carregados de más inclinações, tão necessitados da misericórdia divina, que a posição de humildade é a que naturalmente nos convém. Não se trata evidentemente de falsos arroubos nem de sentimentalismos deslocados, mas sim da verdade vista com lucidez, calma e ponderação.

Quarto de Sor Catarina de Jesus, no Mosteiro
Essa reversibilidade entre a verdade e a humildade — que tanto caracteriza a figura, entretanto tão exponencial, de Plinio Corrêa de Oliveira — foi o que especialmente me encantou ao ler a autobiografia da freira equatoriana Catarina de Jesús Maria Herrera (*).  Sua autobiografia não deixa margem à dúvida de que ela foi santa, embora falte ainda sobre isso o juízo da Santa Igreja.

Tenho tratado nesta coluna de assuntos culturais, sociais, políticos, históricos e outros; convém que me detenha hoje sobre esse tema de espiritualidade católica. Deixo a palavra a Sor Catarina, em cujos escritos ela se dirige a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Recordações da infância

Ainda muito menina “eu acreditava que todos os que pecavam, o faziam por ignorância ou erro, embora soubesse, Senhor, que Vos ofendiam. E por isso me esforçava junto a algumas pessoas para adverti-las de que Vos ofendiam gravemente, para que abandonassem seus erros. Até que uma delas me revelou que ela, quando pecava, sabia muito bem que Vos ofendia, e que por isso deveria ir para o inferno; e que com toda determinação queria o pecado; e que do mesmo modo agiam os demais pecadores com quem ela tratava e se reunia. [...] Ah, Senhor, que punhaladas serão estas para o vosso Coração, que ama os homens, se já a mim, vil criatura, me causou tanta dor ouvir e saber isto, que os homens se lançam e precipitam no inferno porque querem!” (p. 23).

Vista panorâmica de Quito.
“Meus pais me haviam advertido a que não brincasse nem me juntasse com meninos. E neste ponto, Senhor, me ajudastes a que eu tomasse muito cuidado, dando-me ódio e desagrado a tudo aquilo que eu sabia que era imoral. Por isso, dizendo-me um menino da vizinhança, de sete anos — creio que eu tinha menos idade do que ele — umas palavras não decentes, eu sofri muito e pareceu-me que ele não haveria de ser boa pessoa quando crescesse. Então eu me aproximava do altar normalmente, a pedir-Vos, Senhor, que lhe tirásseis a vida sendo ainda criança. E a mesma coisa eu pedia a vossa Mãe e ao meu Pai Santo Antonio de Pádua. [...] E um dia em que com mais fervor Vos pedia eu por este menino, no dia seguinte ele amanheceu com uma enfermidade mortal. Sua mãe tomou as providências para que ele dispusesse bem sua alma, e ele morreu. E eu, vendo tão especial favor, com espanto e susto me aproximava do altar para agradecer-Vos o benefício de lhe haverdes tirado a vida” (pp. 25/6).

Provações

“Comecei a faltar a minhas devoções ou rezá-las com pouca devoção, entretida numa vida ociosa, cheia de mil erros. Se Vós não tivésseis tido pena de mim, aonde teria ido parar isto, meu Deus, senão em ir-me precipitando, até perder-Vos e cair no inferno? [...] Somente quem conhece Vossa bondade poderá crer que, em meio a tantos erros em que eu vivia, me colocastes por intercessora a vossa Mãe Santíssima.[...] Somente por uma parte do Rosário que eu rezei com devoção, meditando os mistérios dolorosos, estando já perdida naquela idade, alcancei de Vós, Senhor, que me tivésseis tirado de meus erros” (pp. 30/1).

Depois dos 12 anos de idade, “rezava-se o Rosário em casa, com a família, e antes o Ato de Contrição. E ao dizer-Vos: ‘Senhor, proponho emendar-me, nunca pecar e fugir das ocasiões’, sentia um aperto no coração: eu estou, com esta palavra, enganando a Deus, pois aquilo que eu  prometo, não o cumpro.[...] Repentinamente vi com os olhos da alma que aparecíeis junto aos Céus. Vós, Senhor, Vós meu Deus, em vossa própria Humanidade e Grandeza. Com um rosto divino e afável, me dizíeis com os braços abertos: ‘Até quando, filha, até quando! Olha que te espero afavelmente. Vem já, sem demoras. Olha que ambos os braços são para ti de misericórdia; agora Me vês benigno, não queiras ver-Me rigoroso’. [...] Com o tempo e passatempos, a lembrança da visão foi se apagando, e até me esqueci. [...] Então aparecestes à minha alma como na primeira vez, mas não tão pacífico: com o braço do coração me chamáveis, e na mão direita tínheis uma espada de Justiça. Vosso rosto representava ao mesmo tempo Justiça e Misericórdia. Falastes à minha alma deste modo: ‘Alma ingrata! Se te negas ao apelo deste braço de misericórdia, queres que com este outro, de minha justiça, te lance aos abismos do inferno?’. [...] E logo me fizestes ver com os olhos da alma um caos profundo de confusão, onde habitam as almas que a Deus perdem” (pp. 31/2).

Rosário: proteção à pureza

Já adolescente, querendo Catarina consagrar-se a Deus, segundo o costume da época, foi levada por um irmão, da fazenda onde morava à cidade, para receber o hábito. Mas tendo seu irmão outros negócios, deixou-a acompanhada por um parente, o qual nutria más intenções. Conta ela: “Estes mesmos parentes queriam-me pôr em perigos de perder a minha alma, não fosse o fato de Vós, Senhor, me terdes dado tanto horror e desprezo a tudo quanto eu sabia que era contra a pureza e a castidade.[...] O meio pelo qual me iluminastes, Senhor, foi o de deter este importuno de Satanás, fazendo com que antes rezássemos o Rosário. E rezei tantos quantos foram necessários para livrar-me de ofender-Vos. E por aquele momento, talvez porque rezei e o fiz rezar o Rosário de vossa Mãe Santíssima, deveis ter-lhe mudado o coração, de modo a que esperasse. Depois se arrependeu, quando se viu sem ocasião. [...] A este foi decretado, desde então, uma morte repentina pelo atrevimento que teve, sabendo da finalidade pela qual eu ia à cidade. E assim, sucedeu que o encontraram morto na cama de seu pecado, na qual bom e são se havia deitado, deixando muito duvidosa sua salvação” (pp. 36/7).

Sor Catarina diz que o primeiro convento em que esteve era muito relaxado e as freiras se entretinham longamente a sós com visitantes. Ela então assumiu as funções de acompanhante: “Não fazia outra coisa senão acompanhar os visitantes e ficar à vista” durante as conversas deles com as freiras. “Só por isso, certa vez um deles arrancou um punhal contra mim. Se um outro não o impedisse, me teria tirado a vida.[...] E havendo nesse tempo uma Superiora pacífica, ela se pôs a favor da culpada, acreditando no que ela dizia  e duvidando da verdade.[...] Mas Vós, Senhor, destes a este homem tão cruel dor no braço com que brandiu o punhal, que foi parar no hospital, com terríveis dores e arreganhos.[...] Ali gastou toda sua fortuna, e já desfalecia. Enviava-me um religioso quase todos os dias, para que me pedisse perdão em seu nome.[...] Eu lhe mandava dizer que já o tinha perdoado, mas que a ofensa tinha sido mais a Deus e à Ordem Religiosa do que a mim; que prometesse a Deus não voltar a pôr os pés no Convento. Assim o fez, e logo melhorou. Empobrecido, foi-se para sua terra” (p. 75).

*     *     *

No próximo artigo, prometo ao leitor mais alguns excertos dessa admirável vida.

_______

(*) O volume que tenho em mãos (Autobiografia, Editora Santo Domingo, 1954, Quito, 580 pp.) reproduz a edição promovida por Frei Alfonso A. Jerver, O.P., em 1950, em obediência à determinação do Revmo. Padre Visitador Geral, Frei Francisco Vázquez Fernández, O. P.

 

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