Fevereiro de 2010
Uma revolução musical, mas silenciosa
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MÚSICA

Uma revolução musical, mas silenciosa

 

  • Caio Vidigal Xavier da Silveira

 

Há revoluções que chocam e provocam reações: a Revolução Francesa, a russa ou a de maio de 68. Outras são assimiladas sem que ninguém perceba.

Dentre estas últimas, uma revolução sorrateira ataca a música erudita sem que as pessoas notem: a moda aparentemente simpática de tocar um instrumento “como se tocava no tempo de Bach”. Nas capas dos CDs encontra-se freqüentemente, para cativar o comprador, a frase “tocado com instrumentos da época”.

 

O que há por trás?

O movimento impropriamente chamado “baroque” surgiu no início dos anos 70. Desenvolvendo-se simultaneamente com o movimento hippie, contaminou-se com a moda das viagens e a mania de buscar outros “valores”. Os baroqueux (denominação pejorativa lançada contra os partidários dessa corrente na França) são, em todo caso, filhos da revolução de maio de 1968.1 Como prova disso, o próprio “Le Monde” comenta que, num dos encontros preferidos dos baroqueux -- o Festival de Saintes, no sudoeste da França-- há “dois cantores e um maestro que chegam de bicicleta para o concerto, é só em Saintes que se vê isso. Um festival no qual, em vez dos tradicionais broches, distribuem-se preservativos — só mesmo entre os baroqueuxpode-se fazer isso sem causar espécie”.2

 

Escola revolucionária?

Alain Corneau
Em sua origem, é um movimento de rebelião, de libertação, segundo Alain Corneau. A facção baroqueuse torna-se um verdadeiro partido político musical, conforme a avaliação de Ivan Alexandre, um dos corifeus dos baroqueux. Uma corrente de pensamento, acrescenta ele, está metamorfoseando a nossa vida artística, a ponto de mudar a fisionomia e o uso da arte.

Pronunciam-se os nomes de seus fundadores — Nikolas Harnoncourt, Gustav Leonhardt — do mesmo modo como outros diziam Maximilien de Robespierre, Danton ou Saint-Just”.3

Eis por que os anti-baroqueux se alarmam: “A música erudita do Ocidente sofreu, no fim do século XX, a mais grave crise moral que ela jamais conheceu. Ela está ameaçada tanto na sua identidade quanto na sua legitimidade, e mais cedo ou mais tarde na sua própria existência”.

 

Fundamentos dessa revolução

         Ivan Alexandre é formal: os baroqueux constituem um “movimento baseado no questionamento do progresso na arte”.4 A música pode ser acessoriamente bela, mas o importante é que seja verdadeira, diz ele concordando com Nikolas Harnoncourt, cuja divisa é: “A verdade antes que a beleza”.5Já não se trata de uma questão de estética, mas de ética.

A arte não é, pois, a expressão de um ideal estético pelas obras do homem, nem um modo de expressão da beleza. Para os baroqueux, “consiste não em seduzir, persuadir, produzir emoção, mas antes em surpreender, desestabilizar; não para buscar o ‘belo’, mas sim o ‘verdadeiro’, segundo as diretrizes de Nikolas Harnoncourt. Ele só e seus afilhados é que conhecem os critérios dessa ‘verdade’”.

Por trás dos “sons de outrora” — dos instrumentos ditos de época, que os baroqueux promovem — escondem-se na realidade um fraseado e uma articulação dos instrumentos, sobretudo os de corda, compostos de horríveis “miados de gato” ou “choramingos”. A feiúra tomou conta do poder! A prova? Há baroqueux que tocam instrumentos modernos, mas os atrozes “miados de gato” estão presentes. Conclusão: instrumentos de época = mentira; timbres de época = mentira. “Miados de gato”, esta sim, é a verdade.

Outra prova? Os baroqueux vão muito além do barroco, invadiram o período clássico — Mozart e Haydn, o século XIX, Schubert e Mahler. Hoje tocam até mesmo... Stravinsky! Com instrumentos “de época”? Ora! Com os mesmos “miados de gato” de instrumentos modernos, isso sim!

Mas as músicas que eles executam são belas, pode-se objetar. É evidente, trata-se de Vivaldi, Bach! Elas podem acessoriamente ser belas. Mesmo se interpretadas por baroqueux, a partitura será sempre a de um Vivaldi. Bela, portanto, a partitura!

Paul Hindemith (1895-1963) foi quem, com alguma antecipação, viu com clareza: “Às execuções musicais em geral irrepreensíveis historicamente, mas pobres em expressão é preferível uma reconstituição errônea historicamente, mas que seja musicalmente viva”.6

 

Miserabilismo na arte musical

À esquerda o conjunto musical I Musici e a capa da versão das Quatro Estações de Vivaldi interpretada por eles
Na verdade, os baroqueux são os ecologistas da música. Contra o progresso, eles querem uma música frugal, ascética, “adaptada à época”. Falso! A Orquestra de Mannheim, fonte batismal da música clássica, contava com mais de 80 músicos. No entanto, os baroqueux abominam as orquestras sinfônicas, os grandes corais. Existem até os que, nas pegadas de Joshua Rifkin, não executam uma Paixão de Bachsenão com um artista por partitura, tanto na orquestra como no coro! Assemelham-se aos espartanos! O objetivo é o “verdadeiro”, e o “verdadeiro” encontra-se no despojamento mais completo. Quanto mais despojado, mais “puro”.

Miserabilista? A palavra de ordem é ser primitivo. O momento preciso em que os instrumentos atingiram sua perfeição é quando foram inventados, dizem eles. Todos os progressos posteriores devem, pois, ser banidos. Isso faz parte integrante do que denominam “princípio da autenticidade”. Conseqüência: Fora com a clarineta, que se volte à clarineta pastoril! Fora com a flauta transversal, retorne-se à flauta doce! Que se elimine o piano, volte-se ao cravo, ao virginal e às espinetas! Fora com os trompetes, cornos e trompas com registros (invenção do século XIX), regresse-se aos instrumentos de metal ditos naturais, todos soando terrivelmente desafinados, mas “naturais”, “originais”! Fora com todos os instrumentos do século XIX! Em suma: Fora com o progresso!

Filhos de maio de 68, os baroqueux têm incansavelmente como objetivo contestar os modelos estabelecidos e derrocá-los. Para isso eles se põem em estado de permanente agitação, a ponto de tornarem esta uma de suas características. É preciso tocar de modo acelerado, vivace, alegre, até brusco; é necessário surpreender, perturbar. É então que surge o inimigo número um dos baroqueux: a metafísica, por eles proscrita. É por isso que, se fosse preciso uma só palavra para caracterizá-los, poder-se-ia dizer que são superexcitados. Um exemplo? Comparem-se as tradicionais Quatro Estações executadas pelo I Musici e a versão do baroqueux Fábio Biondi. Para o seu conjunto Europa Galante, oOutono de Vivaldi é um devastador dilúvio-terremoto ornado com “miados de gato”. Aonde foi parar a doce musicalidade do I Musici?

Os baroqueux votam uma animosidade particular ao que é transcendente. A música é reduzida a um ludus, uma diversão, um contínuo divertimento. Toda visão religiosa é banida, toda dimensão transcendente expulsa. Jed Wentz, flautista baroqueux do Musica Antica Köln, pragueja de modo ultra-eloqüente contra “os flautistas que tratam Bach com um respeito que toca ao temor religioso e a uma abordagem reverencial de sua música”.

Em poucas palavras, é todo um programa.

 

 

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Notas :

1 - Cfr. “Le Monde”, Paris, 13-7-93.

2 - Idem, ibidem.

3 - Idem, 21-9-95.

4- - Le Guide de la musique baroque.

5 - Ivan Alexandre, Diapason, janeiro-09.

6 - “Le Monde”, 1-8-93.

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