Fevereiro de 2010
Jesus nasceu pobre numa simples gruta ou estábulo?
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A Palavra do Sacerdote

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta — Gostaria que me explicasse por que a revista apresenta em sua capa [edição de dezembro/2009] uma foto de presépio que vai contra a história real: Jesus nasceu pobre numa simples gruta ou estábulo. A capa da revista, com os personagens em vestimentas chiquérrimas, inclusive Maria apresentada como uma rainha (eu sei que ela é rainha), mas não é assim que a Bíblia fala. A Bíblia fala que eram pobres, São José um carpinteiro. Esse modo de a revista católica representar o presépio não contraria a Bíblia? Poderia me explicar isso que eu não estou entendendo?

Resposta — A cena que Catolicismo apresenta em sua capa do mês de dezembro não é propriamente da gruta ou estábulo de Belém, mas da Adoração dos Reis Magos, que se deu algum tempo depois, em uma casa na mesma cidade, para onde a Sagrada Família já se tinha transladado, conforme se lê no Evangelho de São Mateus (cfr. cap. 2,11). Mas isto não importa em nenhuma crítica à redação da pergunta do missivista, posto que nossos presépios, por justificável simplificação, fundem tradicionalmente as duas cenas. Até poderia ele ter acrescentado, ao porte real de Nossa Senhora e à riqueza de suas vestes, o átrio apalaciado da casa onde São José instalara a Sagrada Família, segundo a pintura de Jan Gossaert (Mabuse), do século XVI, com que Catolicismo ilustrou sua edição de Natal [foto abaixo]. Evidentemente não haveria nenhuma casa apalaciada desse tipo na Belém do Ano I de nossa era.

Trata-se de explicar por que os artistas procediam assim, distanciando-se da parvidade de recursos que a narrativa evangélica nos descreve. Convém ponderar, isto sim, que São José tinha uma profissão digna, que lhe permitia garantir com sobriedade o sustento da Sagrada Família. Pobre, sim, no sentido que hoje muitos dão à palavra; porém, não um miserável, embora o Filho de Deus, em sua carreira apostólica, tenha depois optado pela mais extrema pobreza, não tendo sequer onde reclinar sua cabeça (cfr. Mt 8,20). Mas aqui já entram outras considerações, que nos afastariam da resposta que nos pede o leitor. Atenhamo-nos, pois, à sua pergunta.

Olhos incapazes de ver o sobrenatural

Quantas, dentre as pessoas que conviveram com Nosso Senhor e Nossa Senhora, tiveram olhos para discernir quem eram eles? Jesus Cristo era conhecido como o filho do carpinteiro, e sua Santíssima Mãe era tratada como uma mãe entre as outras: “Porventura não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos [primos] Tiago e José e Simão e Judas? E suas irmãs [primas] não vivem todas entre nós? Donde vem, pois, a este todas estas coisas? E escandalizavam-se dele” (Mt 13,55-57). E chegou a ser tido por louco, a ponto de congregarem sua família para dissuadi-lo de continuar pregando suas doutrinas e a vida que levava (cfr. Mc 3,21). Assim, até seus mais próximos não conseguiram discernir n’Ele uma pessoa fora do comum. 

Por que se dava isso? Sem dúvida, Nosso Senhor velava no dia-a-dia todo o resplendor que uma vez manifestou na montanha da Transfiguração, e que deixou Pedro, Tiago e João maravilhados. Estes não poderiam ter discernido isso antes? É verdade que eles seguiram a Cristo, vendo nele o Messias, e São Pedro fez aquela confissão célebre, inspirada pelo Espírito Santo: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Mas se tivessem olhos para ver habitualmente o sobrenatural — e, mais do que tudo, o divino — todo o seu trato com Nosso Senhor teria sido muito mais elevado!

Ora, esse é um fenômeno que afeta, com intensidades diferentes, a imensíssima maioria dos filhos de Eva. Com uma peculiaridade: os maus costumam ter uma capacidade de discernimento do bem maior do que os bons. Em outras palavras, por terem aderido ao mal, os maus logo detectam, de um lado, quem é como eles; de outro lado, quem não é como eles; e odeiam o bem que há nos bons.

Observou-o São João Bosco. Dizia ele que num colégio, quando entrava um menino mau, no mesmo dia, ou ao mais tardar no dia seguinte, já tinha ele se juntado com algum outro aluno ruim que havia no colégio.

Nos bons, há como que escamas nos olhos que freqüentemente provocam uma falta de perspicácia para ver o mal nos maus, bem com diminuem sua capacidade de ver o bem nos bons.

A Sagrada Bíblia registra alguns casos excepcionais. Foi por uma graça especial do Divino Espírito Santo que o profeta Simeão se dirigiu ao Templo no dia da Apresentação de Nosso Senhor. Tomando-o então dos braços de Nossa Senhora, fez a sua bela profecia sobre a acolhida que o Messias teria entre os seus conterrâneos: seria um sinal de contradição, posto para a ruína e ressurreição de muitos em Israel, e uma espada de dor atravessaria a alma de sua Mãe, a fim de que se revelassem os pensamentos ocultos dos corações (cfr. Lc 2, 34-35). Também a profetisa Ana soube discernir naquele Menino o Messias que ela, já octogenária, aguardara desde a juventude (cfr. Lc 2,36-38).

Mais tarde, São João Batista, negando que fosse ele próprio o Messias, declarou solenemente que não era digno de desatar a sandália de seus pés (cfr. Mt 3,11; Lc 3,16).

A arte cristã ajuda a superar nossa cegueira

Voltando à cena do presépio, hoje sabemos que aquele Menino era o Verbo de Deus feito homem, e sua Mãe a Rainha do Universo. Mas se estivéssemos lá, teríamos sabido ver com nossos olhos o que a fé hoje nos ensina? Provavelmente muitos de nós não os reconheceríamos, e pensaríamos tratar-se de pessoas comuns.

Assim, a arte cristã através dos séculos, para romper essa nossa cegueira, nos apresenta os aspectos sobrenaturais da cena, que nossos olhos envidraçados não saberiam ver. Desse modo, quadros como o que Catolicismo publicou não estão, no fundo, contra o relato bíblico; pelo contrário, eles nos apresentam aquilo que a cena tem de mais profundo, e portanto de mais real.

 Não há com isso perigo de nos esquecermos que São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus — embora descendentes de família real — eram pobres e não figuravam então entre os grandes deste mundo. Mas eles eram muito mais do que isso: eram grandes aos olhos de Deus.

Lição para a nossa vida espiritual

Cabe uma aplicação para a nossa vida espiritual.

É bem conhecido o caso de Santa Teresinha do Menino Jesus,[foto abaixo que no leito de morte ouviu o comentário de duas freiras que conversavam na cozinha: “Na nota em que nossa Madre comunicará aos demais Carmelos a morte da Irmã Teresa, o que ela ressaltará de sua vida? Ela nunca fez nada que merecesse ser destacado!...”

Quer dizer, essas freiras conviveram durante alguns anos com a Irmã Teresa do Menino Jesus (ela morreu antes de completar 25 anos), e nada notaram da santidade dela. Entretanto, São Pio X declarou que a considerava a maior santa dos tempos modernos. E João Paulo II, em 1997, concedeu-lhe o título de Doutora da Igreja.

Não pode acontecer também conosco, que tenhamos vivido ou estejamos vivendo ao lado de uma grande alma, e não tenhamos sabido avaliar ou não estejamos sabendo notar a santidade dessa alma?

É tema para um profundo exame de consciência. Que escamas obscurecem a nossa visão sobrenatural? Que podemos fazer para eliminar essas escamas?

Permita-se-nos mais uma vez citar o livro, já recomendado em nossa coluna do mês de janeiro, intitulado Inocência primeva e contemplação sacral do universo no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira. Nele o leitor encontrará indicados os exercícios para subir de uma visão terrena que não vai além do que os olhos da carne nos apresentam, para uma visão superior, transcendente da realidade, que remete tudo para Deus. Pois todo o universo foi criado por Deus à sua semelhança, e o homem à sua imagem e semelhança.

Se soubermos, em nossa vida diária, praticar a contemplação sacral do universo, procurando em todas as criaturas sua imagem ou semelhança com Deus, não acontecerá de vivermos ao lado de uma Santa Teresinha e nos perguntarmos, em seu leito de morte, o que terá ela praticado de transcendente e digno de ser registrado para a posteridade.

Assim, fazem bem as revistas católicas que, através dos grandes mestres da pintura, nos apresentam o que a cena do Natal teve de mais transcendente: isto é, que o Filho de Deus se fez homem e habitou entre nós; e que houve uma criatura privilegiadíssima através da qual se operou esse Milagre dos Milagres, e a quem Deus constituiu como Rainha do Céu e da Terra!

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