Churchill Plinio Corrêa de Oliveira
A ascensão de Churchill foi em linha reta, até o zênite. As mais diversas formas de inteligência, de tino político e de coragem nele se foram patenteando e refulgindo. E cada vez mais, à medida que o iam exigindo as contingências da luta. Quando a guerra terminou, Churchill foi o mais famoso dos vencedores. A propaganda aliada apresentava-o freqüentemente ao lado dos outros dois -- Roosevelt e Stalin -- como que a querer nivelá-los. Mas o esforço foi inútil. E até contraproducente. Enquadrado entre o velho presidente ianque, de olhar comum e de inexpressivo riso-padrão, de um lado, e do outro, o sinistro ditador soviético, sob cujas sobrancelhas hirsutas faiscavam dois olhos ignaros a chispear ameaças, e sob cuja bigodeira farta e descuidada se delineavam lábios mais próprios para injuriar e beber do que para falar, a fisionomia superexpressiva de Churchill se destacava de um modo que quase se diria esplendoroso.
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Para brilhar não basta obviamente ser muito expressivo. Cumpre ademais exprimir algo que valha. Fazia-o às catadupas o velho leão inglês. Em sua calva parecia reluzir um pensar diplomático vigoroso e sutil. Seus olhos -- quanto haveria de dizer sobre eles! -- exprimiam sucessivamente fascinantes profundidades de observação, reflexão, "humour" e gentileza aristocrática. Suas largas bochechas musculosas nada perderam do vigor, com a idade. Pareciam dois contrafortes faciais, a emoldurar vigorosamente a fisionomia tão altamente intelectualizada. E davam à face um não-sei-que de decidido, estável, quase se diria de perpétuo: símbolo expressivo da força multissecular da monarquia inglesa. Seus lábios, finos e de contorno incerto, pareciam acompanhar o movimento dos olhos e, pois, sempre prontos a se abrirem para uma ironia, uma palavra de ordem, um discurso monumental... ou um charuto.
Da esquerda para a direita, na Conferência de Yalta: Churchill, Roosevelt e Stalin
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Sinto que não estaria descrevendo Churchill por inteiro, se não lhe acrescentasse um traço. Membro autêntico da "gentry" inglesa, adornado -- é bem este o termo -- com o charme varonil de um aristocrata de alta classe, em Churchill coincidiam as rutilações da cultura universitária, do talento jornalístico, da oratória parlamentar e da glória militar, com ademais, um não-sei-que de direto, positivo, desconcertantemente ativo, típicos dos "businessmen" norte-americanos da "belle-époque". É que sua mãe era uma ianque, filha de um estuante "self-made man". Conversando certa vez sobre Churchill com o arquiduque Otto de Habsburg, dele ouvi um lúcido comentário. Está na ordem das coisas -- dizia ele -- e até entre os vegetais, que de vez em quando apareçam, nesta ou naquela variedade, espécimes gigantescos. São fenômenos da natureza. Churchill foi um deles. ____________________________________________________________________ Excertos de artigo escrito pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para a "Folha de S. Paulo" em 19 de dezembro de 1977. |