Setembro de 1999
Rei Davi: Profeta-Guerreiro do Senhor
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Grandes Personagens

Rei Davi: Profeta-Guerreiro do Senhor

Dos grandes personagens do Antigo Testamento, Davi é certamente dos mais admiráveis. Pastor adolescente ainda, é ungido rei, mata Golias com sua funda. General, prudente e arrojado, poeta inspirado, profeta, grande monarca e sobretudo um Santo. De sua pena surgiu o Livro dos Salmos e de sua contrição e penitência nasceram páginas das mais belas já escritas por homem: os Salmos Penitenciais.

· José Maria dos Santos

Por sua desobediência, o rei Saul caíra no desagrado de Deus. No rigoroso sistema vigente no Antigo Testamento, outro deveria receber o cetro de Israel. O profeta Samuel é enviado por Deus a Saul, para reprovar seu procedimento e lhe dirige palavras de ouro, de muita atualidade em nossos dias: “O desobedecer é como um pecado de magia, e o não querer submeter-se, é como um crime de idolatria”. Conseqüência: “porque tu rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (I Sam 15, 22- 23).

Transmitido o terrível recado, o Profeta Samuel toma consigo óleo e um novilho para sacrificar, e se dirige à poética Belém, na tribo de Judá, a fim de ungir um dos filhos de Isaí para suceder a Saul.

Encontrar aquele que fora escolhido por Deus não foi fácil, pois Isaí apresenta-lhe sucessivamente sete filhos. Embora fossem eles bem apessoados, o Senhor rejeita-os, ensinando a Samuel que não se julga o homem só pela aparência, mas sobretudo pelo coração. “São estes todos os filhos que tendes?”, indaga Samuel. Praticamente, explica Isaí, pois restava só o caçula que estava cuidando do rebanho. “Mande-o chamar, pois não nos sentaremos à mesa antes que tenha chegado”.

Assim aparece em cena Davi: “Louro, de belos olhos, e mui formosa aparência”. O Senhor ordena a Samuel: “Levanta-te, e unge-o, porque é esse”. O profeta unge-o em frente aos pais e sete irmãos, que devem guardar segredo até momento oportuno. E “daquele dia em diante, comunicou-se o espírito do Senhor a Davi” (I Sam 6, 12-13).

O jovem Davi, sustentado por Deus, mata o gigante

Ora, nesse tempo os israelitas mantinham uma prolongada guerra contra seus eternos inimigos, os filisteus. Entre estes havia um homem bastardo, Golias, que media quase o dobro da estatura dos homens comuns. O gigante usava capacete de bronze e “couraça escamada”. Já seu aspecto inspirava terror.

Certo dia, quando os israelitas continuavam a guerra, o filisteu apareceu mais uma vez para deles zombar. Ouvindo as imprecações do pagão, Davi inflamou-se de zelo pela glória de Deus. E, com coração magnânimo e coragem indomável, confiado na ajuda do Altíssimo, resolveu enfrentá-lo. Procurou o rei e lhe disse: “Não desfaleça o coração de ninguém por causa deste filisteu; eu, teu servo, irei e combaterei contra ele” (I Sam 17, 32). Nada pôde dissuadir Davi desta empresa.

Colheu na torrente cinco pedregulhos arredondados e, com seu cajado e funda, entrou na liça onde o esperava Golias.

Golias, espada em punho, avançou, mas Davi correu e, pegando uma das pedras que colocara em seu bornal, lançou-a com a funda com tal maestria, que ela feriu o filisteu na testa, tombando-o ao solo. O adolescente precipitou-se sobre o gigante, desembainhou sua espada, e com ela cortou-lhe a cabeça. Ouviram-se gritos de júbilo do lado dos israelitas, e de terror das fileiras contrárias, seguidos da fuga em completa debandada. Os israelitas perseguiram-nos causando-lhes grande mortandade. Tudo isso vem relatado na Sagrada Escritura.

Inveja e ingratidão de Saul

Como sói acontecer, no momento da aflição Saul tinha tudo prometido a quem o livrasse do filisteu, inclusive a mão de sua filha mais velha. Mas a gratidão é uma das virtudes mais raras. Tomado de inveja pelo jovem campeão, o rei não lhe concedeu a mão de sua filha, mas passou a persegui-lo e a atentar contra sua vida.

Mais ainda, vendo que Davi era amado pelo povo e saía sempre vitorioso das campanhas, Saul pensou em fazê-lo perecer numa batalha. Para isso prometeu-lhe a mão de sua filha Micol se ele matasse, com suas próprias mãos, 100 filisteus. Davi matou 200 e casou-se com a filha do rei. Mas Saul, mesmo vendo que o Senhor estava com o genro, “durante o resto de sua vida detestou Davi”, apesar de “cada vez que os chefes dos filisteus faziam incursões, Davi era mais bem sucedido que todos os homens de Saul” (I Sam 18, 29-30)

A partir daí, Davi estará constantemente fugindo de Saul, embora nunca tenha levantado a mão contra o rei, por ter sido este ungido. O que prova a retidão de Davi. Saul acabou por se suicidar, para não cair nas mãos dos filisteus, que já lhe tinham matado três filhos e grande parte do exército (cfr. I Sam, 31, 1 a 7; I Cron 10, 1 a 6).

Esplendor do reinado de Davi e nova aliança com Deus

Quando morreu Saul, Davi dirigiu-se a Hebron, onde foi ungido rei de Judá. Enquanto isso, Abner, general de Saul, homem valente mas ambicioso, fez sagrar rei de Israel a Isboset, filho do falecido monarca. Desse modo, só a casa de Judá (ou seja, apenas uma dentre as 12 tribos de Israel) seguia Davi.

Enfim, em meio a mil vicissitudes nas quais a retidão de Davi nunca se desmentiu, Isboset e Abner foram assassinados, e a casa de Israel reconheceu a Davi e o ungiu rei de todo o povo (cfr. II Sam 1 a 5).

Davi recuperara sua primeira mulher e casou-se com outras (*), tendo delas diversos filhos. Derrotou os jebuseus da fortaleza de Sion, em Jerusalém, que reedificou dando-lhe o nome de Cidade de Davi. Com material recebido do rei de Tiro, edificou um palácio para o qual quis transportar a Arca da Aliança.

Depois disso Davi obteve vitória sobre vitória, fazendo tributários muitos povos, tendo guarnição até em Damasco, na Síria. Organizou a ordem pública no reino, e fez-se respeitado, mantendo o inimigo longe dos seus domínios.

Pecado e tocante penitência do Real Profeta

Durante uma das campanhas contra os amonitas, Davi enviou Joab, seu general, comandar as tropas, e permaneceu em Jerusalém. Ora, como a ociosidade é mãe de todos os vícios, certo dia, depois da sesta, o rei passeava pelo terraço de seu palácio sem maior preocupação. De repente viu, numa casa próxima, uma formosa mulher, Betsabé, que se banhava. Tendo a paixão subido a seu coração, mandou buscá-la, e com ela pecou, mesmo sabendo que era mulher de um suboficial que no momento expunha sua vida por ele na guerra!

Ora, Betsabé concebeu, e mandou avisar o rei. Este, para dissimular as coisas, mandou que o marido voltasse da guerra como que para pedir-lhe informações do campo de batalha, e assim coabitasse com sua mulher. Mas o bravo guerreiro não quis o conforto do lar enquanto seus companheiros passavam os perigos e as privações da guerra. Permaneceu no átrio do palácio com outros soldados sem conviver com a esposa.

A paixão cega. O até então justíssimo Davi não encontrou outra saída senão mandar que Urias, esse suboficial dedicado, fosse colocado no lugar mais perigoso da batalha, onde certamente pereceria. Foi o que sucedeu, e Davi tomou então Betsabé por esposa.

Mas, enviado por Deus, o profeta Natan apareceu diante do rei e increpou-lhe o duplo crime, depois de tantos benefícios a ele concedidos pelo Criador. Dando-se conta do pecado cometido e tocado pela graça, Davi caiu de joelhos clamando: “Pequei contra o Senhor”. Natan responde-lhe que o Senhor o perdoara, mas que, como punição, o filho desse adultério morreria (cfr. II Sam 11 e 12).

Vestido de saco, em jejum e prosternado ao solo, Davi suplicou ao Senhor durante sete dias que poupasse a vida do menino. Segundo a tradição, foi nessa ocasião que escreveu os 7 Salmos Penitenciais, obra-prima de sentimento, compunção, e verdadeira contrição. Findo esse período, o menino morreu.

Tal penitência, no entanto, foi agradável a Deus, que concedeu novo filho a Betsabé, o célebre Salomão, a quem o Senhor enviou “o profeta Natan, que deu ao menino o nome de ‘Amável ao Senhor’ porque o Senhor o amava” (id. ib. 25).

Quando suas forças diminuíram com a idade e sofrimentos, o rei quase foi morto numa batalha. Salvo pela valentia de um de seus soldados, estes suplicaram-lhe que não mais saísse em batalha “para que não se apague a lâmpada de Israel” (Id. 21, 17).

Mas essa lâmpada já tinha perdido seu primeiro fulgor. E ofuscou-se mais quando Davi atraiu de novo a cólera de Deus, ao mandar, por vaidade, recensear seu numeroso povo. Isso trouxe como conseqüência uma peste: “Eu sou o que pequei, eu fui o que procedi mal; que fizeram estes, que são as ovelhas? Volte-se, te peço, a tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai!” (id., ib. 16, 17), foi a súplica de Davi ao Senhor, a quem ofereceu sacrifícios, fazendo cessar Sua cólera.

Tendo sagrado Salomão seu sucessor, depois de muitas recomendações, o Real Profeta “morreu numa ditosa velhice cheio de dias, de bens e de glória” (I Cron 29, 28; I Reis 2, 10).

_____________________________

(*) – “A poligamia [casamento de um homem com diversas mulheres], pelo fato de que não se opõe ao fim primário do matrimônio [a procriação], pode existir por explícita dispensa divina como sucedeu no Velho Testamento [mas não a “poliandria”, casamento de uma mulher com vários homens] (cfr. Gen. 16, 2; 21, 12; Deut 21, 15)”. Tal dispensa teve por finalidade o mais rápido povoamento da Terra depois do Dilúvio e foi abolida por Nosso Senhor (Mt 19, 9; Mc 10, 11; Lc 16, 18), “que declarou que a dispensa foi dada ‘propter duritiam cordis’ (por causa da dureza do coração), enquanto que, no princípio não era assim (Mt 19, 8)”. (Enciclopedia Cattolica, Città del Vaticano, Casa Editrice G. S. Sansoni, Firenze, 1952, tomo 9, p. 1681).

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão