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São Gregório VII, Papa paradigmático
da História da Igreja
Embora esse extraordinário Pontífice
tenha sido canonizado, devendo pois, em princípio, figurar na
seção Vida de Santos, sua exponencial atuação
de tal maneira marcou a História, que é adequado
reverenciá-lo na seção Grandes Personagens
Miguel Beccar Varela
O Imperador alemão Henrique IV aos pés de São Gregório VII
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À
direita da nave central da Catedral de Salerno (século XI)
encontra-se a Capela dos Cruzados. Lá não mais
comparecem os cruzados para fazer sua vigília de armas. Sob o
altar de pedra tosca está o túmulo de São
Gregório VII. Atualmente, quem visita o local percebe ali um
ambiente de solidão, uma penumbra cheia de recolhimento,
impregnada de oração. E a recordação do
grande Papa, marco na História da Igreja e da Cristandade,
inspirador de Cruzadas, suscita admiração e enlevo nos
visitantes daquele abençoado lugar.
Da calma do mosteiro às lutas em
Roma
Hildebrando — futuro Papa São Gregório
VII — era monge na célebre abadia de Cluny, na França,
na época em que São Hugo dirigia como abade esse
extraordinário mosteiro, onde o espírito feudal
encontrou seu pleno equilíbrio católico.
Em 1049, ali foi
procurá-lo Mons. Brunon, Bispo de Toul, que havia sido nomeado
Papa por seu parente, o Imperador Henrique III. Tal método
de designação de um Papa, ainda válido então,
havia se tornado abusivo. Brunon, como Sumo Pontífice, adotou
o nome de Leão IX. Levou o monge Hildebrando consigo para Roma
e nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio
de Cardeais e administrador da Santa Igreja. Iniciava-se assim um
longo combate, de muitos anos de duração, daquele que
talvez tenha sido o maior dos Papas da História.
Filho de um pequeno
proprietário de terras, Hildebrando nasceu na diocese de
Soana, na Toscana, entre os anos de 1020 e 1025. Em 1045 entrou em
cena ao ser nomeado capelão do Papa Gregório VI. O
estado de decadência em que se encontrava a Igreja o fazia
sofrer, ao mesmo tempo que aumentava sua disposição e
seu ânimo para uma autêntica luta.
A esse propósito, assim escreveu o Abade São Hugo, de
Cluny: “Gostaria de vos tornar compreensivas as tribulações
que me acometem e os cuidados incessantes que me afligem cada vez
mais. Pedi muitas vezes ao Divino Salvador que me tirasse deste
mundo. Ou então, que me desse as graças para servir
como devo à Santa Igreja. Vendo a Igreja do Oriente separada
da Fé católica pelo espírito das trevas, sinto
uma dor que não posso exprimir e uma profunda tristeza que
invade minha alma. Procuro observar o Ocidente, o sul e o norte.
Difícil encontrar alguns sacerdotes que chegaram ao episcopado
pelas vias canônicas, levando vida conveniente e governando seu
rebanho no espírito de caridade[...]. Entre os príncipes
seculares, não conheço quem prefira a glória de
Deus à sua própria glória, a justiça ao
interesse. Romanos, lombardos e normandos, entre os quais vivo, são
piores do que os judeus e pagãos[...]. Se não tivesse
esperanças em melhores tempos e em ser útil à
Igreja, não me conservaria mais tempo em Roma, onde estou,
Deus o sabe, como preso há vinte anos, entre uma dor que se
renova quotidianamente e uma esperança muito longínqua!
Acometido por mil tempestades, minha vida é uma agonia
continuada.”
Contra investidura em cargos eclesiásticos
Um dos
maiores perigos que naquele tempo a Igreja teve que enfrentar foi a
chamada luta das investiduras. Na instituição
feudal, a investidura consistia numa cerimônia durante a qual o
senhor concedia simbolicamente o feudo ao vassalo. Neste ato,
entregava-lhe um objeto simbólico: um punhado de terra do
feudo e um ramo. No caso de serem terras eclesiásticas,
entregava o báculo ou o anel. Em conseqüência, o
vassalo ficava vestido do feudo que recebia, adquirindo sobre
ele um direito que compartilhava com o senhor. Após a
investidura, realizava-se o juramento de fidelidade e a homenagem do
vassalo ao senhor.
O problema se
colocava nas grandes propriedades de terras que a Igreja possuía.
Com efeito, durante séculos Ela havia recebido numerosas
doações de terras. E os bispos e abades de toda a
Europa administravam tais propriedades como grandes senhores feudais.
Surgia, assim, o problema político da relação
temporal entre o rei e o bispo ou o abade, como proprietário
de terras. Era natural que o rei exigisse uma certa sujeição
temporal do bispo, enquanto senhor de grandes domínios dentro
do reino. Mas, pouco a pouco, para assegurar essa fidelidade,
os imperadores passaram a nomear leigos de sua confiança para
os grandes feudos eclesiásticos. O imperador então os
investia do anel e do báculo. Não apenas lhes
outorgava a terra como feudo, mas também decidia quem seria
sagrado bispo. Em vista disso, geralmente os candidatos às
abadias e aos bispados não eram eclesiásticos, mas
simples leigos, que pagavam ao imperador enormes somas pela
investidura. A autoridade jurídica da Igreja sobre os clérigos
assim nomeados se perdia, porque eles ficavam sujeitos à
autoridade civil. A investidura laica tornou-se, pouco a
pouco, um fato consumado que era necessário erradicar, sob
pena de a Igreja perder sua independência.
E ainda, para piorar
as coisas, os bispos assim nomeados pelo imperador pretendiam que seu
cargo se transmitisse por herança à sua família.
Para isso, procuravam ter descendência. E, em conseqüência,
não respeitavam o celibato, que havia séculos já
estabelecera na Igreja do Ocidente.
Foi a partir dos imperadores saxões e sálicos (Otos e
Henriques, com exceção de Santo Henrique II) que o
problema se tornou mais agudo. Roma passou a ser considerada apenas
como uma diocese a mais.
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