Julho de 2003
Estirpes familiares
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SOS - Família

Estirpes familiares

“É muita coisa ser fruto de boa árvore, metal de boa mina, ribeiro de boa fonte” *

            Em anteriores matérias para esta seção, vimos que a intromissão estatal na instituição familiar é prejudicial não apenas à família, mas à sociedade e ao próprio Estado. Mostramos também que a boa saúde dos Estados depende da boa constituição da família, e que esta esteve na origem das cidades.

            Passaremos a considerar, neste e em próximos artigos, como se formam as estirpes familiares e o papel delas no estabelecimento de cidades e Estados; que estes tiveram suas raízes nas famílias mais antigas; e que as menos antigas acataram de bom grado a influência e governo das anteriores. 

            Entretanto, a doutrina socialista vitupera tal disposição das coisas — uma disposição orgânica, bem como um fato histórico — e o faz pelo princípio igualitário que não admite a superioridade de uns sobre os outros. Por isso, odeia o construtivo papel das estirpes familiares na organização social.

Estirpe: fonte de uma família

O que é uma estirpe? Segundo o dicionário Aurélio: Raiz. Por extensão: origem, tronco, linhagem, raça, ascendência, cepa.

Plinio Corrêa de Oliveira desenvolveu o conceito de estirpe em diversas conferências. De uma delas, pronunciada em 1º-6-1966, extraímos alguns trechos úteis para as famílias que lêem Catolicismo:

            “Uma estirpe é algo muito diverso de uma família. O que é uma família? É a conjunção de pai, mãe e filhos. Basta haver pais legitimamente casados para que haja família. Estirpe, contudo, é bem diverso. A língua francesa — que é muito precisa — fala em source, ou seja, fonte, origem. Eles tanto dizem source de uma família quanto source de um rio.

            O que vem a ser a source de uma família? O que é um homem-estirpe?

            Aquele que funda uma estirpe é um homem com personalidade bastante vigorosa para criar uma família, a qual mantém a hereditariedade de seus principais traços morais e físicos; é um homem que dá aos seus uma formação suficientemente forte para que o impulso inicial, que ele comunica a uma determinada ordem de coisas, continue depois dele; é um homem que funda uma escola de modo de sentir, de agir, de ser, de vencer dificuldades; que funda quase todo um pequeno sistema de vida.

            Eu afirmo que é preciso ter muito mais personalidade para fundar uma estirpe do que para governar um Estado. Isto, qualquer político o faz...

Harmonia entre alma e corpo

Se conceituarmos bem a família, saberemos o que é que nasceu quando dizemos que surgiram as estirpes. Mas para isso será preciso entrar a fundo na análise dessa realidade que se chama homem.

O homem é dotado de alma e corpo. E as realidades espirituais e invisíveis podem ser manifestadas aos olhos dos homens por meio de realidades materiais visíveis.

Há uma forma de nexo misterioso entre a alma e o corpo, de tal maneira que aquela tem uma espécie de símbolo neste. O corpo humano, por sua cor, traços fisionômicos, timbre de voz, dinamismo, modo de se mover, é um reflexo da alma. Ele deixa transparecer as suas qualidades, e é esse todo harmônico de alma e corpo que constitui a pessoa humana.

Assim caracterizado, o homem é susceptível de um maior ou menor desenvolvimento físico ou moral. No terreno físico, o fenômeno é por demais conhecido. Se um recém-nascido é colocado num ambiente em que suas energias físicas são estimuladas, a criança pode vir a tomar uma grande corpulência, ao menos a que lhe permita a sua natureza; mas, se colocada em circunstâncias desfavoráveis, ela definhará.

A formação da estirpe

O mesmo podemos dizer da alma. Nela existe uma série de potencialidades que se desenvolverão, se as condições forem propícias. Caso contrário, dificilmente estas qualidades se afirmarão e triunfarão. Podemos, pois, considerar um desabrochar mais ou menos completo da alma humana, de acordo com as condições em que estiver. Assim como o corpo em determinadas  circunstâncias realiza-se plenamente, assim também a alma. E é a plena realização da alma e do corpo, conjuntamente, que constitui a plena realização da pessoa humana, que é alma e corpo.

Tomando isto em consideração, melhor compreenderemos o que seja uma estirpe.

A família é a instituição de ordem natural, fundada num sacramento, incumbida da perpetuação da espécie humana e da educação da prole. É uma instituição que tem, portanto, como obrigação o desenvolver e educar ao máximo a personalidade humana. Ela cumprirá perfeitamente sua missão se fizer com que todas as qualidades do corpo e da alma, daqueles que dela nasceram, se expandam e se afirmem completamente. Ora, para isso ela é dotada de qualidades que são extraordinárias.

Herança espiritual e física

Pio XII, num discurso à nobreza romana, fala das forças misteriosas da hereditariedade [Ver texto mais adiante]. São, de fato, misteriosas, pois que até hoje os biologistas não conseguiram definir satisfatoriamente as regras que presidem a hereditariedade; mas ela é um fato, e muito importante, constatado sob mil aspectos diversos.

Cada homem traz dentro de si várias hereditariedades. Somos a resultante biológica de um sem número de correntes de vida que vieram ter em nós o seu ponto de encontro. Assim como numa lagoa existem águas de diversos rios que nela desembocam, assim existem em nós essas hereditariedades. Somos recipientes em que várias correntes do passado se fundem.

A hereditariedade física, em primeiro lugar, que se atesta pela semelhança dos traços, pela transmissão da saúde e dos defeitos; da beleza e da feiúra; da graça ou do emburramento; da elegância ou do desengonçamento; tudo são hereditariedades.

Tudo isto, embora muito relacionado com a hereditariedade física, o está ainda mais com a mental.

Transmissão de caracteres

Deus cria as almas para os corpos, e cada uma é criada com uma adequação para  determinado corpo. Assim, havendo uma hereditariedade física, Deus a respeita, criando almas semelhantes aos corpos que irão nascer. E, se bem que a alma não seja transmitida dos pais para os filhos, mas infundida por Deus, há uma continuidade na Sua obra. Assim, pode-se atestar numa mesma família uma série de disposições de alma, puramente espirituais, mas também ligadas a este fenômeno da hereditariedade.

Temos então uma realidade que na família atravessa gerações: a transmissão de um conjunto de predicados físicos e morais. Essa transmissão é o primeiro núcleo daquilo que se chama tradição. Tradere significa entregar; é o que se transmite, o que se entrega. O primeiro dado da tradição é a transmissão de caracteres físicos e morais”.

*     *     *

            Continuaremos a desenvolver o tema no próximo artigo para esta seção.

______

Nota :

* Oeuvres complètes de Saint François de Sales, Béthune Éditeur, Paris, 1836, vol. II, p. 404.

Ilustração da Árvore Genealógica de Nosso Senhor Jesus Cristo

O ensinamento de Pio XII sobre a transmissão dos caracteres hereditários

“Desta grande e misteriosa coisa que é a hereditariedade — quer dizer, o passar através de uma estirpe, perpetuando-se de geração em geração, um rico acervo de bens materiais e espirituais, a continuidade de um mesmo tipo físico e moral, conservando-se de pai para filho, a tradição que une através dos séculos os membros de uma mesma família — desta hereditariedade, dizemos, pode-se sem dúvida distorcer a verdadeira natureza com teorias materialistas. Mas pode-se também, e deve-se, considerar esta realidade de tão grande importância na plenitude da sua verdade humana e sobrenatural.

Por certo, não se negará à transmissão dos caracteres hereditários um substrato material; considerar tal fato surpreendente, seria esquecer a união íntima da nossa alma com o nosso corpo, e em quão larga medida as nossas próprias atividades mais espirituais dependem do nosso temperamento físico. Por isso a moral cristã não deixa de lembrar aos pais as grandes responsabilidades que lhes cabem a esse respeito.

Porém, o que mais vale é a herança espiritual, transmitida não tanto por esses misteriosos liames da geração material, quanto pela ação permanente daquele ambiente privilegiado que constitui a família; com a lenta e profunda formação das almas, na atmosfera de um lar rico de altas tradições intelectuais, morais e sobretudo cristãs; com a mútua influência existente entre os que moram numa mesma casa, influência esta cujos benéficos efeitos se prolongam para muito além dos anos da infância e da juventude, até alcançar o termo de uma longa vida naquelas almas eleitas que sabem fundir em si mesmas os tesouros de uma preciosa hereditariedade com o contributo das suas próprias qualidades e experiências.

Tal é o patrimônio, mais do que todos precioso, que, iluminado por firme Fé, vivificado por forte e fiel prática da vida cristã em todas as suas exigências, elevará, aprimorará, enriquecerá as almas dos vossos filhos”.

Alocução ao Patriciado e à Nobreza Romana, Tipografia Poliglotta Vaticana. 1941, p.  364. Apud Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, Livraria Civilização-Editora, 1993, p. 72.

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