Julho de 2003
Cuba: Programa “Fome...zéria”
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Cuba: Programa “Fome...zéria”

O comuno-progressismo desejaria aplicar o modelo cubano em nosso País. Mas o Brasil profundo, o Brasil real, rejeita essa sinistra proposta e aspira a um futuro em consonância com suas autênticas tradições, no sentido de preservar os valores da Civilização Cristã.

§         Luís Dufaur

O miserabilismo e o regime cubano fascinam progressistas católicos: apresentação da candidatura Lula ante adeptos da Teologia da Libertação, em 1989

“No nosso continente há um único país, de 110 mil quilômetros quadrados e onze milhões de pessoas, que não tem criança passando fome, que não tem desemprego, que não tem mendigo jogado na calçada, que não tem velho pedindo esmola. É verdade que não tem pessoas com duas televisões a cores, é verdade que não tem dois carros na garagem, é verdade que não pode ter espremedor de laranja, liquidificador, não pode ter geladeira, um fogão, não pode!”.1

Que país é esse? Cuba. Quem proferiu tais palavras? O então candidato presidencial Luiz Inácio da Silva. Qual foi a reação dos presentes? Cerca de 1.200 simpatizantes das CEBs e da Teologia da Libertação ovacionaram entusiasticamente o orador.

O fato não é novo. Mas é simbólico. Naquele dia 24 de janeiro de 1989, Lula foi apresentado na igreja de São Domingos, na capital paulista, como o candidato do progressismo católico, pelo então Arcebispo de São Paulo, Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, e nutrida representação de teólogos da libertação. Dentre eles, destacavam-se Frei Betto e o (ex-frei) Leonardo Boff.

Se Cuba, para tirar da miséria um certo número, deixou a generalidade da população sem espremedor de laranja, sem liquidificador, sem geladeira e até sem fogão, é preciso reconhecer que a emenda foi catastroficamente pior que o soneto. Entretanto, a igreja apinhada de simpatizantes da Teologia da Libertação estourou em aplausos. Como se naquelas palavras se ocultasse uma lógica profunda, por eles partilhada, mas inacessível ao comum dos brasileiros.

Naquele dia, como também hoje, o então candidato e agora presidente do Brasil externou o desejo de erradicar a fome e a pobreza no País. Mas não escondeu, nem esconde, que o regime miserabilista de Fidel Castro é um farol inspirador dos projetos mais caros ao progressismo católico, particularmente na sua vertente da Teologia da Libertação.

No centro da foto, Frei Betto

Esse fascínio é inquietante para os rumos futuros do Brasil.

Na mesma ocasião, Frei Betto, ao introduzir Lula na assembléia, explicou: “Eu sou membro de uma pequena comunidade.[...] Desta comunidade fazem parte aqui o Lula, o Leonardo Boff”. Por sua vez, Lula enfatizou a importância absoluta que dava ao progressismo católico: “Aqui no Brasil ainda tem gente que chama vocês de comunistas: ‘esses padres do demônio, esses jovens do demônio!’ [...]. Vocês, companheiros, que participam em comunidades, vocês têm um papel extraordinário neste País e fora deste País. Eu sou daqueles que acreditam piamente que, sem a Igreja, não há saída para o nosso continente”.2

            Estabelecida essa aliança de fundo religioso, para onde rumará o Brasil? Para algo parecido à “terra da promissão cubana”, com o seu ainda ativo paredón? Para uma experiência renovada, mas numa linha análoga ao castrismo? Há chance para uma saída, como tantos brasileiros desejam, que não desfeche no caos?

Fuzilamento de anticastristas na década de 50

Marxistas históricos chocados com o comunismo cubano

            A perplexidade foi acrescida pelo inclemente fuzilamento, em abril último, de três jovens cubanos que tentaram fugir da ilha-prisão. Normalmente, esse ato deveria ter provocado uma condenação sonora e imediata por parte das esquerdas brasileiras no poder. E isso até por razões políticas. Não podiam elas ignorar que a sensibilidade nacional ficara chocada com a extinção dessas três vidas de modo tão arbitrário. Porém esquivaram-se de condená-la, preferindo pagar um alto preço — tanto do ponto de vista moral quanto propagandístico — do que contradizer o modelo cubano.3

            Até veteranos do ateísmo anticristão, como o blasfemo escritor português José Saramago, condenaram a absurda execução. Em vista disso, foram reprovados pelos seus camaradas comuno-progressistas. Tais ateus, acostumados a estarem na crista da onda, subitamente perceberam que seus companheiros de rota católicos os tinham deixado para trás.4 Os fuzilamentos de Havana e seus desdobramentos revelaram que as esquerdas latino-americanas, em larga medida criaturas das CEBs e da Teologia da Libertação, rumam para uma situação que estarrece até marxistas clássicos. E a velha guarda entregou os pontos, desapontada. “Cuba [...] perdeu minha confiança, destruiu minhas esperanças e decepcionou minhas ilusões”, desabafou Saramago.5

A Teologia da Libertação foi alvo de uma condenação da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Porém, os bispos, padres e leigos que a seguem, pouco ligaram para tal condenação, e prosseguiram incólumes a sua obra de desagregação do continente latino-americano. Eles desafiam até seus companheiros da velha guarda e apressam-se em atingir seus fins, sem parecer temer sanções eficazes da Hierarquia eclesiástica.

O que tem Cuba que tanto fascina as esquerdas brasileiras, desde alguns esclerosados marxistas-leninistas até macro-capitalistas de esquerda, e sobretudo progressistas comuno-católicos? O brasileiro comum tem direito a ser esclarecido sobre isso.

O inferno carcerário cubano

Poucos meses após dominar Havana, Fidel Castro decretou a Reforma Agrária, confiou o Instituto Nacional de Reforma Agrária a marxistas ortodoxos e ordenou a invasão das grandes propriedades agrícolas. Concomitantemente, começaram os massacres de burgueses e opositores.

Em 1964, os detidos trabalhavam quase nus em assentamentos ou em pedreiras. Como punição, deviam cortar erva com os dentes ou eram jogados em fossas de excrementos. Os guardas aplicavam-lhes Pentotal e outras drogas. No hospital de Mazzora, recorriam a eletrochoques ou simulavam execuções.­ A prisão que deixou reputação mais terrível foi La Cabana. Em Boniato, presídio de alta segurança, reina a violência e crueldade. Certos presos políticos, para afastar os homossexuais, lambuzam-se com excrementos. Em outros cárceres, há jaulas de ferro e as mulheres são entregues ao sadismo dos guardas.

A repressão atualmente é dirigida pelo Departamento de Segurança do Estado. Participam também as Fuerzas Especiales do Ministério do Interior em colaboração estreita com a Dirección 5 e a Dirección de Seguridad Personal, guarda pretoriana do ditador.

20% dos cubanos estão exilados, o que representa cerca de 2 dos 11 milhões que constituem a população total. Desde 1959, mais de 100 mil cubanos passaram por campos de concentração ou por prisões, tendo sido fuzilados de 15.000 a 17.000.

__________

Fonte de referência: Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin, O livro negro do comunismo. Crimes, terror e repressão, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1999, 917 pp.



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