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Para onde ruma a Europa?
Nas capitais do Velho Continente discute-se o
projeto de Constituição Européia; em Berlim
reúne-se o Kirchentag ecumênico; e em São
Petersburgo irrompe a exigência de uma Europa sem fronteiras,
dos Urais ao Atlântico. Indícios estes da formação
de uma Europa laica e igualitária, na qual os restos da
Cristandade terão sido enxotados radicalmente.
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Renato Murta de Vasconcelos
Especial para
Catolicismo
Cardeal Lehmann, presidente da Conferencia Episcopal Alemã, o metropolita greco-ortodoxo Lambardakis e o metodista Walter Klaiber
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Madri – Há pouco foi concedido em
Aix-la-Chapelle (Alemanha), a Valéry Giscard d´Estaing,
ex-presidente da França, o prêmio Carlos Magno, por seu
empenho a favor da unidade européia. Com efeito, ele é
o presidente da Convenção para o Porvir da Europa,
que acaba de apresentar aos chefes de Estado do velho continente
reunidos em Tessalônica o projeto de uma Constituição
Européia. Giscard d´Estaing impediu que nele se
incluísse qualquer referência a Deus, apesar de
veementes e numerosos apelos em sentido contrário. Em seu
lugar, ele inseriu princípios filosóficos iluministas
e profundamente anticristãos, como conditio sine qua non
para a propalada República da Europa laica e igualitária,
contra a qual os Papas sempre julgaram seu dever advertir a
humanidade.
Nesse projeto, atualmente discutido nas capitais
européias, as origens cristãs da Europa, a benéfica
influência da Igreja sobre os bárbaros e a formação
da Cristandade medieval, base histórica da Europa hodierna,
também são cuidadosamente omitidos. Faz-se, no projeto,
uma menção genérica à “herança
humanística, cultural e religiosa” da Europa, em
alusão à influência pagã greco-romana,
deixando margem para uma futura interpretação favorável
à contribuição cultural e religiosa
muçulmana.
Ora, foram precisamente os erros do iluminismo
— já contidos no humanismo renascentista e no
protestantismo — que geraram a crise que mina os fundamentos da
Europa cristã. E que acabaram produzindo as catástrofes
da Revolução Francesa e os desastres imensos do
comunismo.1
Assim, o preâmbulo da Constituição Européia
instaura como alicerces precisamente os fatores históricos que
vêm destruindo a ordem natural e cristã, e
concomitantemente corroendo a própria Igreja.
Entrementes surgem críticas, com diversos
graus de severidade, ao texto desse projeto. Entre elas, cabe
recordar a do Cardeal Sergio Sebastiani, ecônomo do Vaticano.
Em entrevista ao diário “La Stampa”, de Turim, o
Prelado afirmou que “retirar a Cristandade da nova
Constituição significa cortar as raízes de 2000
anos da Europa”. E o ministro das Relações
Exteriores do Vaticano, Mons. Jean-Louis Tauran, considera o
preâmbulo “desequilibrado”, posto que menciona
as correntes do Iluminismo e não se refere ao
Cristianismo. Trata-se, segundo ele, de uma “decisão
ideológica, com o objetivo claro de reescrever a História”.2
Pe. Hasenhüttl, ex-professor de Teologia Dogmática, em celebração ecumênica com uma pastora protestante
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Em Berlim, o Encontro Eclesial Ecumênico
Enquanto na capital belga elaboravam-se os termos do
preâmbulo da nova Constituição da Europa,
realizou-se na capital alemã, de 27 de maio a 1º de
junho, o Ökumenischer Kirchentag (I Encontro Eclesial
Ecumênico), que congregou centenas de milhares de assistentes.
Cuidadosamente preparado e contando com grande apoio publicitário,
o mega-evento, cujo logotipo era uma auréola estilizada, tinha
como objetivo dar impulso ao ecumenismo entre as diversas
denominações cristãs. Os jornais alemães
mencionaram a cifra de 400.000 participantes na sessão de
abertura, dos quais cerca de 30% eram católicos. Estiveram
presentes personalidades da Hierarquia católica — de
orientação progressista, bem entendido — tais como
o Cardeal Lehman, presidente da Conferência Episcopal Alemã,
e o Card. Walter Kasper, bem conhecido por suas posições
teológicas avançadas. Da Suíça veio Hans
Küng, sacerdote suspenso de ordens pela Congregação
para a Doutrina da Fé, por causa de sua farfalhante e
desinibida heterodoxia.
Uma chusma de políticos, de primeiro e
segundo escalão, compareceu igualmente ao Kirchentag.
Não poderiam perder essa excelente ocasião de se
dirigirem a um público tão numeroso. Utilizaram o
pódio, sucessivamente, o presidente da República
Federal da Alemanha, Johannes Rau, socialista e protestante, o
chanceler Schröder (SPD), protestante e quatro vezes divorciado,
o ministro das Relações Exteriores, Joshka Fischer
(Verdes), católico “de orientação
atéia”, o ex-ministro da Economia, Oskar Lafontaine
(SPD), também ele de origem católica. Em seus discursos
e nas respostas às perguntas que lhes foram feitas, nenhum
destes políticos mencionou uma vez sequer o nome de Deus...
Quanto aos políticos de menor importância, esses sim,
entraram em temas debatidos no Kirchentag. Assim, Annette
Schavan, católica, ministra no Estado de Baden-Württemberg
e membro do Comitê Central dos Católicos Alemães,
defendeu a introdução do sacerdócio feminino. E
o prefeito eleito de Bremen, o protestante Alois Scherf, relatou suas
experiências com celebrações eucarísticas
ecumênicas, comentando, ironicamente, que para tal não
consultou o Papa.
Extrema intolerância com os não
tolerantes
Causou grande escândalo e produziu imensas
discussões por toda a Alemanha a missa ecumênica que o
Pe. Gotthold Hasenhütll, professor emérito de Teologia
Dogmática, concelebrou com uma pastora
protestante...
Entretanto, a grande vedete do Kirchentag
ecumênico acabou sendo o Dalai Lama. O líder do budismo
tibetano, uma religião sem céu nem inferno,
bem ao gosto dos Beatles da canção Imagine,
de cabeça raspada e trajes alaranjados, foi ovacionado
freneticamente por 15 mil assistentes, que se aglomeraram diante do
Palco da Floresta.
É preciso notar que o ecumenismo do
Kirchentag tinha lá suas fronteiras. Só era
efetivo em relação aos relativistas religiosos,
pertencessem ou não a alguma confissão religiosa. Até
ateus foram convidados a apresentar seus pontos de vista durante os
dias do encontro. Movimentos de esquerda estiveram presentes, como
Attac, uma das principais entidades organizadoras do Fórum
Social Mundial de Porto Alegre. Contudo, o Kirchentag foi
intolerante para com os não tolerantes. Por exemplo, a
associação anti-abortista Aktion Leben foi
obrigada a fechar seu stand, tendo que se retirar do encontro.
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