Julho de 2003
 
Para onde ruma a Europa?
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Internacional

Para onde ruma a Europa?

Nas capitais do Velho Continente discute-se o projeto de Constituição Européia; em Berlim reúne-se o Kirchentag ecumênico; e em São Petersburgo irrompe a exigência de uma Europa sem fronteiras, dos Urais ao Atlântico. Indícios estes da formação de uma Europa laica e igualitária, na qual os restos da Cristandade terão sido enxotados radicalmente.

§         Renato Murta de Vasconcelos

Especial para Catolicismo

Cardeal Lehmann, presidente da Conferencia Episcopal Alemã, o metropolita greco-ortodoxo Lambardakis e o metodista Walter Klaiber

Madri – Há pouco foi concedido em Aix-la-Chapelle (Alemanha), a Valéry Giscard d´Estaing, ex-presidente da França, o prêmio Carlos Magno, por seu empenho a favor da unidade européia. Com efeito, ele é o presidente da Convenção para o Porvir da Europa, que acaba de apresentar aos chefes de Estado do velho continente reunidos em Tessalônica o projeto de uma Constituição Européia. Giscard d´Estaing impediu que nele se incluísse qualquer referência a Deus, apesar de veementes e numerosos apelos em sentido contrário. Em seu lugar, ele inseriu princípios filosóficos iluministas e profundamente anticristãos, como conditio sine qua non para a propalada República da Europa laica e igualitária, contra a qual os Papas sempre julgaram seu dever advertir a humanidade.

Nesse projeto, atualmente discutido nas capitais européias, as origens cristãs da Europa, a benéfica influência da Igreja sobre os bárbaros e a formação da Cristandade medieval, base histórica da Europa hodierna, também são cuidadosamente omitidos. Faz-se, no projeto, uma menção genérica à “herança humanística, cultural e religiosa” da Europa, em alusão à influência pagã greco-romana, deixando margem para uma futura interpretação favorável à contribuição cultural e religiosa muçulmana.

Ora, foram precisamente os erros do iluminismo — já contidos no humanismo renascentista e no protestantismo — que geraram a crise que mina os fundamentos da Europa cristã. E que acabaram produzindo as catástrofes da Revolução Francesa e os desastres imensos do comunismo.1 Assim, o preâmbulo da Constituição Européia instaura como alicerces precisamente os fatores históricos que vêm destruindo a ordem natural e cristã, e concomitantemente corroendo a própria Igreja.

Entrementes surgem críticas, com diversos graus de severidade, ao texto desse projeto. Entre elas, cabe recordar a do Cardeal Sergio Sebastiani, ecônomo do Vaticano. Em entrevista ao diário “La Stampa”, de Turim, o Prelado afirmou que “retirar a Cristandade da nova Constituição significa cortar as raízes de 2000 anos da Europa”. E o ministro das Relações Exteriores do Vaticano, Mons. Jean-Louis Tauran, considera o preâmbulo “desequilibrado”, posto que menciona as correntes do Iluminismo e não se refere ao Cristianismo. Trata-se, segundo ele, de uma “decisão ideológica, com o objetivo claro de reescrever a História”.2

Pe. Hasenhüttl, ex-professor de Teologia Dogmática, em celebração ecumênica com uma pastora protestante

Em Berlim, o Encontro Eclesial Ecumênico

Enquanto na capital belga elaboravam-se os termos do preâmbulo da nova Constituição da Europa, realizou-se na capital alemã, de 27 de maio a 1º de junho, o Ökumenischer Kirchentag (I Encontro Eclesial Ecumênico), que congregou centenas de milhares de assistentes. Cuidadosamente preparado e contando com grande apoio publicitário, o mega-evento, cujo logotipo era uma auréola estilizada, tinha como objetivo dar impulso ao ecumenismo entre as diversas denominações cristãs. Os jornais alemães mencionaram a cifra de 400.000 participantes na sessão de abertura, dos quais cerca de 30% eram católicos. Estiveram presentes personalidades da Hierarquia católica — de orientação progressista, bem entendido — tais como o Cardeal Lehman, presidente da Conferência Episcopal Alemã, e o Card. Walter Kasper, bem conhecido por suas posições teológicas avançadas. Da Suíça veio Hans Küng, sacerdote suspenso de ordens pela Congregação para a Doutrina da Fé, por causa de sua farfalhante e desinibida heterodoxia.

Uma chusma de políticos, de primeiro e segundo escalão, compareceu igualmente ao Kirchentag. Não poderiam perder essa excelente ocasião de se dirigirem a um público tão numeroso. Utilizaram o pódio, sucessivamente, o presidente da República Federal da Alemanha, Johannes Rau, socialista e protestante, o chanceler Schröder (SPD), protestante e quatro vezes divorciado, o ministro das Relações Exteriores, Joshka Fischer (Verdes), católico “de orientação atéia”, o ex-ministro da Economia, Oskar Lafontaine (SPD), também ele de origem católica. Em seus discursos e nas respostas às perguntas que lhes foram feitas, nenhum destes políticos mencionou uma vez sequer o nome de Deus... Quanto aos políticos de menor importância, esses sim, entraram em temas debatidos no Kirchentag. Assim, Annette Schavan, católica, ministra no Estado de Baden-Württemberg e membro do Comitê Central dos Católicos Alemães, defendeu a introdução do sacerdócio feminino. E o prefeito eleito de Bremen, o protestante Alois Scherf, relatou suas experiências com celebrações eucarísticas ecumênicas, comentando, ironicamente, que para tal não consultou o Papa.



Extrema intolerância com os não tolerantes

Causou grande escândalo e produziu imensas discussões por toda a Alemanha a missa ecumênica que o Pe. Gotthold Hasenhütll, professor emérito de Teologia Dogmática, “concelebrou” com uma pastora protestante...

Entretanto, a grande vedete do Kirchentag ecumênico acabou sendo o Dalai Lama. O líder do budismo tibetano, uma religião sem “céu nem inferno”, bem ao gosto dos Beatles da canção Imagine, de cabeça raspada e trajes alaranjados, foi ovacionado freneticamente por 15 mil assistentes, que se aglomeraram diante do Palco da Floresta.

É preciso notar que o ecumenismo do Kirchentag tinha lá suas fronteiras. Só era efetivo em relação aos relativistas religiosos, pertencessem ou não a alguma confissão religiosa. Até ateus foram convidados a apresentar seus pontos de vista durante os dias do encontro. Movimentos de esquerda estiveram presentes, como Attac, uma das principais entidades organizadoras do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Contudo, o Kirchentag foi intolerante para com os não tolerantes. Por exemplo, a associação anti-abortista Aktion Leben foi obrigada a fechar seu stand, tendo que se retirar do encontro.

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