No cinqüentenário da TFP brasileira, uma resenha do combate contra-revolucionário, decisivo para a História do Brasil e do mundo
Leo Daniele
No círculo, Plinio Corrêa de Oliveira participa em 1970 do desfile no Viaduto do Chá, em São Paulo, na abertura da campanha pelo Natal dos Pobres
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Em 26 de julho de 1960 - há 50 anos, portanto - Plinio Corrêa de Oliveira fundava a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade - TFP, coadjuvado por alguns amigos. Em matéria de capa da edição anterior, foi resumida a pré-história da entidade, exposta em quatro artigos do seu fundador publicados na "Folha de S. Paulo".
Na presente edição, cabe-nos resumir alguns dos lances mais significativos efetuados pela TFP brasileira, por associações co-irmãs e autônomas de diversos países e por outras entidades contra-revolucionárias que reúnem discípulos de Plinio Corrêa de Oliveira no Brasil e no exterior.
Parte dessa história já foi consignada no livro Um homem, uma obra, uma gesta - Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira (Artpress, São Paulo, 1989), que apresenta um elenco completo das atividades das TFPs e entidades congêneres até o fim de 1988. Encontra-se também resumida na biografia do fundador da TFP - de autoria do Prof. Roberto de Mattei, vice-presidente do Centro Nacional de Pesquisas da Itália - que tem o título Plinio Corrêa de Oliveira: O Cruzado do Século XX (Editora Civilização, Porto, 1997).
Efetivamente, não há nenhum exagero em rotular como cruzada a obra empreendida pelo fundador da TFP brasileira, inspirador também das demais TFPs e outras entidades contra-revolucionárias. Cruzada que, em muitos aspectos, modificou fundamentalmente a trajetória do século XX e está exercendo influência decisiva nos rumos incertos deste limiar do novo milênio.
A razão dessa influência internacional da obra de Plinio Corrêa de Oliveira foi por ele próprio explicada, em texto que redigiu e enviou para ser lido no congresso do International Policy Forum, realizado em abril de 1985 em Dallas, Texas. Sob o título A importância do fator religioso nos rumos de um bloco-chave de países: a América Latina, ele defendeu a tese de que a América Latina tem, no mundo de hoje, peso muito maior do que era então imaginado por considerável número de europeus e norte-americanos, "ainda influenciados por clichês e hábitos mentais desatualizados", podendo-se afirmar "ser o bloco latino-americano destinado a constituir a grande potência de projeção mundial, a emergir nos albores do século XXI".
Indiscutível tornou-se hoje essa tese diante da relevância do Brasil e de países do bloco latino-americano, reconhecida em todos os foros internacionais.
Depois de fazer notar que os temas religiosos têm na América do Sul uma importância consideravelmente maior do que em outras partes do mundo, Dr. Plinio concluía: "O futuro da América do Sul se está decidindo, no momento atual, em função do debate dentro da Igreja. Se a maioria católica pender, em nome da fé, para o igualitarismo teológico e sócio-econômico, a América do Sul será comunista. Se ela resistir a tal igualitarismo em nome da fé, será contrária ao comunismo".
Ora, todos os analistas sérios reconhecem que outro teria sido o resultado da Guerra Fria e da história do mundo, caso a América Latina se tivesse tornado comunista e satélite de Moscou.
Nesse "canal estratégico" da ofensiva comunista - que através da Teologia da Libertação pretendia obter o apoio das massas católicas latino-americanas para o socialismo - Plinio Corrêa de Oliveira colocou sua "esquadra ligeira". A partir daí, por meio de uma incessante ação ideológica, ofereceu tenaz resistência à ofensiva dos corifeus da esquerda católica instalados em altas posições de poder e influência na Igreja Católica latino-americana, subtraindo-lhes o indispensável apoio popular.
O colapso da União Soviética, seguido da interesseira abertura ao mercado feita pela economia do opressor regime comunista chinês, tornou patente diante do mundo o fracasso do regime sócio-econômico comunista.
Metamorfose do comunismo por meio da "revolução cultural"
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira nos anos 60
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Na Parte III do seu ensaio Revolução e Contra-Revolução, redigida em 1975, Plinio Corrêa de Oliveira havia prenunciado que, apesar desse fracasso do comunismo, o Ocidente e o mundo não se desintoxicariam do veneno deixado nas entranhas da sociedade pelos princípios da Revolução comunista anticristã. O mais gritante sintoma de concretização dessa previsão foi que, depois da queda do Muro de Berlim, nem sequer se discutiu seriamente a realização de uma "Nuremberg do comunismo". Bastou então às correntes de esquerda metamorfosear seu programa através da revolução cultural, para em nome da ecologia e dos direitos humanos visar objetivos ainda mais radicais que os do velho comunismo marxista. Amostra próxima e eloqüente dessa mudança de tática, no Brasil, é o conteúdo do Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, analisado nesta revista em junho último.
Abriu-se assim, nos primórdios da década final do século passado, uma nova fase na epopéia das TFPs e entidades contra-revolucionárias: a denúncia dessa metamorfose revolucionária prevista por Plinio Corrêa de Oliveira e o combate à ofensiva - ainda mais perigosa - dessa "nova esquerda". Com efeito, o programa que essa metamorfose desenvolve deifica a liberdade individual e impõe um relativismo radical, que nega o caráter sagrado da vida humana, do matrimônio, da família, etc, recusando à Igreja qualquer influência nos assuntos públicos.
Toda nova fase da Revolução é ao mesmo tempo herdeira e matricida da fase anterior, e na passagem do velho plano para o novo há uma situação intermediária, em que ambos os planos correm paralelos, sendo um em processo ascensional e o outro em declínio. Como se verá mais adiante, dependendo da situação específica do avanço revolucionário em cada área de civilização e em cada país, a ação contra-revolucionária tem continuado primordialmente no campo sócio-econômico (como na primeira fase); ou tem, ela também, evoluído para contrapor-se aos temas da "revolução cultural".
Mensagem de Fátima e moral católica
Um setor de atividades das TFPs e entidades contra-revolucionárias cresceu muito com o correr dos anos, e merecem especial atenção as suas campanhas de difusão da Mensagem de Fátima. Já existiam na fase de luta mais especificamente anticomunista - o que era natural, uma vez que Nossa Senhora falou dos "erros da Rússia" que se espalhariam pelo mundo inteiro. Mas a difusão que a entidade faz da Mensagem de Fátima tomou um vulto ainda maior, acompanhando simetricamente a metamorfose da Revolução, que colocou em surdina suas reivindicações sócio-econômicas e passou a enfatizar as questões culturais e sociais, intimamente conexas com a Religião.
Outro destaque merece ser feito para as campanhas de difusão fundamentadas na moral religiosa - contrárias ao aborto e ao "casamento" homossexual, entre outras - que visam revigorar a fibra religiosa do povo, para que ele reaja de maneira conseqüente em defesa dos valores inerentes à Lei divina, situados no centro das atuais controvérsias. Bento XVI os qualificou adequadamente de "valores não negociáveis".
Afirma o Prof. Roberto de Mattei, em sua referida biografia, que "a trilogia Tradição, Família e Propriedade, mais do que designar as associações fundadas e inspiradas por Plinio Corrêa de Oliveira, resume a sua concepção do mundo, a qual reflete, por sua vez, os fundamentos da doutrina social da Igreja", que são o oposto do ideal comunista.
As campanhas de rua
Um aspecto que caracterizou de maneira inconfundível as TFPs é a surpreendente novidade de seus métodos de ação.
Para quebrar a barreira do silêncio imposta pela mídia, atingindo assim diretamente o público, Plinio Corrêa de Oliveira concebeu grandes campanhas de rua, em que os membros da TFP pudessem atrair a atenção dos transeuntes. Em 30 de março de 1965, bem no centro de São Paulo, apareceram pela primeira vez no conhecido Viaduto do Chá os grandes estandartes rubros com o leão rompante, complementados em 1969 pelas capas vermelhas. Ambos destinados a produzir sobre a opinião pública "um choque vivificante e salutar, que simboliza a contra-ofensiva do Bem", compõem o que um jornalista descreveu como "o charme grandioso da TFP".
Outro meio espetacular de propaganda, concebido por Dr. Plinio, são as chamadas "caravanas": grupos de jovens que viajam de cidade em cidade, fazendo campanha de rua, visitando personalidades locais, falando nas emissoras de rádio e TV. Desenvolvem um apostolado "itinerante" até nas áreas mais afastadas do País.
Desenvolvimento do assunto
Não cabendo no breve espaço de artigo um relato circunstanciado das inúmeras campanhas empreendidas pela TFP brasileira e outras associações contra-revolucionárias inspiradas nos mesmos princípios - isoladamente ou em conjunto com suas co-irmãs de outros países -, nos cingiremos ao elenco dos episódios especialmente marcantes dessa epopéia, iniciada há meio século.
Para evitar contínuas mudanças de tema, agrupamos o relato em diferentes partes, cada uma delas apresentando um esboço da tarefa realizada a partir de 1960 numa área específica. Mas o leitor deve ter presente, na leitura de cada parte, que a TFP estava simultaneamente agindo nas outras áreas.
Não podemos deixar de mencionar a transcendência do fato ocorrido no dia 3 de outubro de 1995, quando Deus chamou esse filho de Nossa Senhora que foi Plinio Corrêa de Oliveira, privando seus discípulos de suas luzes, seu entusiasmo comunicativo e sua paterna benevolência.
Convém igualmente lembrar outro fato, ao qual se fez referência na matéria da edição anterior: dissidentes iniciaram em 1997 um processo pelo qual, por decisão judicial provisória, a TFP brasileira passou em abril de 2004 para as suas mãos. De tal decisão pende recurso no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília. As menções à TFP nas primeiras quatro partes deste artigo se referem, pois, à TFP brasileira antes daquela data, salvo se especificada a TFP de algum outro país.
Essas duas circunstâncias — o falecimento do fundador e a dissidência — não arrefeceram, porém, o ânimo resoluto dos discípulos de Plinio Corrêa de Oliveira, que não somente prosseguiram a luta nos moldes definidos por seu inesquecível mestre, pessoalmente e em novas associações que criaram, mas a ampliaram para novas áreas, notadamente as nações católicas do ex-bloco soviético. E aplicam também seus métodos de ação nas imensas possibilidades abertas pela Internet e pelas novas tecnologias da informação.
Não se esquecem, por certo, de recorrer continuamente à poderosa intercessão do seu fundador, que do Céu continua a lutar e orientar os discípulos, obtendo para sua cruzada os insignes favores da Santíssima Virgem. É o que transparecerá no relato que segue.
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