Abril de 2012
Espírito Francês
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Ambientes, Costumes e Civilizações

Monumento ao mosqueteiro D'Artagnam, em Paris, que bem exprime o "espírito francês"

Exemplo de gentileza com "alfinetada"

Plinio Corrêa de Oliveira

A França tem um pouco de tudo das demais nações europeias. Na gentileza aparece algo da bondade portuguesa; no mosqueteiro se nota qualquer coisa do garbo espanhol; na arte vêem-se algumas semelhanças com o bom gosto italiano; no espírito lógico observa-se alguma coisa do gênio alemão.

A França é o ponto de encontro da latinidade com o mundo germânico, que formou um conjunto de predicados mais ou menos indefiníveis.

Pode-se falar da França das catedrais ou dos castelos da Idade Média; do Ancien Régime ou do século XIX. Certamente não da França de hoje. Pode-se falar da arquitetura, da pintura, da escultura, da literatura, da música. Depois de ter falado de tudo isso, ter-se-ia a impressão de não se ter falado do essencial, que é o espírito francês, o qual se exprime melhor pelas migalhas da vida do dia-a-dia.

Conto um fato para ilustrar o que é o espírito francês.

No século XIX, um príncipe "isopor" - ou seja, do gênero "matéria plástica" - da casa de Napoleão, mandou um livro com poesias compostas por ele para Victor Hugo, o grande literato que gozava de fama mundial. Como dedicatória escreveu: "Monsieur Hugo, estas são umas pequenas poesias que compus em tempos livres. Estarão tão ruins assim?".

As poesias eram péssimas!

Victor Hugo não teve dúvida, dardejou uma resposta em cima do príncipe. Resposta que para ele era embaraçosa, pois estava meio ligado ao mundo do bonapartismo e não queria esfriar as relações que mantinha com o governo. Assim, não podia dizer que as poesias eram péssimas… Seria um fator negativo para o estilo de relações que ele desejava manter. Mas, por outro lado, não podia dizer que eram bonitas, porque o príncipe poderia mandar imprimir um livro contendo as poesias e o elogio… Isso desacreditaria Victor Hugo enquanto literato. Então precisava arranjar uma saída que colocasse o príncipe no devido lugar, mas sem ofendê-lo, a fim de continuarem amigos.

Reputo como eminentemente francesa a resposta de Victor Hugo: "Monseigneur, pergunto a Vossa Alteza o que acharia se eu quisesse ser príncipe em minhas horas vagas?".

Resposta magnífica, na qual se nota a gentileza, mas com uma pitada de impertinência um pouquinho salgada e que faz sorrir! Em vez de eu descrever o que é o espírito francês, com esse dito dou uma amostragem. Não é uma obra-prima, mas vale porque isso é frequente na França. Hugo colocou-se tão abaixo do príncipe, que deixa o outro à vontade. Mas deu-lhe uma tal "alfinetada", que o príncipe certamente nunca mais escreveu poesias…
Vejam como a coisa é pensada dentro da rapidez. Em outros termos, foi dito o seguinte: por que é que o senhor dessa ser escritor, quando é príncipe? Ser um verdadeiro príncipe lota a vida de um homem! Viva a sua vida que eu vivo a minha! Hugo mostra que um homem comum não pode ser príncipe nas horas vagas, porque exige uma postura, atenção e esforço a vida inteira! Ele deixa evidenciada a alta condição de príncipe, mas, ao mesmo tempo, dá-lhe uma "alfinetada"!

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 21 de fevereiro de 1981. Sem revisão do autor.

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