| Urnas desmentem pesquisas A análise do quadro delineado pelas eleições municipais de 2008 revela uma realidade política bem diversa da que nos impingem os meios de comunicação, baseados nas “verdades dogmáticas” das pesquisas Plinio Vidigal Xavier da Silveira Redijo estas linhas ao encerrar-se o primeiro turno das eleições municipais. Importantes cidades ainda aguardam um segundo turno, por isso minha análise restringe-se ao que se conhece até agora. Muitas ilações se podem desde já tirar do atual pleito, e a elas se têm entregado jornalistas, analistas e cientistas políticos. Abalanço-me a fazer o mesmo. “Inquestionadas” pesquisas
São Caetano do Sul (SP): funcionárias da Justiça Eleitoral preparam as
urnas eletrônicas que serão enviadas às seções eleitorais da cidade
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Pode-se dizer que as grandes derrotadas desta eleição foram as pesquisas de opinião. Não sei se o leitor já notou, mas nos dias que correm as pesquisas passaram a ter valor de dogmas. Comentaristas das mais diversas procedências e orientações analisam a realidade à luz dos resultados que elas apresentam, e praticamente não as questionam. Precisamente em nossa época, tão afeita ao relativismo moral, ideológico e prático, são elas tomadas quase como verdades de fé. Mas elas se mostram falíveis, e até largamente falíveis. Disparidade entre pesquisas e votos Cito apenas três exemplos de monta, referentes a cidades de primeira importância: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em São Paulo, durante toda a corrida eleitoral, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) aparecia em primeiro lugar, com uma vantagem acentuada sobre o segundo colocado. Chegou mesmo a cogitar-se em vitória definitiva da petista no primeiro turno, quando lhe eram atribuídas intenções de voto de 47%. As pesquisas de boca-de-urna também deram vitória à candidata petista. Entretanto ela foi para o segundo turno; e, bem ao contrário do que indicavam as pesquisas, já no primeiro turno ela amargou um inesperado segundo lugar. No Rio de Janeiro, pesquisas de opinião chegaram a apontar Eduardo Paes (PMDB) como não tendo chances; e sobretudo asseguravam, até o último instante, que Marcelo Crivella (PRB) passaria ao segundo turno. Eduardo Paes venceu no primeiro turno, e Marcelo Crivella foi afastado da corrida eleitoral por Fernando Gabeira (PV). Em Belo Horizonte, ocorreu o fato que considero mais escandaloso. A candidatura de Márcio Lacerda (PSB), de uma tão decantada aliança arquitetada pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e o prefeito da cidade, Fernando Pimentel (PT), obteria esmagadora vitória no 1º turno, conforme as pesquisas. A cinco dias da eleição, de acordo com o DataFolha, Lacerda contava com 45% da preferência do eleitorado; e Quintão, com apenas 23%. Quatro dias depois (na véspera da eleição), ainda segundo o DataFolha, Lacerda subiu para 48%; e estranhamente, Quintão para 35%, mantendo-se ainda uma diferença de treze pontos percentuais. Contrariando tudo isso, as urnas conferiram 43,59% a Lacerda e 41,26% a Quintão, num quase empate. Erro ou manipulação?
São Paulo às vésperas das eleições
municipais de 5 de outubro
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O exíguo espaço deste artigo não permite debruçar-me detidamente sobre os métodos, validade e papel das pesquisas de opinião. Entretanto, as falhas que acabo de apontar não constituem casos isolados. Em todo o mundo, pesquisas de opinião têm sido fragorosamente desmentidas, o que deixa uma pergunta no ar, à qual é difícil fugir: não se tornaram as pesquisas um meio de manipulação da opinião pública, nos regimes democráticos? Convém não esquecer que as pesquisas de opinião, além de contarem com a possibilidade de erros, como qualquer atividade humana, podem também ser desvirtuadas. A formulação das questões apresentadas aos entrevistados, o modo e as circunstâncias de sua abordagem, o universo consultado, a seleção das entrevistas a serem computadas na elaboração final da pesquisa, enfim, uma miríade de formas e fórmulas pode deturpar-lhes o sentido. Conta-se que Winston Churchill — o grande estadista inglês, que se opôs heróica e vitoriosamente a Hitler — afirmava de modo irônico que, em matéria de estatísticas, só acreditava nas que ele mesmo falsificava... Pesquisas e o crivo da realidade Tentam alguns explicar falhas, como as referidas, pela metodologia utilizada. A explicação, convincente na aparência, faz surgir uma dúvida. Pretende-se que a pesquisa seja um retrato fiel da realidade, mas se a diferença de métodos leva a imagens que dela divergem, há algo de fundamentalmente errado. E o errado não será, por certo, a realidade. Muitas vezes as pesquisas de opinião são confrontadas com a manifestação direta do público, e nesse momento passa-se da suposição à realidade incontestável. Nas presentes eleições, as urnas desmentiram as pesquisas, como vimos mostrando. Mas os defensores da objetividade das pesquisas não cedem, e tentam explicar o inexplicável. Em matéria intitulada Datafolha antecipou tendências das eleições, a “Folha de S. Paulo” (7-10-08) atribui os erros à “indecisão e volatilidade do eleitorado”. Estranha observação esta, pois as pesquisas demonstravam constância nos seus resultados e nas suas tendências. Se havia volatilidade, como explicar que as pesquisas não a detectaram? A matéria mais paradoxal talvez tenha sido a estampada pelo caderno “Eleições 2008” do “O Estado de S. Paulo” (6-10-08): Urnas contrariam pesquisas, mas especialistas negam falhas, dizia o título. Ou seja, a realidade palpável do voto desmentiu as pesquisas, mas as pesquisas é que diziam a verdade. São afirmações como essa que levam à constatação inicial deste artigo, de que as pesquisas hoje passaram a ter valor dogmático. Lula não elege apadrinhados
Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM)
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Tal reflexão conduz a outro crucial aspecto do atual pleito. A imprensa tem-nos bombardeado com os elevadíssimos índices de aprovação popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu governo. Segundo as pesquisas de opinião (sempre elas), a popularidade pessoal do presidente chegaria aos 80%, enquanto seu governo beira os 70% no quesito de aprovação. Mas as urnas revelaram que tais índices estratosféricos não tiveram efeito prático, e o presidente não conseguiu eleger seus apadrinhados políticos nos locais mais decisivos para a política nacional. A máquina lulo-petista, pela voz do dirigente máximo do partido, Ricardo Berzoini, logo elaborou uma teoria para “explicar” o ocorrido: no Brasil não há transferência de votos –– sentenciou. Teoria, aliás, totalmente oposta àquela que há meses se vinha difundindo nos meios governistas e em boa parte da imprensa, a esse respeito. Popularidade autêntica
Voto do atual prefeito de Pacaraima (RR),
Paulo César Quartiero
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A verdadeira e autêntica popularidade de um líder político, máxime de um presidente, consiste precisamente em obter apoio e engajamento em prol de suas idéias e de seus projetos para o País, e assim atrair para seus desígnios o eleitorado. É verdade que as eleições municipais, sobretudo nas cidades de menor porte, têm conotações locais e até pessoais, que as tornam muito peculiares e pouco representativas da realidade política nacional. Mas é impossível negar que, nas grandes cidades e nas capitais dos estados, apesar dessas circunstâncias locais, está em jogo o destino político da nação. Nesse sentido, e como é óbvio, inúmeros analistas nacionais e estrangeiros apresentavam as atuais eleições como muito importantes para o projeto político de Lula, sobretudo com vistas à eleição presidencial de 2010. O próprio presidente o demonstrou, ao engajar em peso seu governo nas disputas municipais e ao comprometer, ele mesmo, seu prestígio pessoal em prol de determinados candidatos. No entanto, nem de longe obteve os resultados almejados. Mais ainda, em diversas circunstâncias marcantes, o apoio público do presidente teve efeito adverso e contribuiu para o decréscimo da força eleitoral do apadrinhado. Exemplos que falam por si A eleição de Marta Suplicy em São Paulo era de notória importância para Lula e o PT. Aventou-se até a hipótese de Marta vir a ser a candidata petista à presidência, no caso de uma vitória. O presidente convocou a militância a “entrar com tudo” para vencer já no primeiro turno, e piamente afirmou acreditar nessa possibilidade. Com tal finalidade participou de carreatas ao lado da ex-prefeita. O que aconteceu, todos conhecem; e, em conseqüência, os assessores mais próximos do presidente recomendaram que no segundo turno ele se mantivesse distante da disputa na capital paulista. No Rio de Janeiro, Lula começou por apoiar Molon, o candidato do PT. Este obteve apenas magros 6%. Ao perceber as poucas chances de Molon, Lula também não escondeu — nem muitos de seus ministros — suas abertas simpatias por Marcelo Crivella. O ministro Mangabeira Unger afirmou, pouco antes da eleição, que este candidato tinha o projeto político mais afinado com o Governo Federal. Crivella nem sequer passou para o segundo turno. Em Curitiba, o Governo Federal deu apoio maciço a Gleisi Hoffmann (PT), mulher do Ministro Paulo Bernardo, sendo a cidade peça-chave na estratégia governista. Dilma Roussef foi a Curitiba e empenhou todo o seu prestígio de provável candidata presidencial em prol da petista. Afirmou até que Gleisi poderia fazer em Curitiba um governo na linha do presidente Lula. Resultado? Devastadores 77,27% de votos para Beto Richa, contra os minguados 18,17% da candidata do PT e do Planalto. Em Natal, Lula também subiu ao palanque para dar apoio à petista Fátima Bezerra. Ali proferiu um dos discursos mais agressivos da campanha e garantiu que sua apadrinhada venceria Micarla de Souza, apoiada pelo senador Agripino Maia, líder do DEM no Senado. Micarla obteve 50,84% dos votos, vencendo no 1º turno e impondo mais um vexame eleitoral ao presidente. Não faltam exemplos, mas fico por aqui. Manipulação sem limites Estamos perante uma evidência: Lula não consegue mover o eleitorado para votar em seus apadrinhados, o que equivale a não apoiar seu projeto político. Essa influência bastante deficiente fica ainda mais notória se a confrontarmos com a desmedida popularidade do presidente, apontada pelas pesquisas. Mas, apesar de tal constatação clamorosa, prossegue a repetição incansável do “dogma” da popularidade de Lula. Reinterpreta-se a manifestação palpável do eleitorado nas urnas, dando a entender que ela não é aquilo que parece, ou seja, o desmentido fragoroso da proclamada popularidade presidencial. Contra essa realidade palpável, apenas a "realidade" impalpável de uma vaga pesquisa. A manipulação parece não ter limites. O termo adequado é prestidigitação –– a arte exercida por ilusionistas para embair crianças e até adultos, em espetáculos circenses: tirar coelho da cartola, e outros do gênero. E-mail para o autor: plinioxavier@catolicismo.com.br |